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quinta-feira, 15 de junho de 2023

As primeiras marchas no S. João de Ponte de Lima

 

                                         
 

No S. João, que durante muito tempo foi a principal festividade na vila de Ponte de Lima, como participação popular organizada, aos “bailes” sucederam os “ranchos” e depois destes, e ou com estes, as “marchas” que como novidade surgiram em 1955. O jornal Cardeal Saraiva anunciava que “tudo se prepara para dar às festas deste Santo o maior entusiasmo”…”marchas populares, com prémios, arraial com iluminações a electricidade, e ornamentações a cargo de Bernardo Barreiros, de Guimarães, e vistoso fogo de artifício. …”
E terá sido assim mesmo, de acordo com o referido jornal “a concorrência foi o que se pode chamar muito invulgar… além dos números já conhecidos de anos anteriores, todavia este ano bem melhores, houve o cortejo de carros e ranchos folclóricos dos nossos três bairros… “e devemos frisar que qualquer dos bairros agradou imenso pelo imprevisto e colorido das suas marchas…” os carros “do Pinheiro: «Castelo», «Camões», «Varinha de Condão», «Caramanchão» e «Artilharia»; Arrabalde: «Moinho», «Caravelas», «Carro das Damas», «Jardim da Madalena» e «Espadeladeiras»; Além da Ponte: «Pelourinho», «Anjo da Guarda», «Pedreira», «India Portuguesa» e «Princesa» ….”
Depois, em Agosto, se revelava que “conforme classificação oportuna, foram assim distribuídos os prémios referentes a estes interessantes grupos: 1.º Prémio – Rancho do Pinheiro; 2.º - Rancho de Além da Ponte e 3.º - Rancho do Arrabalde.”
Fonte: diversos números do ano de 1955 do jornal Cardeal Saraiva.
Ilustração: recriação de postal da alameda e capela de S. João em Ponte de Lima.
Nota. publicado anteriormente na página do facebook, a 27 de Junho de 2022.

terça-feira, 13 de junho de 2023

1923 (HÁ CEM ANOS) – OS SANTOS POPULARES EM PONTE DE LIMA

 


1923 (HÁ CEM ANOS) – OS SANTOS POPULARES EM PONTE DE LIMA

 

S. ANTÓNIO

1.1 – Lugar de Crasto – Ribeira (dia 13 de Junho)

1.2 – Refoios (dia 13 de Junho)

1.3 – Fornelos (dia 13 de Junho)

1.4 – Vitorino de Piães (dias 16 (?), 17 de Junho)

1.5 – Igreja de Santo António da Torre Velha – Arcozelo (dia 17 de Junho)

 

S. JOÃO

2.1 – Ponte de Lima (dia 23 e 24 de Junho)

 

S. PEDRO

3.1 – S. Martinho da Gandra (dias 28 e 29 de Junho)

3.2 – Bairro de Além da Ponte – Arcozelo (dia 29 de Junho)

 

SANTO ANTÓNIO

Sendo o dia 13 em quarta-feira, realizaram-se (pelo menos foram anunciadas) festividades na Ribeira, Refoios e Fornelos. Em Vitorino de Piães e Arcozelo preferiram os festejos no fim-de-semana.

1.1.RIBEIRA

“No vizinho e pitoresco local da Cruz de Pedra”, “grandes festas ao taumaturgo Santo António”, com, na capela da Cruz de Pedra, missa solene acompanhada a órgão e vozes pelas meninas da creche da vila, sob a regência de Augusta de Araújo Lima, desafio de futebol, banda de música de Moreira do Lima, arraial com iluminação, bazar de prendas, descantes populares ao desafio, grande cascata, representação da comédia, em um acto, «O Actor e seus vizinhos» desempenhada por um grupo de amadores da freguesia.

 

1.2.REFOIOS

Com toda a solenidade e a participação da Banda dos Artistas (Vila).

 

1.3.FORNELOS

Solenidades religiosas, sermões, pelo Abade de Sandiães e pelo Abade de Argela, Caminha, arraial com o concurso da Banda de Cabaços, procissão, fogo-de-artifício.

