No Teatro D. Fernando, em Ponte de Lima, a 23
de Abril de 1881[1],
realizou-se um “sarau dramático-musical” com fins beneficentes. Entre os que
para ele contribuíram, recitando poesia, estava António Feijó que dias depois,
a 7 de Maio, apresentava “Sacerdos Magnus”[2] no Teatro Académico, em Coimbra. A
este último sarau assistiu Sebastião Sanhudo que no seu Sorvete o mostrou[3] e deixou escrito: “António
Feijó, um moço de vigoroso talento, muito considerado pela Academia toda, poeta
distintíssimo, também recitou uma brilhante poesia que conquistou ao autor uma
delirante ovação”.
[1]
O Comércio do Lima, n.º 283, 27 de Abril de 1881.
[2]Será que António Feijó aproveitou o Sarau em Ponte de
Lima para ensaiar a recitação de Sacerdos
Magnus, assinado pelo autor como criado em Coimbra em Abril desse ano?
O noivado foi atribulado, mas o casamento,
sanados os desacertos que António Feijó foi referindo[1],
concretizou-se a 24 de Setembro de 1900[2].
De Paris, onde chegaram a 1 de Outubro
desse ano, Maria Carmen Mercedes Joana Lewin e António Joaquim de Castro Feijó,
partiram com destino a Portugal, a 22 do mesmo mês. Terão chegado ao Porto a 25
e efectuaram visita, de diversos dias, a Braga, alojando-se no Bom Jesus. Decidiram,
então, rumar para Ponte de Lima, onde apareceram a 3 de Novembro, um sábado. “Algumas
das mais gradas pessoas dali, tendo disso conhecimento, mandaram queimar grande
quantidade de fogo.”[3] No dia
seguinte jantou o casal no Paço de Calheiros, e, no regresso a Ponte de Lima,
foram “hospedar-se na antiga casa do Banco, sendo cumprimentados pelo corpo
activo dos bombeiros voluntários, tocando a respectiva banda durante algumas
horas, em frente daquela casa.”[4]
No dia 6, jantaram em Bertiandos, a
convite do respectivo Conde. A 7, seguiram em direcção a Lisboa.
Embora o casal só tenha deixado Portugal a
4 de Julho de 1901, para que o primeiro filho nascesse em Paris, o que
aconteceu a 21 desse mês, não se conhece qualquer outra sua visita, durante
essa longa estadia[5], à terra
natal do poeta. Talvez António Feijó tenha ficado receoso do que relata ao seu
amigo Luís de Magalhães, em carta de "Ponte do Lima, 6 de Novembro de 1900": “ Minha mulher continua a achar isto muito bonito;
disse-me até que gostava de ficar aqui meses, se eu arranjasse uma casa na
aldeia. Deus me defenda porém de tal ideia, porque o campo não me seduz
grandemente.”[6]
Ilustração:
Postal Ilustrado, incluído na 2.ª edição do Grande-Hotel Marcos, Ponte de Lima,
1908.
[1] Ver António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães,
Vol. I, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
[2] É esta a
data geralmente mencionada. Em carta datada de 20 de Setembro, a Luís de Magalhães,
Feijó refere: ”dentro de três dias estou casado”.
[3] A Aurora do Lima, n.º 6759, 07 de Novembro de
1900.
[4] A Aurora do Lima, n.º 6759, 07 de Novembro de
1900.
[5] António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães, Vol.
II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
[6] António Feijó – Cartas a Luís de Magalhães, Vol.
I, pp.459, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2004
Na data em que nascera, 1 de Junho, Ponte de
Lima inaugurou em 1938 o Monumento a António Feijó (1859-1917). Já, há mais de
10 anos, os seus restos mortais, e os de sua esposa, tinham sido trasladados da
Suécia para Portugal e na sua terra natal e cemitério municipal estavam tumulados.
O Monumento erigido na Praça da República, iniciativa
do Padre João Inácio de Araújo Lima merecedora de diversos apoios e a
importante participação municipal, é um “belo desenho do arquitecto Paulo
Carvalho Cunha[1],
apreciável obra de granito, executada sob a direcção de José Manuel Lopes e
seus operários da terra do insigne Poeta António Feijó, e aonde assenta um
admirável busto em bronze, trabalho do Mestre Teixeira Lopes.”[2]
[1]
Tendo sofrido alteração, retomou a sua forma original durante a
presidência de João de Araújo Pimenta.
