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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

OS LIMIANOS NA GRANDE GUERRA - Luís Dantas


OS LIMIANOS NA GRANDE GUERRA  - Luís Dantas*

   

 Foi José Carlos de Magalhães Loureiro (a 10 de Setembro de 2008, no blogue Anunciador das Feiras Novas) quem, do que conheço, melhor revelou o trabalho de Luís Dantas, Os Limianos na Grande Guerra, e o autor, com a honestidade e simplicidade que quem o percebeu lhe atribuiu como intrínseca, reconheceu e agradeceu.
   Sendo uma obra onde se equilibram o rigor histórico e o pendor literário, seria simplificar, passados dez anos da edição, afirmar que, no que concerne aos “limianos”, agora, o autor nos deixaria mais sumarenta narrativa, e, em mim, uma completa desonestidade não desconhecendo que, já em 22 de Novembro de 2007, Luís Dantas escrevia: “Não me foi possível fazer o levantamento da maior parte dos limianos que foram mobilizados para as campanhas de África (1914-1918) e França. Esses heróis estão sepultados no Arquivo Geral do Exército. Um Arquivo miserável. Só dão informações por requerimento e mesmo assim tem de se levar o nome, a naturalidade, a data do nascimento. Vão passar 100 anos sobre a guerra e a história desses homens está desprezada. Uma vergonha. Só agora é que o arquivo Histórico Militar está a colocar as fichas do C.E.P. com o nome e localidade no computador. Fiz o que foi possível.” E, mais tarde, a 30 de Dezembro do mesmo ano, Luís Dantas revelava: “Afinal sempre vou fazer o agradecimento a todos que contribuíram para o livro… foi essa gente a minha principal fonte. Foi essa gente que permitiu trazer à história o nome e o rosto de muitos soldados da nossa terra…”.
   Todos sabemos que é hoje possível aceder a informação relevante com facilidade o que permitiria ao autor uma “2.ª edição”- que anteviu mas, infelizmente, não pôde concretizar - praticamente completa quanto aos nossos que participaram no conflito, mas não ignoramos que, apesar de todas as dificuldades, também nesta vertente, Luís Dantas nos deixou um trabalho de enorme dignidade e, no essencial, revelador. Sintetizando e concordando com José Carlos de Magalhães Loureiro, a quem cito, “a partir deste trabalho, deixa de haver “antigos combatentes limianos”, colectivo anónimo puramente comemorativo.”
   E isto sem prejuízo de que, entre outros, também Adelino Sampaio, o último presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima na 1.ª República, na sua qualidade de corresponde do jornal O Primeiro de Janeiro e nesse jornal, de 6 de Maio de 1933, havia recordado a participação local na 1.ª Grande Guerra, o que também fez, nos aditamentos aos Anais Municipais de Ponte de Lima de Miguel Roque de Reis Lemos, editados em 1938, Júlio de Lemos.
   Como não podemos ignorar que o armistício foi recebido em Ponte de Lima em festa, como nos informa o jornal Cardeal Saraiva de 14 de Novembro de 1918 e, em 1921, aquando do acolhimento nacional aos “soldados desconhecidos”, também na nossa localidade existiram comemorações diversas sendo até efectuado o “lançamento da primeira pedra para o monumento que a Câmara manda erigir aos soldados do concelho mortos…”(CS 460, 1921.04.07). Ainda que a 7 de Abril de 1923, na sessão da Comissão Executiva da Câmara, o Dr. Adelino Sampaio, então seu presidente, apresentou a seguinte proposta: / … 1. Que se inscreva no primeiro orçamento suplementar a verba necessária para mandar erigir no Largo de Dr. António de Magalhães…um Monumento consagrado aos Mortos da Grande Guerra, segundo o projecto fornecido pela Junta Patriótica do Norte; / 2. Que sejam inscritos num livro de Honra os nomes de todos os oficiais e soldados deste concelho, que tomaram parte na Grande Guerra – para o que solicitarão das entidades competentes as indispensáveis informações./ 3. Que se inquira da situação económica não só dos soldados sobreviventes, como das famílias dos já falecidos, afim de lhes ser prestada, como dela precisem, a assistência devida, finalmente; 4. Que a Câmara tome a iniciativa de abrir uma subscrição pública, cujo produto constituirá os dotes dos filhos dos soldados deste concelho que morreram ao serviço da pátria. Embora aprovado o  certo é que em 1926, a 4 de Março era noticiado, em texto de António da Baldrufa, ainda no jornal Cardeal Saraiva, n.º 677: “Foi já há alguns anos, por uma tarde luminosa, que se galardoou, condecorando com a Cruz de Guerra um humilde soldado da Flandres… /…./ Foi igualmente nessa mesma tarde de sol triunfante, após o Sr. Dr. Cândido da Cruz…então Governador Civil do Distrito, ter colocado no peito do humilde herói a Cruz de Guerra, que lançaram a primeira pedra para um padrão comemorativo das campanhas de África e da Flandres, perpetuando o esforço dos soldados limianos nessa monstruosa conflagração./ … Foram simultaneamente o baptismo e o de profundis dessa bela ideia: a própria pedra foi levada não sabemos para que paradeiro…”/..e acrescenta: “Quando o Dr. Adelino Sampaio assumiu a presidência do Município em 1923, oficiou para os párocos de todas as freguesias do concelho pedindo os nomes dos combatentes mortos e várias outras informações. Pois até há muito pouco tempo ainda não haviam chegado as elucidativas respostas. Este gesto de indiferença é o mais categórico reflexo do desleixo colectivo por uma iniciativa nobre e patriótica – a perpetuação do nosso maior esforço nos últimos séculos./… /…
   Por último, importa referir que, nessa campanha, sem cuidar de situar o legítimo posicionamento de cada um, quer quando a causas, quer quanto a consequências, e sabendo que as guerras afectam os que vão e os que ficam, é justo pedir atenção para mais um nosso conterrâneo que terá contribuído para essa participação: Alfredo Cândido, um dos nomes referidos como estando ligado à propaganda do CEP.

