quarta-feira, 10 de maio de 2017

Baptista-Bastos

«O Cavalo a Tinta-da-China»



   «Está a andar com todos os sentidos despertos para a noite. Na rotunda do Marquês hesita. Acende um cigarro, desce a Avenida da Liberdade. A meio, um pouco antes do Parque Mayer, senta-se num banco de madeira, mesmo ao lado de um candeeiro alto, tira o Diário de Lisboa do bolso do casaco, o gesto não obedece a nenhuma associação de ideias. Folheia, distraído, o jornal. Na página Teatros e Cinemas lê uma nota assinada N.L. sobre a estreia, no Apolo, da peça de Jardiel Poncela, Branco por Fora e Rosa por Dentro. Segundo N.L., a peça «é, assim, uma “humorada” teatral sem consistência e com evidente influência dos processos cinematográficos, o que não nos parece de aconselhar em teatro. O autor, que não pretende certamente transpor os umbrais da posteridade com este e outros trabalhos do mesmo género, conseguiu, no entanto, fazer o que queria: fazer rir.»[1]
    «N.L. comenta o trabalho dos actores: Ribeirinho, «jovial e dinâmico»; Madalena Sotto, «que só tinha a lucrar se não fizesse ausências tão prolongadas do palco»; Hortense Luz, «que continua a provar que é uma actriz segura»; Armando Machado, «sóbrio e correcto»; Joaquim Prata, «que desenhou com o seu bom humor habitual a caricatura dum médico inverosímil»; e Alberto Reis, «que fez bem o pouco que teve que fazer». A terminar: «Completam o elenco feminino, em silhuetas graciosas, Fernanda de Sousa, Branca Saldanha e Regina Escobar. Tarquínio Vieira e Morgado Maurício têm a seu cargo dois papelinhos secundários, que desempenharam correctamente.» [2]

Retrato de Baptista-Bastos da autoria de Luís Dantas, Lisboa, 1993.





[1] - Em Portugal a peça foi estreada a 5 de Janeiro de 1944 e permaneceu, em cena, até 31 do mesmo mês. A adaptação, na nossa língua, teve a responsabilidade de Alberto Barbosa e José Galhardo. Não terá acertado N.L. (Norberto Lopes), quanto ao perecimento da obra de Enrique Jardiel Poncela (Madrid 1901-1952). Personalidade controversa é, no entanto, um nome que sobreviveu, pelo valor inovador da sua obra, ao próprio infortúnio que os últimos anos de existência física lhe reservaram.
[2] - Fragmento do romance de Baptista-Bastos, Cavalo a Tinta-da-China, 1995.

domingo, 9 de abril de 2017

O REGRESSO DO JUDAS

O REGRESSO DO JUDAS



     Parece que o último sopro de vida do Judas, de António Plácido, foi em 1925.
   Fora das gazetilhas que o foram lembrando, mas não executando e, talvez, ignorando algumas execuções a não merecerem referência da imprensa, Ponte de Lima teria de esperar oito anos para assistir ao regresso da prática, e agora, possivelmente, pelo génio de Guerrinha (João Dantas Guerra), recém-chegado do Brasil.
   O jornal Cardeal Saraiva, de 08 de Abril de 1933, relata: «Há já alguns anos que Judas Iscariote não sofre entre nós o suplício da pena a que eternamente o votaram./ Porém, no sábado de Aleluia, vai mais uma vez levantar-se no Largo Rodrigues Alves o cadafalso a que subirá um dos muitos judas que abundam por este país…». E ajudando ao reclame, David Braga, no mesmo jornal, lá foi escrevendo, pela pena de Judas, «…Que há muitos como eu, muitos dos tais,/Capazes de vender o Deus ungido.// Antes de mim, já vós ereis no mundo/ Canalha a mais, em cujo olhar profundo/ Se via toda a ausência de Registo.// Mas ficai-vos p’ra aí, gente maldita,/ Em busca de coleira e de marmita/ Que eu vou arrepender-me aos pés de Cristo.»
  Mas se não foi esta a estreia do Judas, do Guerrinha, ela não se fez esperar, ganhou, como o de Plácido, honra de notícia e, até, anos volvidos, esta saborosa evocação na escrita arguta de Luís Dantas, publicada também no jornal Cardeal Saraiva, agora de 21 de Abril de 1967 e incluída em texto com o título «A Páscoa em Ponte»: «Uma réstia de sol anuncia o sábado de aleluia. Os rapazes da vila já pularam da cama e correm à lapa, aonde o «Guerrinha» trabalha nas caricaturas ridículas da terra, no Judas, que, sob o assédio deles, vem, manhã fora, para o Largo de Camões. Ali fica, aos olhos dos que desejam ver e saber de quem se trata, esperando a primeira hora da tarde para ver o estoiro. / Entretanto vendem-se os testamentos…O «Guerrinha» não tem mãos a medir. Todos compram as quadras de sabor popular a rimar piadas e ironias. Elas andam na boca do mundo. Há legados, estrambólicos legados, aos típicos da terra…coisas que ao diabo não lembra./ Risos no largo. Desdenha-se dos testas franzidas. E entre algarreio de vozes o Iscariote rebenta. A vila e a gente da meia tijela se alvoroçam. / Dias idos, o feitiço havia-se voltado contra o feiticeiro. Já todos sabiam que o «Guerrinha», de um enxerto de porrada, foi à botica atar uma ligadura à cabeça. Mas tudo é de ocasião. Tudo depois esquece e passa.»
 

