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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

[de Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro]

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO


1.3    AS CELEBRAÇÕES PARTICULARES

 

«Portugal. Ponte de Lima, 20 de Dezembro (de 1727)

   O Baptismo do primeiro filho varão dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira se celebrou nesta Vila no Oratório dos mesmos Viscondes, com pompa e magnificência. Administrou-lho o Ilustríssimo Arcebispo de Braga, Rodrigo[1] de Moura Teles, que veio expressamente a Ponte de Lima a esta função, pondo-lhe o nome de Dom Tomás Xavier de Lima. Foi padrinho seu avô materno o Visconde Dom Tomás de Lima e Vasconcelos, por procuração mandada a Dom Francisco Xavier Pinto de Sousa, que se achava nesta vila; a cujo acto se achou grande parte da Nobreza desta Província, toda de gala, com muita magnificência e luzimento. De noite houve luminárias por toda a Vila e Castelo; e especialmente em todo o palácio e jardim. Este se via todo bordado de luzes, com o mesmo debuxo das murtas, onde havia muitos vasos de flores de várias cores, todas de iluminação, fontes que lançavam fogo em lugar de água, pórticos, anfiteatros, estátuas, cornijas, colunas e quartelas, tudo iluminado, duas fontes de vinho para o povo, por quem se distribuíram muitos doces e outras coisas comestíveis, com dois coros de música de instrumentos e vozes, que se alternavam grande parte da noite. Representou-se também no Palácio dos mesmos Viscondes uma Comédia nova, representada por pessoas de distinção, e composta por Luís Calisto da Costa e Faria,[2] Abade da Igreja de São Pedro de Rubiães, e Secretário de Suas Excelências, adornada de várias contradanças, ordenadas por um Mestre de dança Alemão, que se acha nesta Vila. No terceiro dia houve uma folia Real de vários bailes de Braga, os mais curiosos e galantes. No quarto se cantou na Igreja Matriz uma Missa em acção de graças, com assistência de algumas Dignidades; e de noite se representou uma Comédia de Calderon. No quinto se tornou a repetir a primeira, e no sexto houve várias danças, e contradanças, sérias e burlescas, alternadas com Serenatas compostas de vozes e instrumentos, repartindo-se em todas as ocasiões doces e refrescos, e em todas as noites mesa pública abundantíssima de todo o comestível; e porque o tempo sobreveio chuvoso se não puderam executar as festas de cavalo, justas e sortilhas, que se tinha disposto, com considerável despesa da Nobreza desta Província.»[3] E - quem sabe? - talvez tudo isto despertando a imberbe curiosidade de Manuel de Figueiredo[4] que havia nascido por aí há cerca de 28 meses.

   Na descrição das celebrações em torno desse baptismo, realizado a 8 de Dezembro, de Tomás Xavier nascido a 12 de Outubro desse ano de 1727, e que viria a ser o 1.º Marquês de Ponte de Lima, englobando 2 comédias com 3 representações, dança, música (coral, instrumental) com a participação de amadores locais, bailes ao estilo dos durante muito tempo presentes principalmente nos festejos ao S. João, faltando apurar se aqui já eram usuais ou vieram posteriormente a ser introduzidos, temos uma mostra daquilo que se foi praticando muito tempo e com maior ou menor exposição.

   Refira-se, em reforço, um outro baptizado, a 26 de Outubro de 1745,[5] de António José Joaquim de Menezes, filho de Maria Rosa de Menezes e João Manuel de Menezes, na Capela da Casa dos seus pais (Calheiros?), em que, entre os festejos celebrativos, se representou uma comédia no pátio da sua casa; e, em 6 de Agosto de 1752,[6] os casamentos dos irmãos António Pereira Pinto de Araújo e Azevedo e Antónia Ventura Pereira Pinto de Azevedo, o primeiro com a prima Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo e ela com o pai da noiva do seu irmão e tio Luís de Araújo e Azevedo, na Capela de Nossa Senhora do Rosário, da Casa de Sá. Os festejos que duraram até ao dia 13 englobaram representações. Do casamento de António Pereira Pinto de Araújo de Azevedo Fagundes com Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo viria a nascer, na mesma casa, a 14 de Maio de 1754, o que foi Conde da Barca, António de Araújo de Azevedo,[7] também ele, na sua muito preenchida vida, com diversos interesses e vocações culturais, parecendo que como dramaturgo terá escrito uma “Osmia” e uma “Nova Castro”.[8]



[1]              No relato consta Rui. Rodrigo de Moura Teles (1644-1728) foi reitor da Universidade de Coimbra (1690-1694), bispo da Guarda (1694-1704) e arcebispo primaz de Braga de 1704 a 1728 e com importante papel pastoral e de enorme relevo cultural.

[2]              Luís Calisto da Costa e Faria (1679 -?). Natural da Guarda era um poeta apreciado, escrevendo em castelhano, e que a história teatral não ignorou. Entre outros, dele fala Teófilo Braga, na sua História do Teatro Português (A Baixa Comédia e a Ópera - Século XVIII), (1871), e Sousa Bastos na Carteira do Artista (1898). Esteve ao serviço da Casa do Visconde de Vila Nova de Cerveira e, já aos 45 anos, foi ordenado presbítero, tendo passado pela Abadia de Santa Comba de Eiras, actualmente no concelho dos Arcos de Valdevez, e Abadia de S. Pedro de Ruviães, agora pertencente ao concelho de Paredes de Coura, ambas coladas de apresentação dos viscondes de Vila Nova de Cerveira. Escreveu também comédias, tendo ficada manuscritas El sítio de Campo Maior e Rugero e Bradamonte. Não encontramos qualquer referência particular à “comédia nova” em Ponte de Lima levada à cena.