*Texto lido a 22 de Julho de 2018, na Feira do Livro de Ponte de Lima, aquando da iniciativa promovida pela livraria ler.com.gosto.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Baptista-Bastos

«O Cavalo a Tinta-da-China»



   «Está a andar com todos os sentidos despertos para a noite. Na rotunda do Marquês hesita. Acende um cigarro, desce a Avenida da Liberdade. A meio, um pouco antes do Parque Mayer, senta-se num banco de madeira, mesmo ao lado de um candeeiro alto, tira o Diário de Lisboa do bolso do casaco, o gesto não obedece a nenhuma associação de ideias. Folheia, distraído, o jornal. Na página Teatros e Cinemas lê uma nota assinada N.L. sobre a estreia, no Apolo, da peça de Jardiel Poncela, Branco por Fora e Rosa por Dentro. Segundo N.L., a peça «é, assim, uma “humorada” teatral sem consistência e com evidente influência dos processos cinematográficos, o que não nos parece de aconselhar em teatro. O autor, que não pretende certamente transpor os umbrais da posteridade com este e outros trabalhos do mesmo género, conseguiu, no entanto, fazer o que queria: fazer rir.»[1]
    «N.L. comenta o trabalho dos actores: Ribeirinho, «jovial e dinâmico»; Madalena Sotto, «que só tinha a lucrar se não fizesse ausências tão prolongadas do palco»; Hortense Luz, «que continua a provar que é uma actriz segura»; Armando Machado, «sóbrio e correcto»; Joaquim Prata, «que desenhou com o seu bom humor habitual a caricatura dum médico inverosímil»; e Alberto Reis, «que fez bem o pouco que teve que fazer». A terminar: «Completam o elenco feminino, em silhuetas graciosas, Fernanda de Sousa, Branca Saldanha e Regina Escobar. Tarquínio Vieira e Morgado Maurício têm a seu cargo dois papelinhos secundários, que desempenharam correctamente.» [2]

Retrato de Baptista-Bastos da autoria de Luís Dantas, Lisboa, 1993.