1.4.VITORINO DE PIÃES

Grande arraial com iluminação, fogo e música e representação do drama de Santo António, solenidades religiosas, procissão, continuação do arraial com descantes populares, música e repetição do drama de Santo António, etc.. Tocou, durante o dia, a banda de Cabaços.

1.5 ARCOZELO

Igreja de Santo António da Torre Velha, “do bairro de Além-da-Ponte”, de manhã solenidades religiosas, de tarde sermão e procissão. Tocou, durante o dia, a Banda dos Artistas de Ponte de Lima.

 

S. JOÃO

2.1. PONTE DE LIMA

Embora organizada fora da responsabilidade da Irmandade, que assumiu a direcção dos festejos a S. João, era prometida, para o dia 24, “uma magnífica tourada”. Não se confirmou.

Certo é que no dia 27 de Maio se procedeu ao costumeiro “içamento da bandeira de S. João, com muita assistência, queima de foguetes, descantes populares, e a participação da Banda dos Artistas de Ponte de Lima que, feita a cerimónia, liderou cortejo por várias ruas tocando o hino do Santo, para satisfação de muito povo.

A 15 de Junho tiveram início, na sua capela na alameda, as novenas. A 23, um sábado, sendo juíza “a simpática menina Albertina Rodrigues da Silva Caridade, filha do abastado proprietário da freguesia de Vitorino das Donas…Sr. Manuel Rodrigues da Silva Caridade…e juiz o menino Manuel de Faria Sampaio, filho do …Sr. Adelino Ribeiro Sampaio, digno presidente da Comissão Executiva da nossa Câmara Municipal”…, tiveram arranque os festejos.

Os dois jornais da terra, o Cardeal Saraiva e o Rio Lima, ambos então semanários e publicados ao domingo, não saíram nesse dia 24, mas, regressados a 1 de Julho, não deixaram de relatar os festejos. Mais ironia, no Cardeal Saraiva, mais descrição, no Rio Lima. Sabemos, pelo segundo, que o fogo-de-artifício era do Sr. Cálon, de Ponte da Barca, as bandas de música dos Artistas de Ponte de Lima, dos Arcos de Valdevez e a de Cabaços, que a procissão tinha muitos anjos e o sermão foi proferido pelo pároco de S. Paio de Jolda, Arcos de Valdevez, que os bailes «A Esfolhada» e dos «Camponeses» tiveram na organização António José Linhares e José Narciso Vieira, e que na garraiada se distinguiram o cavaleiro José Lisboa e o bandarilheiro Artur Cunha. O primeiro, embora afirme que “correram brilhantíssimos os festejos”, e “o fogo e as iluminações agradaram muito”, escreve que “os bailes deixaram muito a desejar, a procissão regular, o desafio de futebol [Sport Club Triângulo Negro, de Ponte de Lima – Sport Club Nun’Alvares, de Ponte da Barca], devido ao calor, não se chegou a concluir, a garraiada, com garraios, talvez fosse brilhante… a respeito de pegas os bois pegaram regularmente nos respectivos forcados, finalmente, tudo correu bem: não houve desastres, nem roubos, nem coisas parecidas.”

Uma semana depois, na sua gazetilha, o Pai-Paulino (Malafaia Neto)), “recorda” a garraiada: “Em honra do S. João/ Na nossa praça de touros,/ A suarem como mouros, / Os destemidos caixeiros,/ Fizeram a garraiada:/ Deram terra p’ra feijões. / Corrida e trambolhões/ Sempre alegres, presenteiros. // Zé-Lisboa mui garboso. / Montado no seu Alter, / Espanou, como se quer,/ Toda a poeira da arena;/ Vermelho como um tomate/ O Joaquim, do Morais/ Deu até saltos mortais/ Para agradar á pequêna// O Artur fez belos câmbios,/ Lorôto pegou de lado/ O Lôpo foi volteado/ Os passes foram p’ro Cunha/ O que a todos fez pasmar,/ Até o mesmo animal, / Foi o caso original/ Dum Rato pegar á unha.//Só três bois foram lidados,/ Os outros, com muita graça,/ Limitaram-se a ver a praça/ Qu’os diestros deixam franca,/ E diz-se, pela calada,/ Que lá foi todo o sabão/ P’ra lavar num caldeirão/ As manchas da roupa branca…”