[3]              Gazeta de Lisboa Ocidental, n.º 04, quinta-feira, 22 de Janeiro de 1728.

[4]              Manuel de Figueiredo (1725-1801). Foi BORRALHO, Maria Luísa Malato da Rosa, quem lhe restituiu a naturalidade ao desvendar que o pretenso alfacinha era, na verdade, um limarense. Na sua obra “Manuel de Figueiredo – Uma perspectiva do neoclassicismo português (1745-1777) ”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, que a autora informa ser versão abreviada da sua dissertação de Mestrado apresentada na Universidade de Coimbra em 1987, é possível acompanhar este aspecto. De Manuel de Figueiredo, o mais profícuo dramaturgo da sua época, se foi dizendo que praticamente não teve oportunidade de ver a representação de peças suas. Talvez não tenha sido tanto assim (MÜLLER (Berlim) Christoph,”Teoria e Práxis do Teatro na Arcádia Lusitana”, em: MÜLLER, Christoph, NEUMANN, Martin (Edit.), O Teatro em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Edições Colibri /Instituto Ibero-Americano (Berlim), Lisboa, 2015, pp.14-17), parecendo certo a pouca receptividade do público, o que diversos investigadores aclaram (vide, BARATA, José Oliveira, “A poética de Manuel de Figueiredo”, em: Humanitas, Vol. XLV, Coimbra, 1993, pp.313-334). Pelos tempos, aproveitando peças suas, se foram criando alguns espectáculos, quiçá recuperando o “…oiro de Énio com que fazer muitos Virgílios”, extraível da leitura das suas obras, de acordo com pronunciamento de Almeida Garrett (em: Catão, prefácio da 3.ª edição, Lisboa, 1845), sendo talvez o mais significativo “Um Poeta Afinado” estreado a 24 de Maio  de 1990, pelo Teatro da Cornucópia, no Teatro do Bairro Alto, em dramatização de Manuel João Gomes, colagem de 3 peças de Manuel de Figueiredo, “O Ensaio Cómico”, “Perigos da Educação” e “O Dramático Afinado ou Crítica aos Perigos da Educação”, com encenação de Luís Miguel Cintra, dando 34 representações. Para maior conhecimento, ver: MARTINS, José Cândido Oliveira, “Manuel de Figueiredo”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.114-116.

[5]              Gazeta de Lisboa, n.º 46, terça-feira, 16 de Novembro de 1745.

[6]                Gazeta de Lisboa, n.º 31, quinta-feira, 07 de Setembro de 1752.

[7]              António de Araújo e Azevedo (1754-1817). Ver: MALAFAIA, Eurico de Ataíde, “António de Araújo e Azevedo – 1.º Conde da Barca”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.146-149).

[8]              Ver: VÁZQUEZ, Raquel Bello, Uma certa ambiçaõ de gloria – Trajectória, redes e estratégias de Teresa de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798), Santiago de Compostela, 2005, em que o tema da autoria da “Osmia” é profusamente abordada e, também, nos fornece outros pormenores sobre o Conde da Barca.

Crédito da Imagem - Desenho de Justino Vaz Valente (1898-1954), mostrando uma "Ponte de Lima" talvez semelhante a das datas referidas nas celebrações.


domingo, 25 de setembro de 2022

Cine Bombeiros Voluntários – Ponte do Lima

 

Em época de celebração – para a história dos nossos Bombeiros (Ponte de Lima)

 

 Em mais uma transição de empresa exploradora do Teatro Diogo Bernardes, os nossos bombeiros decidiram, no seu salão, abrir um cinema: o Cine Bombeiros Voluntários – Ponte do Lima.

E aos domingos de alguns meses, a partir de 8 de Janeiro de 1928 (nas quintas-feiras durante a época do carnaval em que, também, assumiram a realização dos costumeiros bailes) era lá que os cinéfilos da nossa terra iam ao cinema.

 O Teatro Diogo Bernardes reabriu a 20 de Maio.



sexta-feira, 24 de junho de 2022

...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...

 


...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...


De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO [excerto]

 

1.1  - A FEIRA E A PONTE

  «No século XII, o lugar de Ponte não era pobre, nem pouco povoado, nem desprovido de acessos porque tinha o rio, os atalhos, a ponte e a estrada da época dos romanos a servir o vaivém dos homens na rota da feira, das festas, das tropas e das jornadas peregrinas. Por aqui passavam os bufões, que tinham acompanhado a turbamulta dos mercenários suevos, a arregalar os olhos da assistência com o atrevimento das suas danças, velhacarias, diabruras, chistes, caretas e disfarces… Mais tarde, no tempo da vila medieval chegam outros marginais: menestréis, jograis, bailarinas, ciganas, charlatães e trupes de saltimbancos.»[1]

   E assim por outros tempos, enquanto terra a bordar a única ponte[2] existente a unir as duas margens que o rio Lima separava, e após, onde a feira[3] criava um bulício especial, de homens e suas transacções, muito além do quotidiano.  

   Com o crescimento e estruturação do concelho passam também a pertencer-lhe os usos e costumes dos vulgos anexados, as suas crenças e diversões.