[1] - Em Portugal a peça foi estreada a 5 de Janeiro de 1944 e permaneceu, em cena, até 31 do mesmo mês. A adaptação, na nossa língua, teve a responsabilidade de Alberto Barbosa e José Galhardo. Não terá acertado N.L. (Norberto Lopes), quanto ao perecimento da obra de Enrique Jardiel Poncela (Madrid 1901-1952). Personalidade controversa é, no entanto, um nome que sobreviveu, pelo valor inovador da sua obra, ao próprio infortúnio que os últimos anos de existência física lhe reservaram.
[2] - Fragmento do romance de Baptista-Bastos, Cavalo a Tinta-da-China, 1995.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A não perder

Uma edição recente de um autor sapiente:


domingo, 14 de junho de 2015

Manuel Pimenta

MANUEL PIMENTA


O que surpreende na expressão do Manuel Pimenta é a capacidade de representação, assim como nos levasse a assistir a um filme, que nos prende de imediato e, de tão marcante, após o projector desligado, continua a chegar ao nosso cérebro. E tudo isto apenas com palavras… escritas.

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Imagem: Internet

segunda-feira, 27 de abril de 2015

NO CENTENÁRIO DE AUGUSTO AMORIM DE CASTRO E SOUSA


NO CENTENÁRIO DE AUGUSTO DE CASTRO E SOUSA

     Foi em Braga, a 30 de Abril de 1915, que Augusto Amorim de Castro e Sousa nasceu. Seus pais, Eduardo de Castro e Sousa, bracarense e gráfico, e Laura Caldas de Amorim, ponte-limense e modista, habitualmente residentes em Ponte de Lima, estavam, então, a habitar naquela cidade.
     Em Ponte de Lima pronunciou as primeiras palavras, deu os passos iniciais e alinhou os estreados caracteres. Na escola teve como um dos seus professores Caetano de Oliveira, que recordou, em texto de 1959, como “o mestre amado, que mesmo depois de cego, ainda conseguiu levar a exame centenas de alunos com as mais altas classificações” e “ensinava não só a ler, escrever e contar, como a raciocinar”.
     Orientado pelo progenitor, proprietário de uma pequena oficina tipográfica e editor e director do jornal “Rio Lima”, começou a aprendizagem profissional e revelou os dotes jornalísticos. A sua inaugural colaboração na imprensa, no ano de 1931, está inserta nesse periódico, com o pseudónimo “Esparza”, e relata o jogo de futebol entre o Sport Clube Vianense e o Ponte de Lima Sport Club, realizado no dia de S. João.
   Em meados dos anos 30 rumou a Lisboa, onde aprofundou os conhecimentos, nomeadamente ao serviço da Tipografia Pinheiro & Dias, e reforçou o interesse pelas questões políticas, propiciadas pela sua formação no seio de uma classe progressiva, que tinha como uma das principais referências Alexandre Vieira, com quem desenvolveu constantes contactos e laços de amizade. 
     Regressou a Ponte de Lima, em 1947, e, a partir dessa data, aqui e daqui manteve intensa actividade, como gráfico e publicista com acentuadas preocupações sociais e culturais e participação directa em associações, de diversa natureza, integrando os corpos sociais de muitas delas. O seu nome está, por exemplo, ligado à institucionalização da banda de música de Ponte de Lima (Grupo de Cultura Musical), em 1951, e, como mestre, à Escola Tipográfica da Oficina de S. José.
    Utiliza, pelo menos, os nomes de “Augusto de Castro e Sousa”, “Augusto de Sousa”, “A. Castro e Sousa”, o acrónimo “A.C.S”. e os pseudónimos “Esparza”, “Repórter Visão”, “C.”, “A.C.” e “Cícero”, nas notícias para, entre outros, o “Cardeal Saraiva”, “Gazeta do Sul”, “O Jornal de Felgueiras”, “Cícero”,  “Os Ridículos”, “A Bola”, “Notícias da Amadora”, “A Aurora do Lima”, “República” e “Diário de Notícias” e com indignação viu por diversas vezes a censura retalhar os seus textos.
     Depois de em 1947 e 1948 ter publicado o “Anunciador das Feiras Novas”, coordena o “Elucidário Regionalista de Ponte de Lima” que, com António Soares Correia, edita em 1950. Em 1960 lança o seu livro, “Nas Horas Livres da Minha Profissão”, reunindo inéditos a textos já anteriormente incluídos em diversos jornais, alguns dos quais reformula.
     De 1948 para 1949 empenhou-se na Campanha do General Norton de Matos à Presidência da República e, após vinte e seis anos de corajosa resistência e persistente inconformismo, assistiu, com profunda emoção, à implantação da democracia, intervindo, de forma activa, na sua consolidação.
      Augusto de Castro e Sousa, como muito bem o retratou Luís Dantas, “esteve sempre aberto à universalização, mas herdou o génio romântico no ardor das suas ideias, na aventura da palavra escrita, no apego à música, na exaltação dos sentidos, no viver emotivo e apaixonado...”. E foi com todos estes traços da sua personalidade impoluta que nos deixou, a 17 de Janeiro de 1985, legando-nos as obras e, principalmente, o exemplo.
     Pode ser que um dia destes nos surpreenda e deixe conhecer o antedito livro, para o qual tinha reservado o título sugestivo de “Tartufos, Fouchés & Similares”. 