 

S. PEDRO

3.1. S. MARTINHO DA GANDRA

O correspondente do jornal Rio Lima (A. Caldas) noticiava que em “S. Martinho da Gândara…uma das aldeias mais belas do nosso Minho… um grupo de rapazes resolveu festejar… o Santo Claviculário da Corte Celestial.” Escrevia que “já há três anos... se vem realizando esta festividade…” fazendo também parte da comissão “a senhora D. Conceição Paiva e seu irmão Sr. Albano Paiva“ andam estes a “ensaiar um engraçado baile que se exibirá por ocasião daqueles deslumbrantes e grandiosos festejos”.

   Mais tarde, o jornal Cardeal Saraiva resumia o programa: “solenidades religiosas, grande arraial com 3 bandas de música, cascata, iluminações, descantes ao desafio, fogo-de-artifício”. O mesmo jornal, em posterior número, confirma que o S. Pedro “foi ruidosamente festejado”.

3.2. ARCOZELO

Festejos com “cascatas, música, quermesse e outros números de atracção”.

...

Nota: A informação, baseada em relatos ou publicidade, em alguns casos é incompleta, só anuncia, e não permite, com rigor, confirmar algumas das iniciativas mencionadas.

Fontes principais: jornais Cardeal Saraiva e Rio Lima

Crédito da Imagem: Recorte de capa da autoria de Alfredo Cândido, da revista Brasil-Portugal, n.º 202 – 16 de Junho de 1907.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...

 


...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...


De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO [excerto]

 

1.1  - A FEIRA E A PONTE

  «No século XII, o lugar de Ponte não era pobre, nem pouco povoado, nem desprovido de acessos porque tinha o rio, os atalhos, a ponte e a estrada da época dos romanos a servir o vaivém dos homens na rota da feira, das festas, das tropas e das jornadas peregrinas. Por aqui passavam os bufões, que tinham acompanhado a turbamulta dos mercenários suevos, a arregalar os olhos da assistência com o atrevimento das suas danças, velhacarias, diabruras, chistes, caretas e disfarces… Mais tarde, no tempo da vila medieval chegam outros marginais: menestréis, jograis, bailarinas, ciganas, charlatães e trupes de saltimbancos.»[1]

   E assim por outros tempos, enquanto terra a bordar a única ponte[2] existente a unir as duas margens que o rio Lima separava, e após, onde a feira[3] criava um bulício especial, de homens e suas transacções, muito além do quotidiano.  

   Com o crescimento e estruturação do concelho passam também a pertencer-lhe os usos e costumes dos vulgos anexados, as suas crenças e diversões.

 

   1.2 – FESTIVIDADES. OS TURCOS DE CRASTO. 

   Do contencioso gerado por decisão do Corregedor da Comarca a 28 de Março de 1536, na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537,[4] consta que algumas práticas são consideradas de antigo e imemorial uso e costume que sempre fora na dita Vila (Ponte de Lima) por honra da Festa de Corpus Christi. E nela, que a esta localidade poderá ter chegado praticamente nos alvores da sua introdução em Portugal em Coimbra, festa a 1266 e com procissão a 1307,[5] como é conhecido, os espectáculos rivalizavam, quando não se fundiam ou turbavam, a religiosidade. A «procissão até 1749 fazia-se...com as cenas burlescas, ridículas e grotescas dos grémios dos diferentes mesteres, danças, folias, coros de diabos e diabas com seus uivos e lubricidades que divertiam o povo. Atrás disto seguia um homem a cavalo, figurando de S. Jorge com seu pajem, e após a Procissão séria, como hoje se usa. Aquelas caricaturas acabaram em 1750 com a proibição que se contém na Provisão de D. João V, passada em Março desse ano…».[6]