 

   1.2 – FESTIVIDADES. OS TURCOS DE CRASTO. 

   Do contencioso gerado por decisão do Corregedor da Comarca a 28 de Março de 1536, na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537,[4] consta que algumas práticas são consideradas de antigo e imemorial uso e costume que sempre fora na dita Vila (Ponte de Lima) por honra da Festa de Corpus Christi. E nela, que a esta localidade poderá ter chegado praticamente nos alvores da sua introdução em Portugal em Coimbra, festa a 1266 e com procissão a 1307,[5] como é conhecido, os espectáculos rivalizavam, quando não se fundiam ou turbavam, a religiosidade. A «procissão até 1749 fazia-se...com as cenas burlescas, ridículas e grotescas dos grémios dos diferentes mesteres, danças, folias, coros de diabos e diabas com seus uivos e lubricidades que divertiam o povo. Atrás disto seguia um homem a cavalo, figurando de S. Jorge com seu pajem, e após a Procissão séria, como hoje se usa. Aquelas caricaturas acabaram em 1750 com a proibição que se contém na Provisão de D. João V, passada em Março desse ano…».[6]

   Na mesma sentença é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista e é nela que haveremos de encontrar, com maior e continuada expressão, os “Bailes,”[7]  de que alguns de cariz mais religioso chegaram a acompanhar a procissão com referências já na segunda metade do século XIX, em que o canto, a dança, a música e os diálogos se podiam unir e espalhar essas representações, diversificadas (dos Pretos Grandes, dos Pretos Pequenos, dos Canecos, dos Velhos, das Feiticeiras, dos Galegos, do Penedo, dos Pastores, da Mão de Deus, de Isabel e Zacarias, Galateia, dos Alfaiates, dos Sapateiros, dos Lavradores, dos Camponeses, das Camponesas, Uma freguesia em desordem, da Espadelada (as espadeladeiras), do Rei David, Processo do Rasga, O Povo do nosso lugar, etc.), por toda a vila. E se, por quase todos, eles eram considerados como fazendo “as delícias deste bom povinho…”,[8] “já pela sua originalidade, como pela hilaridade que provocam…”,[9]são sempre a alegria e o divertimento indispensável ao bom humor do nosso povo”,[10] em contraste flagrante também se referiu que “em verdade não sabemos se nos causa repugnância, gargalhadas ou nojo ver que a festividade dum santo…é aqui celebrada com rapazes quase nus, sujos, pintados de preto e felugem e água, fazendo pelas ruas trejeitos malcriados, selvagens, com uns regougos de sandices na maior parte obscenas. / Os tais bailes são isto: - uma selvageria.”[11]

 

    Habitualmente ao ar livre e desempenhadas por amadores locais, por vezes reforçados com elementos de outras terras,[12] ou oriundos de outras freguesias com companhia itinerante formada, como é o exemplo da de Comédia do Melinho,[13] as récitas (comédias, dramas, bailes, etc.) foram tendo lugar em festividades realizadas em muitas das freguesias do concelho limarense (entre outras, Ribeira – Nossa Senhora da Abadia, Senhor da Cruz de Pedra, Santo António; Arcozelo – Nossa Senhora das Dores, Senhora da Luz, Senhor dos Aflitos, S. Pedro; S. Martinho da Gandra – Nossa Senhora da Rocha; Calheiros – Senhor dos Perdidos; Correlhã – Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora das Neves; Estorãos – Santo Amaro; vila – S. Benedito, S. Pedro na rua António Feijó (Pinheiro), S. João; Calvelo – Senhor do Calvário; Bárrio – Nossa Senhora da Abadia).

  A mais persistente é a da «Turquia» (Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos). Com rigor, não se conhece quando se iniciou nem quem a trouxe. Parece certo que não foi criada localmente e, desde que a imprensa escrita a acompanha, sabemos que está associada à festa ao Senhor da Cruz de Pedra, no lugar de Crasto, na freguesia da Ribeira, Ponte de Lima.[14]   Desde sempre a referida imprensa lhe atribuiu antiguidade. Por exemplo, em 1892,[15] embora a considerasse produção local, precisava: «A pantomina dos «turcos e cristãos», peculiar dos de Crasto foi exibida a rigor, com denodo e saber entre as hostes beligerantes! / Os papéis, que dão água pela barba, de parte a parte foram executados sem vergonha para as caveiras das passadas gerações do lugar, que inventaram num arranque de catolicismo e mandaram para a posteridade tão famosa composição, que teve certamente o beneplácito do «Santo Ofício» …/ O povo aplaudiu, se não com tanta fé ao menos com entusiasmo igual ao dos espectadores de há cem anos!».

  A primitiva descrição, que dela conhecemos,[16] ajuda a confirmar a sua antiguidade e a informação difundida por Cláudio Basto[17] quanto a haver “sofrido, pelos anos adiante, modificações e aditamentos…”: «Seriam 3 horas da tarde ouvem os muitos romeiros que ali se achavam quase ao mesmo tempo dois hinos guerreiros um do lado da igreja paroquial da freguesia, e outro do desta vila, e pouco depois chegam daquele perto de vinte cristãos armados de lanças com uma banda de música de arraial à frente, os quais pararam em frente à capela do Senhor festejado e igual número de turcos do lado oposto, com alfanges e outra banda de música, que se colocaram em frente da casa do Sr. José Manuel Gonçalves, mediando entre uns e outros cem metros da nova estrada, orlada com os globos da iluminação da véspera.