 (Versões do texto publicados em Figuras Limianas, Município de Ponte de Lima, 2008 e Jornal Alto Minho, n.º 831, 21.01.2010)

domingo, 5 de abril de 2015

PONTE DE LIMA - A SEMANA SANTA EM 1915


        Ponte de Lima – A Semana Santa em 1915 (28 de Março a 4 de Abril)

     Rezam as crónicas que decorreram sem nada de anormal as cerimónias da Semana Santa.
     Houve bênção dos Ramos, na Matriz, no domingo. Na terça-feira, o Sagrado Viático visitou os enfermos da vila. Na quinta-feira, a missa solene, a desnudação dos altares e o lausperene na Matriz, Misericórdia e Capela de S. Bartolomeu[i], matinas e laudes na Matriz e sermão da Instituição da Eucaristia, procissão do Senhor «Ecce Homo» com visita aos templos onde estava exposto o Santíssimo Sacramento.
     Na sexta-feira, depois das cerimónias da Paixão, saiu a procissão do enterro, seguida de sermão. No mesmo dia, matinas, laudes e sermão da Soledade.
     No sábado realizou-se a cerimónia da Aleluia.
     No domingo saiu da Matriz a procissão da Ressureição e, ao recolher da mesma, missa solene, na Matriz e na Misericórdia.
Os sermões foram proferidos pelo distinto orador sacro Padre António Luís Fernandes[ii] e agradaram muito.


[i] - Pode não ter acontecido «nada de anormal», como consta em fonte consultada, mas estamos muito perplexos com a referência a esta Capela (!?).  
[ii] - Nascido em Guimarães, a 31 de Janeiro de 1872, veio para Ponte de Lima de tenra idade e cá ficou. De 1892 a 1894 frequentou o seminário conciliar de Braga. Regressado a Ponte de Lima, começou, logo no ano seguinte, a distinguir-se como orador sacro. Foi pároco de Cepões, professor no Instituto Escolar Limarense, também na Escola Municipal Secundária de Ponte de Lima, presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Lima, entre 1905 e 1908, director dos dois primeiros almanaques de Ponte de Lima (1907 e 1908), colaborador de diversos jornais, entre eles, de Ponte de Lima, o Eco do Lima e o Lima, e redactor de O Comércio do Lima. Durante a Monarquia do Norte, em 1919, ocupou o cargo de Vereador da Câmara Municipal de Ponte de Lima, com o pelouro dos Impostos, sendo, também, director do Celeiro Municipal. Com a queda da efémera Monarquia do Norte partiu para o Brasil. Aquando do regresso foi pároco de Gondufe, onde se manifestaria a doença que o vitimou. Faleceu, na vila de Ponte de Lima, a 3 de Maio de 1925. Pelo menos deixou, editados em opúsculos, os elogios fúnebres que proferiu nas exéquias de Hintze Ribeiro e Pio X.