   Na mesma sentença é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista e é nela que haveremos de encontrar, com maior e continuada expressão, os “Bailes,”[7]  de que alguns de cariz mais religioso chegaram a acompanhar a procissão com referências já na segunda metade do século XIX, em que o canto, a dança, a música e os diálogos se podiam unir e espalhar essas representações, diversificadas (dos Pretos Grandes, dos Pretos Pequenos, dos Canecos, dos Velhos, das Feiticeiras, dos Galegos, do Penedo, dos Pastores, da Mão de Deus, de Isabel e Zacarias, Galateia, dos Alfaiates, dos Sapateiros, dos Lavradores, dos Camponeses, das Camponesas, Uma freguesia em desordem, da Espadelada (as espadeladeiras), do Rei David, Processo do Rasga, O Povo do nosso lugar, etc.), por toda a vila. E se, por quase todos, eles eram considerados como fazendo “as delícias deste bom povinho…”,[8] “já pela sua originalidade, como pela hilaridade que provocam…”,[9]são sempre a alegria e o divertimento indispensável ao bom humor do nosso povo”,[10] em contraste flagrante também se referiu que “em verdade não sabemos se nos causa repugnância, gargalhadas ou nojo ver que a festividade dum santo…é aqui celebrada com rapazes quase nus, sujos, pintados de preto e felugem e água, fazendo pelas ruas trejeitos malcriados, selvagens, com uns regougos de sandices na maior parte obscenas. / Os tais bailes são isto: - uma selvageria.”[11]

 

    Habitualmente ao ar livre e desempenhadas por amadores locais, por vezes reforçados com elementos de outras terras,[12] ou oriundos de outras freguesias com companhia itinerante formada, como é o exemplo da de Comédia do Melinho,[13] as récitas (comédias, dramas, bailes, etc.) foram tendo lugar em festividades realizadas em muitas das freguesias do concelho limarense (entre outras, Ribeira – Nossa Senhora da Abadia, Senhor da Cruz de Pedra, Santo António; Arcozelo – Nossa Senhora das Dores, Senhora da Luz, Senhor dos Aflitos, S. Pedro; S. Martinho da Gandra – Nossa Senhora da Rocha; Calheiros – Senhor dos Perdidos; Correlhã – Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora das Neves; Estorãos – Santo Amaro; vila – S. Benedito, S. Pedro na rua António Feijó (Pinheiro), S. João; Calvelo – Senhor do Calvário; Bárrio – Nossa Senhora da Abadia).

  A mais persistente é a da «Turquia» (Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos). Com rigor, não se conhece quando se iniciou nem quem a trouxe. Parece certo que não foi criada localmente e, desde que a imprensa escrita a acompanha, sabemos que está associada à festa ao Senhor da Cruz de Pedra, no lugar de Crasto, na freguesia da Ribeira, Ponte de Lima.[14]   Desde sempre a referida imprensa lhe atribuiu antiguidade. Por exemplo, em 1892,[15] embora a considerasse produção local, precisava: «A pantomina dos «turcos e cristãos», peculiar dos de Crasto foi exibida a rigor, com denodo e saber entre as hostes beligerantes! / Os papéis, que dão água pela barba, de parte a parte foram executados sem vergonha para as caveiras das passadas gerações do lugar, que inventaram num arranque de catolicismo e mandaram para a posteridade tão famosa composição, que teve certamente o beneplácito do «Santo Ofício» …/ O povo aplaudiu, se não com tanta fé ao menos com entusiasmo igual ao dos espectadores de há cem anos!».

  A primitiva descrição, que dela conhecemos,[16] ajuda a confirmar a sua antiguidade e a informação difundida por Cláudio Basto[17] quanto a haver “sofrido, pelos anos adiante, modificações e aditamentos…”: «Seriam 3 horas da tarde ouvem os muitos romeiros que ali se achavam quase ao mesmo tempo dois hinos guerreiros um do lado da igreja paroquial da freguesia, e outro do desta vila, e pouco depois chegam daquele perto de vinte cristãos armados de lanças com uma banda de música de arraial à frente, os quais pararam em frente à capela do Senhor festejado e igual número de turcos do lado oposto, com alfanges e outra banda de música, que se colocaram em frente da casa do Sr. José Manuel Gonçalves, mediando entre uns e outros cem metros da nova estrada, orlada com os globos da iluminação da véspera.