[2] Castro,
Eduardo, O Arauto das Feiras Novas, Ano 13.º, 1938.
Há três publicações anuais dedicadas às feiras
que desde 1826 se realizam em Ponte de Lima associadas aos festejos a Nossa
Senhora das Dores[1], todas
de iniciativa estranha à organização das mesmas, a merecerem lugar na história
da imprensa local.
Em 1926, ano de comemoração dos 100 anos
das Feiras Novas, mas na realidade correspondendo aos 101 da sua efectivação
(importa relembrar, com ou sem festejos, não existe notícia de qualquer ano de
não realização destas feiras), surgiu o O Arauto das Feiras Novas, iniciativa
de Eduardo de Castro e Sousa. O último, que conhecemos, corresponde ao 13.º,
foi editado em 1938, ano da inauguração, em Ponte de Lima, do monumento ao
poeta António Feijó, a obter, na revista, o devido destaque:
“E Ponte de Lima, a terra natal do Poeta e
de outros vates ilustres, consagra-o, com saudade, no monumento de iniciativa
da nossa Municipalidade, ali erigido na Praça da República, belo desenho do
arquitecto Paulo Carvalho Cunha, apreciável obra de granito, executada sob a
direcção de José Manuel Lopes e seus operários da terra do insigne poeta
António Feijó, e aonde assenta um admirável busto de bronze, trabalho do Mestre
Teixeira Lopes (…) ”.
Em 1947, o recentemente regressado Augusto
de Castro e Sousa, que em Lisboa vivera vários anos, segue o exemplo de seu
pai, troca a palavra arauto, e dá à estampa o O Anunciador das Feiras Novas. Este
primeiro anunciador, que o responsável em carta a Alberto do Vale Loureiro
afirma lhe ter infligido “penosos sofrimentos”, teve vida curta. Termina no
número 2, em 1948 e, curiosamente, disso já não se recordava Augusto de Castro
e Sousa, em 1984, na epístola a Alberto do Vale Loureiro, narrando ter saído “um
único número”, esquecendo que, em 1948, tinha escrito no seu anunciador, por
exemplo e referindo-se às Feiras Novas: «as tocatas – e são às centenas as que
vêm à festa – ferem o espaço e oferecem aos nossos distintos hóspedes tudo
quanto somos de simples e de bons.»
E por ser simples e bom, genuíno, Alberto
do Vale Loureiro, confessadamente um homem gostando “das coisas que falam,
mexem, fazem progredir e elevar Ponte de Lima”, decidiu retomar o O Anunciador
das Feiras Novas, gesto de estima pelo seu Mestre de Artes Gráficas, Augusto de
Castro e Sousa, pois outro título, se a vaidade se sobrepusesse ao coração, não
lhe estava interdito.
(Re)surge desta forma, a partir de 1984, o
O Anunciador das Feiras Novas, em II Série, afectiva, generosa, que, fruto dos
tempos e da possibilidade dos homens, apresenta um cunho histórico e cultural
predominante, aflorados nas modestas publicações anteriores, não obstante,
como naturalmente acontece em edições do tipo, acolher diversificada
colaboração, alguma da qual só as necessidades editoriais e, estamos convictos,
a referida bondade do coordenador justifica.
Sendo, desde o n.º 3, de 1986, propriedade
da actual Associação Empresarial de Ponte de Lima, completa, neste ano de 2013,
o 30.º aniversário. Pelo índice da revista, que meticulosamente José Carlos de
Magalhães Loureiro organiza, é possível constatar que, com assiduidade diversa,
já colaboraram em O Anunciador 85 autores, um deles, Adelino Tito de Morais, em
todos os números.
[1]
- Existe, por vezes, alguma confusão quanto às feiras (novas) e à festividade.
De facto, as feiras, três dias, autorizadas pela Chancelaria de D. Pedro IV,
por Provisão de 5 de Maio de 1826, e interpretando livremente extracto da
referida provisão, foram solicitadas para se conservar o culto a Nossa Senhora
das Dores, cuja imagem, para promoção da piedade cristã, tinha sido colocada na
Igreja Matriz da vila de Ponte e Lima e era festejada no mês de Setembro. Assim,
antes das feiras (novas) já existiam, em Ponte de Lima e na sua Igreja Matriz, festejos
a Nossa Senhora das Dores, cujo retábulo remonta a 1729.