Fontes principais: jornais Cardeal Saraiva e O Comércio do Lima, vários números.

NOTA: Em conversa com José Velho Dantas, fui-me referido que a Capela da Casa da Freiria, Arcozelo,  é dedicada a S. Bartolomeu. Será a mencionada no texto?


quinta-feira, 19 de março de 2015

ELOGIOS / ELEGIAS

   

A precisão, na palavra; a coerência, na frase; a plenitude, no texto. Elogios/Elegias, o recente livro de Cláudio Lima é:

mais do que a prosa difusa deste lugar, a vida estilhaçada no tempo a passar, a filosofia a transcender o estar.
maior do que o sentido, e do sentimento, de que, quando vamos, cá nos deixamos ficar.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

PONTE DE LIMA E EU


“PONTE DE LIMA E EU”

                                    José Sousa Vieira


      Duas razões convergentes levaram-me a aceitar com satisfação o convite para dizer algumas palavras sobre o novo livro de Carlos de Lima Magalhães (Menã), “Ponte de Lima e Eu”.
     E, se o autor mo permitir, utilizo o título da sua obra para explicar, sucintamente, essas razões.
     A primeira é “Ponte de Lima”, esta vetusta terra, mais antiga que Portugal, que sendo a pátria do autor é a minha e de muitos dos presentes. E chamar-lhe pátria não é nenhuma figura de estilo. Como gostava de lembrar o ilustre Cardeal Saraiva, pátria não é só o nosso país é, também, a terra onde nascemos.
     A segunda é o “e Eu”, ele, o nosso Carlos de Lima Magalhães (Menã), autor digno, autêntico.
     A sua escrita tem sementeira, criou raízes, sofre as contingências climatéricas, os humores, é chuva e sol (tristeza e alegria), é dia e noite (luz e escuridão), é labuta pelo pão e sonho de quem sabe que “nem só de pão vive o homem”. Não transparece artifício, não cola palavras apenas porque soam bem, a rima é muitas vezes procurada, mas não forçada. Transmite vivências, sentimentos, desejos, desilusões, esperança e, acima de tudo, sinceridade.
     De facto, na obra de Carlos de Lima Magalhães (Menã), para além da constante referência aos temas limianos, é permanente a sinceridade. É quase palpável que ele sente aquilo que escreve. E isso faz dele alguém que consegue, no universo da poesia popular, e no nosso meio, um lugar de destaque, que vem sendo construído desde os inícios dos anos 80, do século XX.
     Assim, falar de “Ponte de Lima e Eu”, onde o autor tem a companhia apreciável de Américo Carneiro que ilustra, em exclusivo, com reprodução de 5 dos seus óleos, esta edição, é dizer de alguém que conhecendo o seu espaço o cristaliza, com coerência, em torno do seu lugar (Ponte de Lima), da sua festa maior (as Feiras Novas a Nossa Senhora das Dores), do seu leito (o Rio Lima), onde “deita” as suas mágoas, “adormece” as desilusões e “acorda” os desejos e esperanças e, claro, perpassando em tudo isto, os seus afectos, os seus contactos sociais, as suas vivências (as suas Contemplações).
     É este livro mais um adorno para o corpo dinâmico do limianismo. De facto, como escrevem no prefácio os Presidentes da Junta e da Assembleia de Freguesia de Ponte de Lima, Sr. Abel Braga e Prof. João Carlos Gonçalves, “o limianismo continua em franca expansão”.  
     Este vocábulo – Limianismo – criado pelo escritor António Ferreira, nosso patrício, em 1920, e, inicialmente, circunscrito a uma corrente literária, dinamizou-se, enriqueceu-se, alastrou a outros fazeres e sentires e é, hoje, um dos mais importantes traços de união dos habitantes (efectivos e afectivos) da Ribeira Lima, e de Ponte de Lima em particular, não deixando, no entanto, de servir de fulcro a uma corrente literária e cultural das mais importantes da região, e porque não dizê-lo, do país. Há, em Ponte de Lima, e nas mais diversas áreas, autores actuais de valor que em nada deslustram os antepassados. As obras de Amândio Dantas e Cláudio Lima, de António Matos Reis e Luís Dantas, de Salvato Trigo e José Cândido Martins, de Amândio Vieira e Alexandre Reigada, entre outros, aí estão a testemunhar, sem contradições, essa inolvidável e agradável realidade.
    E claro, como acima se infere, a obra de Carlos de Lima Magalhães (Menã) também aí cabe.
   Por isso o meu reconhecimento.