Crédito da Ilustração: Arquivo Municipal de Ponte de Lima (http://arquivo.cm-pontedelima.pt/noticia.php?id=986)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A RODRIGUES ALVES, NO TEJO CUMPRIMENTOS DO LIMA

HISTÓRIAS DO LIMA
A RODRIGUES ALVES, NO TEJO CUMPRIMENTOS DO LIMA

José Sousa Vieira


    
   A 22 de Maio de 1907 fez escala em Lisboa, em viagem para Inglaterra, o paquete Aragon, vindo do Rio de Janeiro e trazendo, entre os seus passageiros, Francisco de Paula Rodrigues Alves que, de 15 de Novembro de 1902 a 15 de Novembro de 1906, havia sido Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
    Na terra natal do seu pai, Domingos Rodrigues Alves, nascido no lugar do Silveiro, na freguesia da Correlhã, a 23 de Dezembro de 1818 e, então, ainda vivo e a residir no Brasil, para onde tinha partido em 1832, em Sessão Ordinária, a Câmara Municipal de Ponte de Lima, reunida a 18 de Maio e já conhecedora da jornada, havia decidido solicitar ao Padre João Inácio de Araújo Lima que a representasse na recepção que se estava a preparar, na Capital, ao ilustre homem de Estado.
   Do desempenho da sua tarefa deu conta o Padre Araújo Lima, em ofício datado de 23 de Maio, dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, Francisco d’Abreu Pereira Maia, referindo, como novidade, o «vivo desejo de visitar Ponte do Lima, no regresso da viagem a Inglaterra», do Dr. Rodrigues Alves.
   
   Pela imprensa da época, no caso através do jornal Aurora do Lima, entre outros pormenores, sabemos que o Padre Araújo Lima interrogou o Dr. Rodrigues Alves se lhe poderia enviar uma «colecção de bilhetes-postais da linda terra de seu pai», ao que o ex-presidente solicitou que lhos remetesse para Londres, e que «muito estimarei vê-los lá».
   Pois como prometido e divulgado, em Outubro do ano seguinte, 1908, durante alguns dias, o Dr. Rodrigues Alves visitou várias localidades no nosso país. A 29 de Outubro esteve em Ponte de Lima, onde permaneceu das 14 até pouco depois das 17 horas, e de onde dizem ter sido recebido com muito carinho.
    Não querendo deixar passar despercebida essa visita, na Sessão de 07 de Novembro desse ano, da Câmara Municipal de Ponte de Lima, presidida por José Maria d’Abreu de Lima, o vereador José Correia de Sá, «comemorando a gentileza do ilustre cidadão brasileiro e em homenagem ao seu nome prestigioso e merecimentos superiores, de que o concelho tem razão de se orgulhar, propunha que o actual Campo dos Touros passe a denominar-se Largo Doutor Rodrigues Alves». E, com o apoio dos restantes membros do executivo municipal, teve assim o Sr. Dr. Rodrigues Alves o seu nome na toponímia da vila limarense.