Fontes:
- Loureiro, Alberto do Vale,
25 anos, Em segunda série, O Anunciador das Feiras Novas, 2008.
- Loureiro, José Carlos de
Magalhães Loureiro, Índice da Revista “O Anunciador das Feiras Novas”
(1984-2013), O Anunciador das Feiras Novas, 2013.
- O Anunciador das Feiras
Novas, Ano II – Setembro de 1948, N.º 2.
- O Arauto das Feiras Novas,
Ano 13.º, 1938.
- Vieira, Amândio de Sousa, Feiras
Novas, 1826-2006, Foto Lethes, Ponte de Lima, 2006.
- Vieira, José Sousa, As
Feiras Novas em Revista, Limiana – Revista de Informação, Cultura e Turismo,
Ano II, N.º 10, Dezembro de 2008.
- Vieira, José Sousa, A Imprensa das Feiras
Novas, O Anunciador das Feiras Novas, 2007.
O livro, edição da Associação Cultural
Civitas Limicorum de Xinzo de Limia, Limia – Río do Esquecemento, reúne textos e imagens,
actuais e do passado, num percurso de 148 páginas onde convergem o mito, a
história, a poesia, o afecto e a crença, num caudal de autores dos dois lados
de um mesmo rio: o Limia/Lima.
Silvia Dopazo, Antón Rivero Coello, Delfín
Caseiro, Francisco Domínguez Romero, Carlos Gómez Salgado, Antón Tovar, Xosé
Benito Reza, Federico Cocho, Álvaro Conqueiro, Florentino Cuevillas, Otero
Pedraio, Vicente Risco, Suso Vaamonde, Carlos Casares, Cláudio Lima, Diogo
Bernardes (numa composição atribuída a Luís de Camões, em compreensível lapso
que, durante muitos anos, vários especialistas repetiram), António Feijó,
Antonio Balboa Salgado, Luís Romero Becerra, Xosé Carlos Caneiro, Xose Lois
(Carrabouxo), Mariana Carballal, Luís Otero, Conde de Bertiandos*, Carlos
Rocha, Amândio de Sousa Vieira, Almada Negreiros, entre outros, são os
afluentes que engrossam esta obra de memória e homenagem, de canto e de
encanto.
Num namoro fascinante entre o sentimento
(as artes) e a razão (as ciências) esta colectânea, coordenada por Carlos Gómez
Salgado, quiçá familiar distante do limarense António Feijó que reivindicava
parentela original galega, é uma oportuna lembrança, um grito de memória que
atravessa os tempos e nos desperta para as virtudes e vicissitudes deste curso
de água, fluido mestre do Vale do Lima, corpo inteiro da nossa identidade
geográfica e afectiva.
Todos o sabemos. O río/rio Limia/Lima não
tem um percurso uniforme, nem corre livremente. Para além das dinâmicas
naturais que ao longo da sua vetusta história o foram mudando, a mão do homem,
com maior ou menor acerto, tem-se dele servido, alterando-lhe o curso e a
corrente, a fauna e a flora, modificando-lhe as condições morfológicas e
climatéricas, introduzindo-lhe barreiras construídas que o tentam moldar aos
seus interesses e necessidades, e nem sempre com o respeito e equilíbrio que a
partilha e a sobrevivência do nosso planeta aconselhariam.
É certo, ao crescimento demográfico e à
crescente capacidade do homem em utilizar os recursos naturais tem
correspondido, com maior evidência nos últimos anos, uma melhor consciência
ecológica, traduzida em algumas medidas tendentes a proteger os recursos,
encontrar alternativas mais equilibradas, melhorar a intervenção humana, recuperar,
se e quanto possível, claros dislates que o desconhecimento e a ganância foram
fazendo. Mas, e até aproveitando as recentes lições colhidas do colapso da
infalibilidade da organização económico-financeira que regia a sociedade
ocidental, é necessária maior e mais eficaz intervenção. É que de boas
intenções está a legislação ambiental cheia, faltando, demasiadas vezes, os
mecanismos para a tornar efectiva.