   Obrigado.


Nota: Infelizmente, Carlos de Lima Magalhães, que havia nascido na vila de Ponte de Lima, a 8 de Abril de 1932, deixou-nos em 18 de Setembro de 2009. Ficam estas palavras, proferidas na Sede da Junta de Freguesia de Ponte de Lima, a 8 de Julho de 2006, como homenagem.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

João Marcos (1913-2005)


De João Marcos
(Rebordões Santa Maria, 25 de Abril de 1913 - Lisboa, 6 de Janeiro de 2005)

     De João Marcos guardo a sua figura, aparentemente frágil, mas cujo olhar, penetrante, revelava uma tenacidade hercúlea.
     De João Marcos percorro, em jeito de homenagem, quase ao acaso, as palavras arquivadas nos seus livros e delas e com elas refaço uma vida feita de cabeça levantada, com a dignidade dos insubmissos.
     De João Marcos recordo o apego às causas e às coisas, às pessoas e aos lugares, à justiça e à paz dos justos.
     De João Marcos permanece a obra e o exemplo de coragem e de querer e uma imensa humildade, aconchego da sua bondade e saber.

 (Sobre a obra de João Marcos: (http://luisdantas.blogspot.pt/search?q=Jo%C3%A3o+Marcos )

terça-feira, 23 de abril de 2013

LIMIA - O Río do Esquecemento




José Sousa Vieira

O mar
absorve-me o olhar.