     Aflui o povo de todas as partes, admiram-se os seus vestuários e armaduras e especialmente do rei daqueles, e sultão destes, e dos generais de ambos os bandos.

     Mal se avistam não lhes sofre o ânimo conterem-se, e uma partida de seis de cada lado caminham para a frente, e antes que os turcos usassem das suas armas os cristãos dão dois tiros, matando dois turcos, um antes de uma delas se desfechar, (tal foi o medo) e o outro depois, que ficam estirados no meio da estrada fugindo todos os restantes dez a reunir-se ao grosso da sua respectiva tropa.

     Os turcos assanham-se e marcham sobre os cristãos que fogem a encerrar-se precipitadamente no seu castelo de modo que lhes apanhados uns poucos de burros com bagagens, dois dos quais são aproveitados para conduzir escarranchados os dois turcos mortos, que vão fazendo cortesias com os olhos fechados. Os turcos altivos com a sua tomadia recolhem-se à sua praça, e querendo aproveitar a ocasião, depois de informados por espias da posição dos cristãos invadem o castelo e tomam-no, mas por uma incúria só própria do seu general, e do sultão que só tratava de mirar-se a si, e ao muito ouro que trazia ao pescoço; deixam a sua praça sem guarnição, de forma que os cristãos fugidos e acossados metem-se nela e aí se fortalecem.

     Aparecem parlamentários de uma parte e de outra, e põem-se a comer à mesma mesa, até que um mata o outro, fugindo o vivo para o lado dos seus e arrastando-se o morto para onde lhe conveio.

     Ambos os exércitos porém resolvem vir às mãos, batem-se em pelotões de quatro a quatro e depois de dois e dois, batendo com as armas nos escudos dos adversários em três encontros que têm lugar no meio da arena em corridas desordenadas ao toque de música. Em seguida batem-se um a um, e no fim das investidas cada soldado cristão vai arrastando o seu turco, depois o general daqueles arrasta o destes, e por último o rei faz o mesmo ao sultão, no meio de risadas estrepitosas e assim acabou a acção…».

  E se depois deste relato se assegurou que “o famoso episódio dos Turcos, de estilo nesta romaria, e que de largos anos tem passado de pais a filhos, invariável, uniforme, sem a maior uma simples peripécia, zombando assim da filosofia, que assevera que o mundo, e as coisas dele sempre caminham, sob o benefício influxo de um novo mundo, que se diz Progresso!,”[18] é certo que, para além de personagens e atavios, pelo menos em representações posteriores ao que nos é asseverado de que “de ordinário se representam combates de mouros e cristãos, que terminam pela morte dos primeiros a fio ou ponta de espada dos segundos,”[19] o invariável caiu, e a morte da totalidade dos turcos foi substituída pelo baptismo da maioria, como as récitas mais próximas nos confirmam.

 

 



[1]              DANTAS, Catarina; DANTAS, Luís – O Circo em Ponte de Lima, Luís Dantas, 2009, pg. 27.

[2]              ALMEIDA, Carlos A. Brochado – A Via XIX em Território Limiano, Município de Ponte de Lima, 2008, pg. 12.

[3]              RAU, Virgínia – Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Editorial Presença, 1983 (2.ª edição), pg. 63/64

[4]              VIEIRA, Ovídio Sousa; COSTA, Ana Cristina Amorim – Correr Touros em Ponte de Lima – A Vaca das Cordas, Comissão Organizadora da Vaca das Cordas, 1998, págs. 56-61.

[5]              AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, Volume 2, Círculo dos Leitores, 2000, pg.564.

[6]              LEMOS, Miguel Roque Reis – Apontamentos para as Memórias das Antiguidades de Ponte do Lima, 1873, p.67 (PT/MPTL/CMPTL35/C-F/003)

[7]                Em «Uma simples chamada de atenção…», O Anunciador das Feiras Novas, II Série, n.º III, 1986, Maria Emília Sena de Vasconcelos escreve, com base em informações de Severino Costa, “que alguns destes «Bailes» comportavam «história», (enredo, composição…) ”. No Arquivo Municipal de Ponte de Lima é possível espreitar documentos referentes a uma reconstituição do Baile da espadelada, onde não falta a “parte cénica” (PT/MPTL/GBE).

[8]              Jornal Vida Nova, Viana do Castelo, n.º 262, 26 de Junho de 1894.

[9]              Jornal Cardeal Saraiva, Ponte de Lima, n.º 152, 18 de Junho de 1914

[10]            Jornal Rio Lima, Ponte de Lima, Ano 2.ª, n.º 16, 15 de Junho de 1924.

[11]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 1397, 27 de Junho de 1880.

[12]              Como nesta em que “adoeceu o Santo…num dos domingos últimos, numa das aldeias deste concelho” numa “festa a Santo António…” onde “se fez um tablado para a representação do drama sacro St.º António; e segundo nos dizem, quem desempenhava o papel do Santo era cá da nossa vila. / O dia estava quente; e por isso a secura era natural. O homem comeu bem, bebeu melhor; e o pano do tablado corre-se. Por certo que era para começar o espectáculo. E assim foi. O espectáculo começa; os actores vão desempenhando os seus papéis, senão como deviam, ao menos como podiam, e os aplausos e saudações fervem sobre eles. / Quando o entusiasmo chegava a delírio, aparece uma pequena interrupção. No palco nota-se descontentamento e dentro do cenário manifesta-se um tal ou qual alvoroço. Tudo ficou silencioso por momentos e o palco despovoado de actores. Os espectadores interrogavam uns aos outros. E, quando se estava neste ponto, aparece um dos actores, dando a seguinte notícia. «Não continua o espectáculo, porque adoeceu o santo.»/ Vago rumor entre os espectadores; e tudo se retira com o maior sentimento. / Averiguado o caso, fora uma indigestão, porque o homem está óptimo. E assim acabou tão tristemente a festividade.” (Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 599, 18 de Julho de 1872.)

