quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ponte de Lima e os primórdios da República



“Tinham-ma anunciado com pormenores exactos para fins de Outubro. Em todo o caso podes calcular a impressão que senti. Muitas vezes nas nossas conversas constatávamos, como filósofos, que Portugal era uma monarquia sem monárquicos. Os factos confirmaram essa observação, e mostraram ainda que essa monarquia também não tinha monarca.
O entusiasmo que vai por aí não pode ser filho senão de uma grande fé. Deus queira que os homens do novo regime saibam aproveitar-se dessa circunstância para levantar o país da miséria em que o lançaram o egoísmo mais abjecto – a mais estúpida e escandalosa ambição.

António Feijó (Cartas a Luís de Magalhães)


[1.ª publicação - 2010.10.05]


Nesse dia, uma sexta-feira, é proclamada, nos Paços do Concelho de Ponte de Lima, a República.

Impaciente, querendo assumir rapidamente a gestão, a Comissão Municipal Republicana, convida a população a comparecer nos Paços do Concelho, pelas duas horas da tarde.

Faz redigir, pela mão de um dos seus membros presentes, Francisco Pereira Campos, uma acta, que, segundo o jornal O Commercio do Lima, n.º 211 de 8 de Outubro de 1910, tinha o seguinte teor:

"Aos sete dias do mês de Outubro, e segundo da proclamação da República Portuguesa compareceram nos Paços do Concelho a Comissão Municipal Republicana representada pelos seus membros, os cidadãos António José Barbosa Perre, Francisco Pereira Campos, Bento António Gonçalves Pereira e Albino de Matos e grande massa de cidadãos. Como não estivesse presente nenhum dos membros da vereação, resolveu-se hastear a bandeira vermelha e verde, com o dístico Pátria e Liberdade e marcar para o dia seguinte a entrega e simbolizar este acto a proclamação do novo regime.

Ponte do Lima e Paços do Concelho Municipal, aos sete dias do mês de Outubro de 1910."

Falaram, de seguida, Artur Cunha, António José Barbosa Perre, decano dos republicanos locais e secretário da respectiva comissão municipal (o seu presidente, Manuel José d'Oliveira, não se encontrava em Ponte de Lima, nessa altura), os sargentos da armada, José Mendes Pinto e Joaquim José Vicente que, na companhia do seu colega Guilherme Moreira, representavam a guarnição da canhoneira Limpopo, ao serviço em Viana do Castelo, e que afirmaram que o seu ideal político, embora dentro da República, ia um pouco mais além, "um ideal muito mais alto de justiça e liberdade", e Álvaro d'Almeida, em saudação ao novo regime.

Foi assinada, logo após, a Acta da Proclamação, primeiro pelos membros da Comissão Republicana Municipal, depois pelo Juiz da Comarca e por grande número das pessoas presentes.

Ao som do "novo hino nacional", A Portuguesa, executado pela "banda dos nossos artistas", foi hasteada a bandeira republicana, cerimónia acompanhada por uma salva de tiros.

Seguiu-se um cortejo, também ao som de A Portuguesa, e com lançamento de foguetes e entre vivas à República e à Pátria, que percorreu as ruas Boaventura José Vieira, D. Pedro, António Feijó, João Rodrigues de Morais, largo do Dr. Magalhães, rua do Souto, largo da Matriz, rua da Abadia, largo de Camões, rua do Rosário, largo de S. João, rua Vasco da Gama e bairro de Além da Ponte.

À noite, no Hotel do Passeio, realizou-se um banquete, em que discursaram Rodrigo d'Abreu, Cândido da Cruz, Francisco Pereira Campos, Guilherme Mata e Teófilo Carneiro, "um novo cheio de talento e com ideias modernas", entre vivas à República Portuguesa, à liberdade, e entoações de A Portuguesa, e sendo lembrado, amiúde, "o 2.º Tenente da Armada e nosso conterrâneo* Tito de Morais", pelo importante papel desempenhado, ao comando do cruzador S. Rafael, com significativa participação para o bom êxito da revolução, como o bombardeamento do Rossio, a 4 de Outubro, com dois tiros de artilharia, que puseram em fuga as tropas monárquicas ali estacionadas e impediram, em conjunto com os outros navios da armada revoltosos, o prosseguimento dos ataques à Rotunda.
Ao banquete assistiram:
Álvaro d'Almeida, Albino de Matos, Amaro d'Oliveira, Américo Maciel Pais Carneiro, Anselmo Armando Reis de Sequeiros, António José Barbosa Perre, António José d'Oliveira, António Antunes Ferraz, António Pereira d'Araújo, Artur da Cunha Araújo, Avelino Pereira Guimarães, Bento António Gonçalves Pereira, Claudino José de Lima, Francisco Pereira Campos, Francisco Augusto Dantas, Francisco Vasques Martins, Francisco José Dantas, Francisco d'Abreu de Lima, Francisco de Melo da Gama e Vasconcelos, Guilherme da Mata, Henrique de Passos Sousa, João Manuel da Silva, João Augusto Dantas Júnior, João Manuel da Silva Braga, João Rodrigues Guerra, José Cândido Pinto da Cruz e Costa, José Martins d'Albuquerque, José Mendes da Costa Júnior, José Alves de Sousa Júnior, José de Sousa Vieira, José Joaquim Gonçalves Pereira, José Pereira Marinho, José Bento de Lima Fernandes, Júlio José de Brito, Luís José Dantas, Luís Moreira Magalhães, Luís Antunes Ferraz, Manuel de Sousa Amorim, Manuel Teixeira Júnior, Pelágio Lemos e Teófilo Maciel Pais Carneiro.
Às três horas da tarde, do dia 8, partia para Viana do Castelo a Comissão Republicana Municipal, em virtude de não ter recebido, até aquela hora, "comunicações oficiais que a autorizassem a tomar posse da Câmara Municipal".