Prefiro o rio Lima:
deixa-me, sempre,
outra margem…


     O livro, edição da Associação Cultural Civitas Limicorum de Xinzo de Limia, Limia –  Río do Esquecemento, reúne textos e imagens, actuais e do passado, num percurso de 148 páginas onde convergem o mito, a história, a poesia, o afecto e a crença, num caudal de autores dos dois lados de um mesmo rio: o Limia/Lima.
     Silvia Dopazo, Antón Rivero Coello, Delfín Caseiro, Francisco Domínguez Romero, Carlos Gómez Salgado, Antón Tovar, Xosé Benito Reza, Federico Cocho, Álvaro Conqueiro, Florentino Cuevillas, Otero Pedraio, Vicente Risco, Suso Vaamonde, Carlos Casares, Cláudio Lima, Diogo Bernardes (numa composição atribuída a Luís de Camões, em compreensível lapso que, durante muitos anos, vários especialistas repetiram), António Feijó, Antonio Balboa Salgado, Luís Romero Becerra, Xosé Carlos Caneiro, Xose Lois (Carrabouxo), Mariana Carballal, Luís Otero, Conde de Bertiandos*, Carlos Rocha, Amândio de Sousa Vieira, Almada Negreiros, entre outros, são os afluentes que engrossam esta obra de memória e homenagem, de canto e de encanto.
     Num namoro fascinante entre o sentimento (as artes) e a razão (as ciências) esta colectânea, coordenada por Carlos Gómez Salgado, quiçá familiar distante do limarense António Feijó que reivindicava parentela original galega, é uma oportuna lembrança, um grito de memória que atravessa os tempos e nos desperta para as virtudes e vicissitudes deste curso de água, fluido mestre do Vale do Lima, corpo inteiro da nossa identidade geográfica e afectiva.
     Todos o sabemos. O río/rio Limia/Lima não tem um percurso uniforme, nem corre livremente. Para além das dinâmicas naturais que ao longo da sua vetusta história o foram mudando, a mão do homem, com maior ou menor acerto, tem-se dele servido, alterando-lhe o curso e a corrente, a fauna e a flora, modificando-lhe as condições morfológicas e climatéricas, introduzindo-lhe barreiras construídas que o tentam moldar aos seus interesses e necessidades, e nem sempre com o respeito e equilíbrio que a partilha e a sobrevivência do nosso planeta aconselhariam.
    É certo, ao crescimento demográfico e à crescente capacidade do homem em utilizar os recursos naturais tem correspondido, com maior evidência nos últimos anos, uma melhor consciência ecológica, traduzida em algumas medidas tendentes a proteger os recursos, encontrar alternativas mais equilibradas, melhorar a intervenção humana, recuperar, se e quanto possível, claros dislates que o desconhecimento e a ganância foram fazendo. Mas, e até aproveitando as recentes lições colhidas do colapso da infalibilidade da organização económico-financeira que regia a sociedade ocidental, é necessária maior e mais eficaz intervenção. É que de boas intenções está a legislação ambiental cheia, faltando, demasiadas vezes, os mecanismos para a tornar efectiva.
     E o rio Lima, mais precisamente a sua Bacia Hidrográfica, é a principal riqueza do Vale do Lima português. Todos os projectos de desenvolvimento para a região deveriam ter essa constatação como axioma, a sua protecção como doutrina, o seu aproveitamento equilibrado como cerne. Não só por se tratar de uma das regiões de Portugal de melhores recursos hídricos, mas, também, ninguém o ignora, porque a água potável será o centro das preocupações humanas futuras e estamos todavia em condições de melhorar, na nossa região, a sua qualidade e adequado aproveitamento.
     Até por isto a oportunidade desta obra que em Xinzo de Limia teve nascente a 28 de Novembro de 2008, aportando a Ponte de Lima, vila irmã, a 11 de Janeiro de 2009, trazendo consigo as gaitas (Banda de Gaitas de Xinzo de Limia) que, desde meninos, nos acordavam para a festa e as vozes (Coro Santa Mariña) num linguajar a que as nossas feiras (as velhas e as novas) nos foram habituando.
     E o digno Teatro Diogo Bernardes, prenhe de acontecimentos e de visitantes ilustres que a sua rica história lhe proporcionou, não deixou de se emocionar ao ver como aqueles dois idiomas (ali representados, ainda, por Silvia Dopazo, Carlos Goméz Salgado, Cláudio Lima, Dantas Lima, Franclim Castro e Sousa, Daniel Campelo, o Presidente do Município de Ponte de Lima, e Isaac Vila Rodriguez, o Alcaide de Xinzo de Limia) confluíam.

(Publicado, originalmente, em Limiana, Revista de Informação, Cultura e Turismo, n.º 11, Fevereiro de 2009)


*- O texto, referido como do Conde de Bertiandos (Lenda do Rio Lima), não integra a sua obra. No entanto, o seu nome, mesmo com a imprecisão anotada (e dela não demos conta na versão publicada na Limiana), nela figura por inteiro mérito.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Novo livro



No próximo sábado, dia 5, pelas 17h30, no Auditório Municipal, em Ponte de Lima, será apresentado um livro de João Carlos Gonçalves. A obra, conforme o título sugere, está centrada na história da Associação Desportiva Os Limianos, clube que completa 60 anos de existência, prometendo, também, historiar o futebol na localidade limarense.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Rito do Pão


     A Centelha publicou, na colecção Poesia Nosso Tempo, «O Rito do Pão» de David Rodrigues.
     O livro é uma certa forma de reescrever alguns dos rituais que dão dimensão e sentido à vida. No âmago, um canto ao apego à terra (pão), à alegria e à força do amor (uvas), ambos de facto corpos gémeos das gentes do Minho.
     É que com um minhoto – um verdadeiro minhoto – nascem sempre um “vagar de uvas” e um “rito do pão”.
     David Rodrigues (re)lembra-o limpidamente.