[13]            “Representação cheia de cor local, com um pronunciado cachet provinciano” sendo o Melinho, numa apreciação onde não sabemos o tamanho da ironia, “uma vocação artística completamente perdida, segundo dizem alguns estendedores. A sua figura graciosa, deveria exibir-se ao calor mordente da rampa iluminada pelo gás da ribalta, e os seus braços eram mais próprios para os grandes gestos trágicos do teatro de Shakespeare, do que para o fabrico do cerol e para retesar com fúria a presilha ensebada do tirapé. / Eis aqui um grande dilema imposto pela sorte à maleabilidade dos destinos humanos: - ser um génio ou um sapateiro…” (Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 198, 10 de Setembro de 1879.)

[14]              REIS, António Matos (1980, Origem da «Turquia» de Crasto, Almanaque de Ponte de Lima) e SOUSA, João R. (1984, Turquia – Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos), talvez os mais recentes investigadores a estudarem a peça, coincidem em designá-la de teatro popular de terreiro, tardo-medieval, dos fins do séc. XV ou inícios do século XVI, e de que não é originária do concelho de Ponte de Lima.

[15]              Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 19, 18.08.1892.

[16]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima,  n.º 510, 27.08.1871

[17]            BASTO, Cláudio (1917-1918, Lusa – Folha quinzenal de letras e ciências, Viana do Castelo, Ano I, n.º 15-16, 15 Out e 1 Nov 1917, pg. 119-124 e Ano II, n.º 30, 1 de Junho de 1918, p.45)

[18]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 709, 21 de Agosto de 1873.

[19]            Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 195, 20 de Agosto de 1879.

Ilustração: Postal de figuração do Baile da Dança do Rei David, na cidade de Braga.

 


domingo, 19 de setembro de 2021

No dia em que a inauguração oficial do Teatro Diogo completa 125 anos.

De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 4. DA INAUGURAÇÃO AO FIM DA EMPRESA [excerto] 



1896 

A cargo da “muito numerosa”(1) Companhia de Ópera Cómica Portuguesa, dirigida pelo actor Francisco Cruz(2) e com a orquestra sob a batuta do maestro Rio de Carvalho(3), ficaram os espectáculos teatrais da inauguração oficial do Teatro Diogo Bernardes de Ponte de Lima. 
Os bilhetes foram colocados à venda no estabelecimento do Sr. Lobato, até às seis horas da tarde do dia dos espectáculos, e de noite no bilheteiro do teatro, com preços individuais de 140 a 500 réis, e colectivos (6 entradas para frisas e camarotes, de 1$500 a 3$000 réis) e desconto de 10% para os assinantes. 
A primeira récita, marcada para a noite do dia inaugural das Festas das Dores (Romaria e Feiras Francas [Feiras Novas] de Nossa Senhora das Dores), nesse ano, 19 de Setembro, um sábado que se apresentou com “um belo sol e uma atmosfera temperada,”(4) às 8 horas da noite, com casa repleta, muita gente trajando de gala, tendo todos assistido, "de pé, ao descerramento do pano de boca, que representa uma vista do Lima, - areal, ponte, margens pitorescas e casario do outro lado, e uma larga perspectiva dos montes - em que se nos revela o mérito superior e pujantes aptidões artísticas de Eduardo Reis(5)", e após ovação "ruidosa ao som do hino nacional(6) executado pela orquestra", passou-se à primeira representação no palco do novo teatro com Os Sinos de Corneville (Les Cloches de Corneville), adaptação livre de Eduardo Garrido da famosa ópera cómica, francesa, em 3 actos e 4 quadros, da autoria de Robert Planquette (música), Clairville (pseudónimo de Louis François Nicolaie) e Charles Gabet. 
Na segunda-feira, dia 21, representou-se a primeira peça de autores portugueses, a ópera cómica, em 3 actos, O Burro do Sr. Alcaide, de Gervásio Lobato e D. João da Câmara, com música de Cyriaco de Cardoso. 
No dia 22, novamente o teatro francês, a opereta Os 28 dias de Clarinha (Les 28 jours de Clairette), em 4 actos, original de Hippolyte Raymond e Antony Mars, em tradução de Acácio Antunes e Gervásio Lobato, com música de Victor Roger. Como particularidade, refira-se que a peça foi apresentada em Ponte de Lima com supressões, transformando os 28 dias de Clarinha, “que na fonte limpa são de se lhe tirar o chapéu”, num “produto anódino, desconexo…”(7) Assim, “algumas mutilações, que voluntariamente se fizeram para ocultar certos pontos da opereta um tanto frescos, enredaram bastante o seu desempenho…”(8) 
A encerrar o programa da inauguração, no dia 23, quarta-feira, subiu à cena O Moleiro d'Alcalá, ópera cómica, em 3 actos e 4 quadros, em adaptação de Eduardo Garrido da novela de Pedro Antonio de Alarcón, El Sombrero de Tres Picos, com música do maestro francês Justin Clérice.
Ainda em Setembro, a 25, sexta-feira, a direcção do teatro organizou um espectáculo “a benefício do distinto cenógrafo Sr. Eduardo Reis”(9). Repetiu-se O Moleiro de Alcalá e foi também representada a comédia em 1 acto, de origem espanhola, que José Sebastião Machado Correia havia traduzido, “Simão, Simões & Companhia”. 
Actores, o cenógrafo Eduardo Reis e Alfredo Mâncio “hábil caricaturista” que, num dos intervalos, “executou no palco algumas caricaturas instantâneas com perfeição e habilidade… em tamanho natural e revestidas duma certa graça”,(10) mereceram a chamada do público e o seu aplauso. 
Para despedida da Companhia, a 27 de Setembro, foi levado à cena o drama, em 5 actos e 8 quadros, As Duas Órfãs, de Adolphe d’Ennery. 
A Companhia não trazia nomes de grande destaque. No entanto, dos que foram sendo referidos pela imprensa, alguns deixaram marcas teatrais de que particularizamos, sem qualquer intuito pejorativo para a memória dos demais, Luiza de Oliveira(11) e Eusébio de Melo(12). 