     Aflui o povo de todas as partes, admiram-se os seus vestuários e armaduras e especialmente do rei daqueles, e sultão destes, e dos generais de ambos os bandos.

     Mal se avistam não lhes sofre o ânimo conterem-se, e uma partida de seis de cada lado caminham para a frente, e antes que os turcos usassem das suas armas os cristãos dão dois tiros, matando dois turcos, um antes de uma delas se desfechar, (tal foi o medo) e o outro depois, que ficam estirados no meio da estrada fugindo todos os restantes dez a reunir-se ao grosso da sua respectiva tropa.

     Os turcos assanham-se e marcham sobre os cristãos que fogem a encerrar-se precipitadamente no seu castelo de modo que lhes apanhados uns poucos de burros com bagagens, dois dos quais são aproveitados para conduzir escarranchados os dois turcos mortos, que vão fazendo cortesias com os olhos fechados. Os turcos altivos com a sua tomadia recolhem-se à sua praça, e querendo aproveitar a ocasião, depois de informados por espias da posição dos cristãos invadem o castelo e tomam-no, mas por uma incúria só própria do seu general, e do sultão que só tratava de mirar-se a si, e ao muito ouro que trazia ao pescoço; deixam a sua praça sem guarnição, de forma que os cristãos fugidos e acossados metem-se nela e aí se fortalecem.

     Aparecem parlamentários de uma parte e de outra, e põem-se a comer à mesma mesa, até que um mata o outro, fugindo o vivo para o lado dos seus e arrastando-se o morto para onde lhe conveio.

     Ambos os exércitos porém resolvem vir às mãos, batem-se em pelotões de quatro a quatro e depois de dois e dois, batendo com as armas nos escudos dos adversários em três encontros que têm lugar no meio da arena em corridas desordenadas ao toque de música. Em seguida batem-se um a um, e no fim das investidas cada soldado cristão vai arrastando o seu turco, depois o general daqueles arrasta o destes, e por último o rei faz o mesmo ao sultão, no meio de risadas estrepitosas e assim acabou a acção…».

  E se depois deste relato se assegurou que “o famoso episódio dos Turcos, de estilo nesta romaria, e que de largos anos tem passado de pais a filhos, invariável, uniforme, sem a maior uma simples peripécia, zombando assim da filosofia, que assevera que o mundo, e as coisas dele sempre caminham, sob o benefício influxo de um novo mundo, que se diz Progresso!,”[18] é certo que, para além de personagens e atavios, pelo menos em representações posteriores ao que nos é asseverado de que “de ordinário se representam combates de mouros e cristãos, que terminam pela morte dos primeiros a fio ou ponta de espada dos segundos,”[19] o invariável caiu, e a morte da totalidade dos turcos foi substituída pelo baptismo da maioria, como as récitas mais próximas nos confirmam.

 

 



[1]              DANTAS, Catarina; DANTAS, Luís – O Circo em Ponte de Lima, Luís Dantas, 2009, pg. 27.

[2]              ALMEIDA, Carlos A. Brochado – A Via XIX em Território Limiano, Município de Ponte de Lima, 2008, pg. 12.

[3]              RAU, Virgínia – Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Editorial Presença, 1983 (2.ª edição), pg. 63/64

[4]              VIEIRA, Ovídio Sousa; COSTA, Ana Cristina Amorim – Correr Touros em Ponte de Lima – A Vaca das Cordas, Comissão Organizadora da Vaca das Cordas, 1998, págs. 56-61.

[5]              AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, Volume 2, Círculo dos Leitores, 2000, pg.564.