   Ilustrações: - Capa na Revista Brasil-Portugal, com desenho representando o Dr. Rodrigues Alves, com a particularidade de ser da autoria de um limarense: Alfredo Cândido.
                         - Uma das fotografias, de Benoliel, obtidas durante a curta estadia (cerca de 6 horas) em 22 de Maio de 1907

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A primeira visita do casal Feijó a Ponte de Lima





     O noivado foi atribulado, mas o casamento, sanados os desacertos que António Feijó foi referindo[1], concretizou-se a 24 de Setembro de 1900[2].
      De Paris, onde chegaram a 1 de Outubro desse ano, Maria Carmen Mercedes Joana Lewin e António Joaquim de Castro Feijó, partiram com destino a Portugal, a 22 do mesmo mês. Terão chegado ao Porto a 25 e efectuaram visita, de diversos dias, a Braga, alojando-se no Bom Jesus. Decidiram, então, rumar para Ponte de Lima, onde apareceram a 3 de Novembro, um sábado. “Algumas das mais gradas pessoas dali, tendo disso conhecimento, mandaram queimar grande quantidade de fogo.”[3] No dia seguinte jantou o casal no Paço de Calheiros, e, no regresso a Ponte de Lima, foram “hospedar-se na antiga casa do Banco, sendo cumprimentados pelo corpo activo dos bombeiros voluntários, tocando a respectiva banda durante algumas horas, em frente daquela casa.”[4]
      No dia 6, jantaram em Bertiandos, a convite do respectivo Conde. A 7, seguiram em direcção a Lisboa.
     Embora o casal só tenha deixado Portugal a 4 de Julho de 1901, para que o primeiro filho  nascesse em Paris, o que aconteceu a 21 desse mês, não se conhece qualquer outra sua visita, durante essa longa estadia[5], à terra natal do poeta. Talvez António Feijó tenha ficado receoso do que relata ao seu amigo Luís de Magalhães, em carta de "Ponte do Lima, 6 de Novembro de 1900": “ Minha mulher continua a achar isto muito bonito; disse-me até que gostava de ficar aqui meses, se eu arranjasse uma casa na aldeia. Deus me defenda porém de tal ideia, porque o campo não me seduz grandemente.”[6]


Ilustração: Postal Ilustrado, incluído na 2.ª edição do Grande-Hotel Marcos, Ponte de Lima, 1908.
    




[1]  Ver António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães, Vol. I, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
[2] É esta a data geralmente mencionada. Em carta datada de 20 de Setembro, a Luís de Magalhães, Feijó refere: ”dentro de três dias estou casado”.
[3]  A Aurora do Lima, n.º 6759, 07 de Novembro de 1900.
[4]  A Aurora do Lima, n.º 6759, 07 de Novembro de 1900.
[5]  António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães, Vol. II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
[6]  António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães, Vol. I, pp.459, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2004

sábado, 22 de outubro de 2016

SEM

SEM 


   Os donos, de vidas e almas*, estão-se nas tintas para as consequências das desgraças criminosos que, por toda a parte, semeiam. Alguns dos seus acólitos até se divertem a bater com uma mão no seu peito e com a outra em todo aquele que lhe estorve a ascensão. Será, assim, para eles, inútil recordar, por exemplo, este excerto do poema, de António Feijó, “A águia prisioneira”: «Alma humana! Águia cega em perpétua ansiedade,/ Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,/ Quando julga atingir a suprema verdade,/ No pó, donde partiu, cai outra vez de rojo.»
…….
*“O poder mundial realmente existente está em grande parte na mão de gigantes que ninguém elegeu, e sobre os quais há cada vez menos controle. São trilhões de dólares em mãos de grupos privados que têm como campo de ação o planeta, enquanto as capacidades de regulação mundial mal engatinham. Pesquisas recentes mostram que 147 grupos controlam 40% do sistema corporativo mundial, sendo 75% deles bancos. Cada um dos 29 gigantes financeiros gera em média 1,8 trilhão de dólares, mais do que o PIB do Brasil, oitava potência econômica mundial. O poder hoje se deslocou radicalmente”(cf. Governança corporativa op.cit)
 “1% mais rico controla mais da metade da riqueza mundial. 62 famílias têm um patrimônio igual à metade mais pobre da população da Terra. 16 grupos controlam quase a totalidade do comércio de commodities (grãos, minerais, energia, solos, água).”