(1) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 263, 27 de Setembro de 1896.
(2) Foi possível recolher, para além do nome do director da Companhia, o actor Francisco Cruz, os da actriz Luiza de Oliveira e dos actores J. [Júlio?] de Sousa, J. Salles, E.[Estevão?] Moniz, Eusébio de Melo, [João?] Rebocho. Existe também uma referência dispersa, a carecer de confirmação, de que o guarda-roupa era de Augusto Franco. 
(3) Rio de Carvalho (João Pedro Augusto) – (1838-1907) – Natural de Lisboa, onde nasceu a 20 de Setembro, muito cedo demonstrou vocação musical. Foi aluno do conservatório e aos 14 anos era já executante de violino na Orquestra do Teatro de S. Carlos, tendo, mais tarde, chegado a dirigir a mesma. Foi como maestro e compositor que mais se destacou deixando muitas obras, sacras e profanas, a maior parte para teatro. Tinha a sua autoria o Te Deum executado na aclamação de D. Carlos, em 1889. Aquando do seu falecimento, em Lisboa a 2 de Novembro, entre outros cargos, era director da Orquestra da Real Câmara e agraciado com o hábito das Ordens de Cristo e de São Tiago. No campo musical, também um seu filho, Ernesto, alcançou alguma notoriedade. 
(4) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 262, 20 de Setembro de 1896. 
(5) Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 229, 24 de Setembro de 1896. 
(6) Atribuído a D. Pedro IV, que o terá composto no Brasil, onde era Príncipe Regente, dedicado à primeira Constituição Liberal Portuguesa, aprovada em 22 de Setembro de 1822, e que a partir de Maio de 1834 se transformou no Hino Nacional, só substituído pela "A Portuguesa", na sequência da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910. 
(7) Jornal A semana, Ponte de Lima, n.º 229, 24 de Setembro de 1896. 
(8) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 263, 27 de Setembro de 1896. 
(9) Idem. 
(10) Idem. 
(11) Luiza de Oliveira (1864-1932) – Em Portugal, onde nasceu a 12 de Outubro, embora tenha estado ligada a algumas companhias de renove, não atingiu particular destaque. Foi no Brasil, com actuações conhecidas a partir de 1902, que o seu nome artístico alcançou notoriedade. Incluídas no elenco que Eduardo Victorino contratou em 1903, o infortúnio de Georgina Pinto, que vítima de febre-amarela faleceu no Rio de Janeiro a 12 de Abril desse ano, permitiu a Luiza de Oliveira desempenhar papéis que não lhe estavam reservados. A actriz acabou por se radicar no Brasil, lá trabalhando, com bastante realce, várias décadas. Em 1929, uma enfermidade manifestada durante uma temporada na Baía, na Companhia do actor Jayme Santos, não lhe permitiu continuar a sua actividade artística. Faleceu a 07 de Novembro de 1932 e, no dia seguinte, o jornal do Rio de Janeiro, O Radical, considerou-a “a mais festejada dama característica do teatro brasileiro de declamação contemporâneo”. 
(12) Eusébio de Melo (1863-1922) – Nasceu a 16 de Dezembro, a sua formação terá sido orientada para o professorado primário mas a plateia ter-lhe-á parecido escassa. Acabou como actor, de teatros de feira e ambulantes a outros espaços mais acolhedores, em digressão ou incluído em elencos fixos. Passou mesmo por alguns dos Teatros mais conhecidos de Lisboa, como o Avenida, o Trindade e o da rua dos Condes, o novo. Efectuou duas digressões ao Brasil, em 1906, de Maio a Outubro, integrado na Companhia A. Miranda, e de Outubro de 1910 a Fevereiro de 1911, na denominada Companhia de operetas, mágicas e revistas do Theatro da rua dos Condes, de Lisboa. Aquando da sua morte, a 23 de Setembro, a imprensa não o deixou de referir: enquanto para a Ilustração Portuguesa (n.º 868, 7 de Outubro de 1922), era “uma das figuras mais simpáticas da cena lisboeta”, o A Capital (n.º 4183, 27 de Setembro de 1922), considerou-o “um homem que soube engrandecer a sua arte” e “lá ficou no cemitério um grande artista desgraçado” e “a sua última criação, a sua morte! Representou de mendigo – ele que era um Cresos do talento!”. Em 1927, Penha Coutinho (revista ABC, n.º 366, 21 de Julho) referiu que foi “um dos artistas que mais prometeu, nos papéis de baixo-cómico”. Terá sido a boémia a grande culpada pelo incumprimento. Em Lousa, freguesia do concelho de Loures, a toponímia conserva o nome actor Eusébio de Melo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