[6]              LEMOS, Miguel Roque Reis – Apontamentos para as Memórias das Antiguidades de Ponte do Lima, 1873, p.67 (PT/MPTL/CMPTL35/C-F/003)

[7]                Em «Uma simples chamada de atenção…», O Anunciador das Feiras Novas, II Série, n.º III, 1986, Maria Emília Sena de Vasconcelos escreve, com base em informações de Severino Costa, “que alguns destes «Bailes» comportavam «história», (enredo, composição…) ”. No Arquivo Municipal de Ponte de Lima é possível espreitar documentos referentes a uma reconstituição do Baile da espadelada, onde não falta a “parte cénica” (PT/MPTL/GBE).

[8]              Jornal Vida Nova, Viana do Castelo, n.º 262, 26 de Junho de 1894.

[9]              Jornal Cardeal Saraiva, Ponte de Lima, n.º 152, 18 de Junho de 1914

[10]            Jornal Rio Lima, Ponte de Lima, Ano 2.ª, n.º 16, 15 de Junho de 1924.

[11]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 1397, 27 de Junho de 1880.

[12]              Como nesta em que “adoeceu o Santo…num dos domingos últimos, numa das aldeias deste concelho” numa “festa a Santo António…” onde “se fez um tablado para a representação do drama sacro St.º António; e segundo nos dizem, quem desempenhava o papel do Santo era cá da nossa vila. / O dia estava quente; e por isso a secura era natural. O homem comeu bem, bebeu melhor; e o pano do tablado corre-se. Por certo que era para começar o espectáculo. E assim foi. O espectáculo começa; os actores vão desempenhando os seus papéis, senão como deviam, ao menos como podiam, e os aplausos e saudações fervem sobre eles. / Quando o entusiasmo chegava a delírio, aparece uma pequena interrupção. No palco nota-se descontentamento e dentro do cenário manifesta-se um tal ou qual alvoroço. Tudo ficou silencioso por momentos e o palco despovoado de actores. Os espectadores interrogavam uns aos outros. E, quando se estava neste ponto, aparece um dos actores, dando a seguinte notícia. «Não continua o espectáculo, porque adoeceu o santo.»/ Vago rumor entre os espectadores; e tudo se retira com o maior sentimento. / Averiguado o caso, fora uma indigestão, porque o homem está óptimo. E assim acabou tão tristemente a festividade.” (Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 599, 18 de Julho de 1872.)

[13]            “Representação cheia de cor local, com um pronunciado cachet provinciano” sendo o Melinho, numa apreciação onde não sabemos o tamanho da ironia, “uma vocação artística completamente perdida, segundo dizem alguns estendedores. A sua figura graciosa, deveria exibir-se ao calor mordente da rampa iluminada pelo gás da ribalta, e os seus braços eram mais próprios para os grandes gestos trágicos do teatro de Shakespeare, do que para o fabrico do cerol e para retesar com fúria a presilha ensebada do tirapé. / Eis aqui um grande dilema imposto pela sorte à maleabilidade dos destinos humanos: - ser um génio ou um sapateiro…” (Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 198, 10 de Setembro de 1879.)

[14]              REIS, António Matos (1980, Origem da «Turquia» de Crasto, Almanaque de Ponte de Lima) e SOUSA, João R. (1984, Turquia – Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos), talvez os mais recentes investigadores a estudarem a peça, coincidem em designá-la de teatro popular de terreiro, tardo-medieval, dos fins do séc. XV ou inícios do século XVI, e de que não é originária do concelho de Ponte de Lima.

[15]              Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 19, 18.08.1892.

[16]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima,  n.º 510, 27.08.1871

[17]            BASTO, Cláudio (1917-1918, Lusa – Folha quinzenal de letras e ciências, Viana do Castelo, Ano I, n.º 15-16, 15 Out e 1 Nov 1917, pg. 119-124 e Ano II, n.º 30, 1 de Junho de 1918, p.45)

[18]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 709, 21 de Agosto de 1873.

[19]            Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 195, 20 de Agosto de 1879.

Ilustração: Postal de figuração do Baile da Dança do Rei David, na cidade de Braga.