 [jornal Cardeal Saraiva, 29.05.1981] *

*Se bem recordo, foi o meu primeiro apontamento de leitura publicado. David Rodrigues nasceu em Mato, Ponte de Lima, em 1949.  

domingo, 25 de novembro de 2012

SENTIMENTO DO POEMA


Amândio Sousa Dantas, bardo do sentimento de ausência, nome relevante no canto da diáspora, neste implícito e justo preito ao seu irmão, Luís Dantas (1946-2011), rompe a distância e faz-nos aproximar, de forma comovida, ao sentimento do (seu) poema.

   O sentimento é, também, desgosto e, neste colecto, o autor liberta o dos seus poemas que, exposto, mostra que a adversidade não é, necessariamente, um rol de soturno. Deixa, quão expressão, a compreensão do efémero e, coabitando, a do seu reinvento (uma espécie de ressurreição reservada ao comum humano): talvez, a grande ómnia que nos permite viver para além do ómega; criar apesar da dor.

     O viver faz-nos o caminho, dá-nos e tira-nos afectos, derruba e erige as nossas convicções, torna-nos permeáveis ou estanques a diferentes estímulos, deixa-nos calar ou expandir os sentires corporais e emocionais: enfim, para o bem ou para o mal, o viver vai-nos mudando. E é o viver de Amândio Sousa Dantas, o seu apego à literatura (no próximo ano o seu primeiro livro completa 3 décadas de existência, mas a sua presença neste labor recua muito mais no tempo) a força vital que lhe permite suportar e contar o infortúnio com tanta limpidez, em registo diverso daquele a que a sua vasta produção nos acostumou, numa lírica valiosa a ultrapassar o íntimo sem o disfarçar, universalizando-o enquanto fruição estética e mensagem ética.
         
     E, assim amparado, o sentimento do poema ajeita-se para acolher outros sofreres que, dele partindo e não o negando, chegam a diferentes reverenciados, de qualquer época, conquistando a intemporalidade, o almejo de toda a criação.

       Sendo Sentimento do Poema* um livro de evocação, quase sempre, não é um livro triste, pois quando a pulcritude veste as palavras a amargura vai ficando nua.

* A obra merecia uma melhor revisão.


   

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

domingo, 6 de maio de 2012

Cartilha Escolar - Mãe

Da cartilha Escolar (1912) de Domingos Cerqueira:


terça-feira, 24 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cartilha Escolar

Domingos José Cerqueira (1870-1927), avô materno de Zeca Afonso, um limiano, serve-nos para evocar este dia. A sua Cartilha Escolar, com primeira edição em 1912,  vai ser gradualmente colocada neste espaço.


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

POEMA SEM FIM





Amândio Sousa Dantas reuniu em um só volume, revistas, as suas obras poéticas publicadas de 1994 a 2006. Sob o título de Poema Sem Fim, são colectados Perfeito Chão de Voar, Sombras E Ramos Sobre O Peito, Infinita É Toda A Nascente, Há Uma Eterna Liberdade, O Instante É A Tua Face No Poema, Pousado No Silêncio e No Ombro O Orvalho.
Oportunidade para os leitores de poesia (re)lerem parte significativa da criação deste autor e confirmarem a sua enorme coerência e inventiva.
Esta Antologia é dedicada à memória de seu irmão, Luís Dantas.

sábado, 18 de junho de 2011

LUÍS DANTAS



(De O ANUNCIADOR DAS FEIRAS NOVAS, Ano XIX - 2002)

domingo, 29 de agosto de 2010

RETRATOS GALLEGOS


É o 18.º título do autor e o primeiro original do ano em que completou 4 décadas de vida literária, iniciada em 1970 com Pedras Verdes, um livro de poesia.

Este ano, revisto e aumentado, com a colaboração fotográfica de Amândio de Sousa Vieira, tinha sido apresentada a segunda edição de Os Garranos da Península Ibérica, um trabalho onde esse equídeo, e a sua interligação ao homem, se projecta com garra e rigor, e o adorno literário que Luís Dantas sempre envolve nas suas obras.

Em Retratos Gallegos a tenaz sagacidade da comunidade galega, principalmente em Portugal, é abordada de forma inovadora e criteriosa, bem ao jeito criativo do fazer história deste escritor investigador.