FADO REPUBLICANO




     
   No mesmo dia em que a administração da Câmara Municipal de Ponte de Lima passava, oficialmente, para as mãos dos republicanos, Reinaldo Varela (Ponte de Lima[ii], 1861 - Lisboa, 1940), criava o seu Fado Republicano.[iii]


    Reinaldo Varela, herdeiro de tradição familiar, possuía formação musical e distinguiu-se como compositor, guitarrista, cantor e professor, tendo elaborado vários compêndios, entre eles, os publicados com os títulos (grafia actualizada) de "Compêndio mais correcto e aumentado para aprender a tocar guitarra sem música e sem mestre", "Método prático e simples para aprender a tocar bandolim sem música", "Método fácil de viola-francesa para aprender sem música", "Breves explicações sobre o processo de tocar guitarra e bandolim, pelo sistema de algarismos".
     O seu nome ficará, para sempre, ligado à história do fado, quer como compositor (os seus fados ainda são interpretados, na actualidade), quer como cantor, sendo-lhe atribuída, desde 1904, a gravação de cerca de 150 discos.
     Este artista actuou em Ponte de Lima, em diversos locais, entre eles o Teatro Diogo Bernardes.


[i]- Desde 2006, por diversas vezes, nos referimos a esta personalidade (http://limianismo.blogspot.pt/search?q=reinaldo+varela).
[ii]- Na obra Figuras Limianas, Município de Ponte de Lima, 2008, existe texto da responsabilidade de José Aníbal Marinho Gomes, com biografia desta personalidade e onde a questão da sua naturalidade merece ponderação.
[iii]É agora possível verificar a existência de uma versão (desconhecemos se a original) com diferenças da modernamente gravada por diversos intérpretes, como, entre outros, Vitorino, e com a particularidade de ser executada por Reinaldo Varela.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TEATRO DIOGO BERNARDES - Caminhos dum percurso

TEATRO DIOGO BERNARDES
Caminhos dum percurso


     A ideia passou a voz pública no ano de 1892 e, nesse mesmo ano, ganhou consistência: optou-se pela natureza jurídica para lhe servir de suporte; escolheu-se o local onde seria construído; foi apresentada a planta e o orçamento - um novo teatro estava a nascer em Ponte de Lima.
     Assim, coube a uma empresa (a Empreza do Theatro de Ponte do Lima), constituída inicialmente por 153 accionistas, nove dos quais acumulavam 340 das 700 acções, todas de igual valor, a responsabilidade do empreendimento. O local pelo qual optaram foi, claro, o em que está instalado ainda hoje. Preterido um outro, sugerido e preferido por alguns dos accionistas, “o terreno das Cruzes, junto ao largo Dr. António de Magalhães”.[1] A planta, abandonada a intenção inicial que apontava para um teatro-circo[2], por demasiado oneroso, ao cuidado do arquitecto Municipal de Viana do Castelo, António Adelino de Magalhães Moutinho, foi aprovada, “com a cláusula de poder ser modificada no que parecesse conveniente, de harmonia com as forças do capital social e outras quaisquer circunstâncias supervenientes”[3].

    Em 1893, concluiu-se a constituição legal da empresa; comprou-se o terreno; deu-se por aprontados a planta e o orçamento; procedeu-se a tentativas de arrematação das obras, depois substituídas por aceitação de propostas, ao que parece com resultados, pois “já se acha realizado o competente contrato”[4]; confirmou-se que o capital era escasso e, por isso, decidiu-se “que a direcção ficasse autorizada a contrair empréstimo, depois de esgotados os meios para serem colocadas todas as acções[5] (de uma nova emissão).
   Infelizmente, em 1894, são noticiados graves acidentes de trabalho, durante a construção do Teatro, com feridos de diferente gravidade e em que perde a vida um operário de 17 anos.
  Em 1895, prosseguindo as obras, parece que o edifício já tem o necessário para acolher os bailes de máscaras dos festejos carnavalescos desse ano e o jornal Vida Nova, de Viana do Castelo (n.º 382, de 16.04), informava que é da autoria de Serafim de Sousa Neves (o então director da Escola Industrial Nun’Alvares, daquela cidade) uma estatueta, destinada à frontaria do Teatro de Ponte de Lima, e esperava ver o modelo em gesso respeitado pelo canteiro que fizer a sua transposição para granito.
   Em 1896 voltam os Bailes de Máscaras, do Carnaval, e inaugura-se formalmente, a 19 de Setembro, o Teatro.