 


terça-feira, 24 de junho de 2014

S. João em Ponte de Lima, 1868



(a desenvolver)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

sábado, 22 de junho de 2013

O S. João, em 1867




    O Santo assistiu às festividades, realizadas em 23 e 24 de Junho, em Ponte de Lima, da nova Ermida, para onde tinha sido levado em Procissão Solene na tarde do dia 16, do mesmo mês, um domingo. Na manhã, desse dia, tinham-lhe benzido e efectuado a primeira missa da moderna morada.
   Quis, antes de conhecer a Ermida, percorrer muitas das ruas da vila. Poderia, da Capela de Nossa Senhora do Rosário[1], próxima da ponte medieval, onde se tinha abrigado para permitir a demolição da sua antiga residência, em 1863[2], ter rumado rapidamente para lá. Mas não, esfriou a curiosidade e aproveitou o ensejo para deambular no burgo. E lá foi, na companhia do Senhor dos Aflitos, pelas Ruas do Rosário, 28 d’Agosto, Abadia, Adro da Matriz, S. José, Passeio de D. Fernando, Campo dos Touros, Largo da Regeneração, Santo António, Esperança, D. Pedro, Souto, Castelo, Italianos, Formosa, Calçada dos Artistas, Largo de S. João e Alameda das Carvalheiras até chegar à Capela, mais isolada de que o passado templo, mas permitindo-lhe espreguiçar a vista pelas areias e as águas do rio Lima, o seu recente Jordão, e vislumbrar, lá ao fundo, a vetusta ponte de pedra.
    Mas, quanto aos festejos desse ano, demos a palavra às “fontes” (jornais Echo do Lima e O Lethes), que o Santo (S. João namoradeiro…) há-de gostar do vocábulo, embora estas não jorrem água, nem aproximem as moçoilas. Trazem, no entanto, a luz que alimenta a história, como a fogueira, com ele relacionado, na tradição cristã, é aviso de nascimento.
     Diz-nos O Echo do Lima: “Correram alegres, expansivos e humorísticos os folguedos do S. João.”
   “Na noite do fogo a concorrência era imensa. O povo afluía de todas as partes para assistir às festas do grande precursor.”
      Escreve-se em O Lethes: “O S. João desta terra é um frenesi, é o tumultuar das turbas, é a expressão de júbilos espontâneos, é o que não é em outra parte!”
     “Alegria, que toca a meta do delírio!”
     “Na noite do domingo houve fogo, luminárias e entusiasmo na nova ermida do Baptista.”
      E retorna o Echo: ”Na segunda-feira percorreram as ruas da vila vários entremezes, que traziam em contínuo giro e galhofa o bom do nosso povo. De tarde houve corrida de touros, e à noite teatro que esteve concorrido, merecendo os curiosos os aplausos do público”.
   Para O Lethes: “… os bailes de antiga usança, e à tarde as toiradas… à noite houve o espectáculo anunciado, onde os curiosos se houveram como era de esperar-se de seus esforços, estudo, e paixão pela arte do proscénio”.
     Onde os dois jornais não se entenderam foi quanto às causas do desabamento do camarote ocupado por uma das bandas de música locais (a chamada NOVA), durante toirada, não provocando grandes danos aos envolvidos. Como se sabe, as rivalidades partidárias até tinham direito a expressão musical: assim, os de o Echo do Lima viram  acidente (talvez, por desleixo de montagem); os de O Lethes, segundo eles, como é voz pública, ódios inveterados e mal contidos.
    Já por cá andava o Fotógrafo Miguel de Novaes[3], a “tirar algumas vistas das muitas pitorescas, que de diferentes pontos da vila se disfrutam, e merecem representar em estampa, ao lado das admiráveis paisagens da Suíça, e margens do Reno (…)”. Infelizmente, não as temos para abrilhantar este relato.
     



[1] Esta Capela foi demolida em 1903, segundo Araújo, Jorge Pereira, in Ponte de Lima - Uma Vila Histórica do Minho, Município de Ponte de Lima, 2007, p. 287.
[2] - Conforme Lemos, Miguel Roque dos Reys, Anais Municipais de Ponte de Lima, Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1938, p.29: “Torre e porta de S. João… ambas tiveram o nome daquele santo à conta da sua capela abobadada, de grandes dimensões, que havia dentro da torre e por cima da porta…”. Situava-se à boca da actual rua Beato Francisco Pacheco, virada para o Largo de S. João.
[3] - Não consta que a fotografia com que ilustramos este apontamento lhe pertença, ela é considerada dos primeiros anos do Séc. XX (2.ª edição do Grande Hotel Marcos, Ponte de Lima, 1908).


sábado, 23 de junho de 2012

O S. João, em 1866.