*- Tito de Morais não era natural de Ponte de Lima. No entanto, seu pai,o agrónomo Manuel Rodrigues de Morais, havia nascido nesta localidade.


                                                                                                                                                        [actualizado.-1.ª publicação: 2006.10.07]

A Comissão Municipal Republicana, "toma posse e conta da gerência" do Município de Ponte de Lima.
Respeitando as determinações do Governador Civil do Distrito de Viana do Castelo, Belchior de Figueiredo, transmitidas por telegrama de 9 de Outubro de 1910, no dia imediato, o ainda Presidente da Câmara, Reverendo António Joaquim da Costa e Sousa, procedeu à entrega do poder aos dirigentes republicanos de Ponte de Lima.
Em cerimónia realizada nos Paços do Concelho, com numerosa assistência presente na sala das sessões, e “grande concorrência de povo no local da Praça da Rainha, fronteiro à janela da referida sala e no qual se encontrava uma força de dezanove praças do Regimento de Infantaria número três, comandada pelo Tenente senhor Joaquim Augusto de Oliveira e a Filarmónica dos Artistas, desta vila”*, assumiu a gestão camarária a Comissão Municipal Republicana, constituída pelos membros efectivos, Manuel José de Oliveira, António José Barbosa Perre, Francisco Pereira Campos, Bento António Gonçalves Pereira, Albino de Matos, José de Oliveira Martins de Albuquerque e Bernardo de Oliveira Gomes da Cunha, e pelos membros substitutos, Manuel de Sousa Amorim, Anselmo Armando dos Reis Sequeiros, António José de Sousa, José Bento Fernandes Lima, Avelino Pereira Guimarães, António Passos da Silva Brito e Manuel José de Araújo.
António José Barbosa Perre, que, como vogal mais velho, passou à presidência, e após uma breve intervenção, ainda na sala das sessões, em que historiou o seu percurso político, ao serviço da causa republicana, e salientou o facto de ter decorrido praticamente sem derrame de sangue a revolução, dirigiu-se, entre vivas e aplausos, para o pátio onde, novamente, usou da palavra, proclamando a República Portuguesa.
Seguidamente, com a força militar em continência, entre vivas à República Portuguesa, à Pátria, ao Exército, à Armada e à Felicidade Nacional, e com a filarmónica executando A Portuguesa, foi hasteada, no mastro do edifício, a bandeira verde e vermelha com a legenda, em branco, Pátria e Liberdade. No ar, misturavam-se o som dos foguetes e as ovações dos presentes.
“Por fim, o senhor Presidente Barbosa Perre, retomando o seu lugar, designou a próxima Quinta-feira, dia treze, para a primeira sessão, pela uma hora da tarde, e deu por concluído o acto de posse da Comissão Municipal, e aclamação do novo regime português”*, que, curiosamente, em Ponte do Lima, foi duplamente proclamado – a 7 e 10 de Outubro de 1910.



*- Cf. Anais Municipais de Ponte de Lima, 1938, pág. 127/129.


                                                                                                                    [actualizado. 1.ª publicação: 2006.10.11]


No mesmo dia em que a administração da Câmara Municipal de Ponte de Lima passava, oficialmente, para as mãos dos republicanos, Reinaldo Varela (Ponte de Lima*, 1861 - Lisboa, 1940), criava o seu Fado Republicano.
Reinaldo Varela, herdeiro de tradição familiar, possuía formação musical e distinguiu-se como compositor, guitarrista, cantor e professor, tendo elaborado vários compêndios, entre eles, os publicados com os títulos (grafia actualizada) de "Compêndio mais correcto e aumentado para aprender a tocar guitarra sem música e sem mestre", "Método prático e simples para aprender a tocar bandolim sem música", "Método fácil de viola francesa para aprender sem música", "Breves explicações sobre o processo de tocar guitarra e bandolim, pelo sistema de algarismos".
O seu nome ficará, para sempre, ligado à história do fado, quer como compositor (os seus fados ainda são interpretados, na actualidade), quer como cantor, tendo gravado cerca de 150 discos, a partir de 1904. O recente protocolo, assinado entre instituições nacionais e o inglês Bruce Bastin, para aquisição, pelo nosso país, de parte do importante espólio deste coleccionador, no caso e na sua maioria referente a fado, veio chamar à ribalta este nosso conterrâneo*, e vai permitir-nos, esperamos que brevemente, desfrutar da sua arte.

Já raiou pr’a Portugal
A aurora d’um novo dia,
Será o novo regime,
O nosso farol e guia.

Ao ribombar da metralha
E ao som da Portuguesa
O povo tornou-se herói
Expulsando a realeza.

Há muito que Portugal
Pátria d’um povo guerreiro
Devia pela Republica
Livrar-se do captiveiro.

Enfim chegou o momento
De lutar pela igualdade!...
Brandêmos todos em coro,
Viva a Pátria e a Liberdade!
 


                                                                                          [1.ª publicação: 2006.10.11]

 (O Fado Republicano, do limiano Reinaldo Varela (1861-1940), na voz de Vitorino)

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