    A partir da inauguração a propriedade e gestão do espaço, com períodos de actividade e encerramento, foi sendo garantida por:
     - 1896 – 1908 – Empresa do Teatro de Ponte de Lima, com diversas direcções.
     - 1908 – 1968 – João Francisco Rodrigues de Morais e herdeiros.
     Sendo possuidor de créditos reclamados, João Rodrigues de Morais passou a único proprietário da Empresa, procedendo à conclusão das obras exteriores e introduzindo diversas modificações interiores. A seu mando ficou a gestão do espaço até ao conflito acontecido durante o Sarau da Tuna Académica de Coimbra, a 4 de Fevereiro de 1910, com várias destruições de mobiliário e outros danos no edifício. O proprietário só aceita a reabertura do espaço caso alguém o “arrende e o explore sob sua exclusiva responsabilidade”.[6] E é o que vem a acontecer. O primeiro empresário, dos muitos que por lá passaram, é Avelino Guimarães que arrenda e explora o espaço entre 1911 e 1914.

     - 1968 – 1992 – Aurélio Pereira Fernandes.
     Após obras de beneficiação, reabre o espaço a 12 de Dezembro de 1968. No dia anterior tinha sido feita apresentação à imprensa, autoridades e outros convidados.
     - A partir de 1992, a propriedade é do Município de Ponte de Lima, sendo o espaço remodelado e reinaugurado a 4 de Março de 1999.





[1] - Jornal A Semana, n.º 25, 15.09.1892.
[2] - Jornal Vida Nova, Viana do castelo, n.º 69, 18.03.1893.
[3] - Jornal A Semana, n.º 25, 15.09.1892.
[4] - Jornal A semana, n.º 61, 08.06.1893.
[5] - Jornal A Semana, n.º 62, 15.06.1893.
[6] - Jornal o Comércio do Lima, n.º 221, 17.12. 1910.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 9 de maio de 2014

CUCURRUCUCU


      

     Um dia desta semana passei por um cartaz (dão-lhe uma designação estrangeira, talvez ignorando que já de há muito são utilizados e nomeados na nossa língua) e, em um cantinho, reparei na figura de Ribeirinho.
     O cartaz anuncia um espectáculo teatral, a decorrer brevemente no Teatro Diogo Bernardes em Ponte de Lima, agora divulgado como Cucurrucucu, e a menção a Ribeirinho (Lisboa, 1911- 1984), e também a Henrique Santana (Lisboa, 1924-1995), deve-se a terem sido eles, provavelmente, os primeiros a trazer a peça a Portugal.
  Em 1960, no Teatro Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa, uma companhia Teatral, titulado por Francisco Ribeiro (Ribeirinho) e Henrique Santana, tinha anunciado um projecto de teatro só para rir. A que agora chamam de Cucurrucucu, na altura, foi apresentada só com um r (Cucurucucu), era a segunda peça a entrar em cena, e foi estreada a 18 de Novembro desse ano. No elenco, para além de Ribeirinho e Henrique Santana, estavam os nomes de Assis Pacheco, Irene Isidro, Aida Baptista, Lili Neves, Carlos Alves, Mário Pereira e Joaquim Nunes.
     
     A peça da autoria de Alfonso Paso (Madrid, 1926-1978) e título Usted puede ser un asesino, datada de 1958, tinha sido estreada nesse mesmo ano e nele chegou ao Teatro de la Comedia, de Madrid, a 27 de Maio, em representação da Companhia de Ismael Merlo e Diana Maggi, e rapidamente se transformou num enorme êxito, merecendo adaptação cinematográfica em 1961, em realização de José Maria Folqué.
     
     A tradução e adaptação para o nosso país foi efectuada por Jorge de Sousa e a escolha do título ignoro a quem pertenceu.
 Não interessa referir a reacção da crítica, até porque apenas consegui consultar uma, mas a verdade é que a peça se manteve em cartaz até 2 de Janeiro de 1961, sendo, ainda nesse mês, representada no Sá da Bandeira, no Porto, durante vários dias, e também, mais perto de nós, em Braga a 22. Posteriormente a Companhia regressou ao Variedades, com outra peça.

      Francisco Ribeiro (Ribeirinho) pisou o palco do Teatro Diogo Bernardes, pelo menos, uma vez. Integrado na Companhia de Chaby Pinheiro, a 1 de Dezembro de 1929 aqui actuou, na peça de André Brun, A Maluquinha de Arroios, no papel de Chico (a mesma com que tinha feito o seu debute profissional, em Torres Vedras, no Teatro Virgínia, a 3 de Outubro de 1929).
   Não registo qualquer outra passagem de Ribeirinho pelo palco (diversas pelo ecrã) do nosso Teatro, embora tenha regressado a Ponte de Lima, pelo menos, em dois anos, 1939 e 1953, ao serviço do Teatro do Povo, que então dirigia, e acompanhado de excelentes actores (Laura Alves, Leonor d’Eça, Amélia Pereira, Alfredo Ruas, Barroso Lopes, Luís de Campos, em 1939), (Gina Santos, Fernanda de Montemor, Maria Albergaria, Maria José, Vanda Maria, Canto e Castro, Carlos Duarte, Costa Ferreira, Fernando Gusmão, Paulo Renato e Rui de Carvalho, em 1953). Os espectáculos, do Teatro do Povo, aqui realizados, foram ao ar livre, como habitualmente acontecia com aquela companhia de iniciativa estatal.
    Feita esta pequena memória, relembro que o Teatro Diogo Bernardes apresenta, a 17 de Maio de 2014, a peça Cucurrucucu, adaptação de Tozé Martinho e Teresa Wong.


Fontes principais: Jornais da época (ABC de Madrid, Cardeal Saraiva, Diário de Lisboa, …)