   

     Não tendo terminado a construção da nova “ermida do sancto” e “devido por certo ás grandes despezas que se teem feito”, na mesma, “a festividade em honra de S. João que n’esta villa costumava fazer-se todos os annos com pompa, e de um modo convidativo, não satisfez este anno a espectativa publica”. 
   Assim, no sábado, 23, “houve à noute singela iluminação, e algum fogo de artifício”. No domingo, 24, “percorreram as ruas poucos grupos de baile”. 
    Mas, o que mais parece ter desagradado ao articulista do Lethes (n.º 147, de 26 de Junho de 1866), que nos tem acompanhado entre aspas, foi, nesse mesmo domingo, à tarde, “a clássica tourada que como de costume foi muito concorrida na maior parte pela gente do campo, que dá a este bárbaro divertimento indessivel apreço!!”. E remata, parco na notícia: ”Quando findará este espectaculo que tão pouco se harmonisa, com as ideias da moderna civilização?” 
     Ficamos, ainda, a saber, pela leitura do mesmo jornal, que a “banda de musica – a Nova “ que tomou parte no domingo “na festa de S. João, com a apresentação do grupo dançante” o fez sem ser “subsidiada por pessoa alguma”. 
     E para os que a programação de 1866, do S. João em Ponte de Lima, não fosse atraente, havia, na mesma vila, o cosmorama que, na rua da Ponte, n.º 10, o Sr. Manuel José Rodrigues tinha estabelecido, “com 2 finos sterioscopios e 6 lentes com magnificas vistas”.

Crédito da Imagem: Illustração Popular,Lisboa, ano de 1866, n.º 4 - 4 de Fevereiro

terça-feira, 12 de junho de 2012

Marcha dos Santos Populares


Guardo uma memória muito ténue, mas creio que os santos populares já deram o mote a festejos na Além-da-Ponte (S. António), Arrabalde (S. João) e Pinheiro (S. Pedro). Certo é estes três bairros terem, vários anos, alimentado uma rivalidade orgulhosa que se desvendava nas Marchas de S. João.
De Alfredo Cândido, nosso conterrâneo, fica, em ambiente lisboeta e alvoroço policromo, a sua marcha dos santos populares:


segunda-feira, 23 de junho de 2008

O S. João, em 1865.

O santo “mais popular e galhofeiro, que este paiz possue”, como o classifica o jornal “O Lethes”, no seu número 43, de 27 de Junho de 1865, foi festejado em Ponte de Lima, nos dias 23 e 24. “A concorrência de fora da terra era pequena e as festas e bailes em honra do Santo, ficaram muito aquem dos annos passados.”
Para o próximo ano, promete-se festividade “de espantar”. É que o santo vai para a sua nova capela e “o juiz é brioso”. Os “devotos do percussor do Messias”, estão, desde já, convidados.

sábado, 21 de junho de 2008

A CULPA É DO SENHOR S. JOÃO E DO SR. VEREADOR TRISTÃO

Não me atrevo a competir com o relato de Miguel Roque dos Reys Lemos e, procedente de quem vem, só possa considerar fidedignas as referências à fonte - «Livro de Registros da Câmara Municipal dos anos 1735 a 1737, de fls. 129 a 132» - que não consultei, e me permitem concluir, sem lugar a hesitações, terem sido os culpados o S. João e o vereador da Câmara Municipal de Ponte de Lima, Tristão Gomes de Abreu e Lima.
Antes de os remeter para a elucidativa prosa do douto Miguel Roque dos Reys Lemos, nos Anais Municipais de Ponte-de-Lima, 1938, pág. 96 a 97, fica a prevenção, aos possíveis interessados, que o método utilizado já não tem valimento, pelo menos, para o fim em apreço.