E o rio Lima, mais precisamente a sua
Bacia Hidrográfica, é a principal riqueza do Vale do Lima português. Todos os
projectos de desenvolvimento para a região deveriam ter essa constatação como
axioma, a sua protecção como doutrina, o seu aproveitamento equilibrado como
cerne. Não só por se tratar de uma das regiões de Portugal de melhores recursos
hídricos, mas, também, ninguém o ignora, porque a água potável será o centro
das preocupações humanas futuras e estamos todavia em condições de melhorar, na
nossa região, a sua qualidade e adequado aproveitamento.
Até por isto a oportunidade desta obra que
em Xinzo de Limia teve nascente a 28 de Novembro de 2008, aportando a Ponte de
Lima, vila irmã, a 11 de Janeiro de 2009, trazendo consigo as gaitas (Banda de
Gaitas de Xinzo de Limia) que, desde meninos, nos acordavam para a festa e as
vozes (Coro Santa Mariña) num linguajar a que as nossas feiras (as velhas e as
novas) nos foram habituando.
E o digno Teatro Diogo Bernardes, prenhe
de acontecimentos e de visitantes ilustres que a sua rica história lhe
proporcionou, não deixou de se emocionar ao ver como aqueles dois idiomas (ali
representados, ainda, por Silvia Dopazo, Carlos Goméz Salgado, Cláudio Lima,
Dantas Lima, Franclim Castro e Sousa, Daniel Campelo, o Presidente do Município
de Ponte de Lima, e Isaac Vila Rodriguez, o Alcaide de Xinzo de Limia)
confluíam.
(Publicado, originalmente, em Limiana, Revista de
Informação, Cultura e Turismo, n.º 11, Fevereiro de 2009)
*- O texto, referido como do Conde de Bertiandos
(Lenda do Rio Lima), não integra a sua obra. No entanto, o seu nome, mesmo com
a imprecisão anotada (e dela não demos conta na versão publicada na Limiana), nela
figura por inteiro mérito.
Na obra póstuma, editada em 1926, Novas Bailatas, está incluída, com 11 quadras, a composição Guitarra. Utilizando, com nova ordenação, 4 dessas quadras do limarense António Feijó, com música de Jaime Santos, o repertório de Amália Rodrigues incluía o Fado Alfacinha:
Faz da noite confidente...
A noite é sempre calada:
Escuta o que diz a gente
E nunca repete nada. (6 quadra no poema original)
Teus olhos são passarinhos
Que ainda não podem voar...
Cuidado! que andam aos ninhos
Os rapazes do lugar... (2 quadra no poema original)
Teus olhos, quem há que ao vê-los
Tão doces na tua face,
Não lhe apeteça comê-los
Como dois olhos de alface? (5 quadra no poema original)
O Fado tem tal encanto,
Que é diverso em cada hora...
Suspira, guitarra, chora!
Cada hora tem seu pranto... (1 quadra no poema original).
“Tinham-ma anunciado com pormenores exactos para fins de Outubro. Em todo o
caso podes calcular a impressão que senti. Muitas vezes nas nossas conversas
constatávamos, como filósofos, que Portugal era uma monarquia sem monárquicos.
Os factos confirmaram essa observação, e mostraram ainda que essa monarquia
também não tinha monarca.
O entusiasmo que vai por aí não pode ser filho senão de uma grande fé. Deus
queira que os homens do novo regime saibam aproveitar-se dessa circunstância
para levantar o país da miséria em que o lançaram o egoísmo mais abjecto – a
mais estúpida e escandalosa ambição.”
Nesse dia, uma sexta-feira, é proclamada, nos Paços do Concelho de Ponte de
Lima, a República.
Impaciente, querendo assumir rapidamente a gestão, a Comissão Municipal
Republicana, convida a população a comparecer nos Paços do Concelho, pelas duas
horas da tarde.
Faz redigir, pela mão de um dos seus membros presentes, Francisco Pereira
Campos, uma acta, que, segundo o jornalO Commercio do
Lima, n.º 211 de 8 de Outubro de 1910, tinha o seguinte teor:
"Aos sete dias do mês de Outubro, e segundo da proclamação da
República Portuguesa compareceram nos Paços do Concelho a Comissão Municipal
Republicana representada pelos seus membros, os cidadãos António José Barbosa
Perre, Francisco Pereira Campos, Bento António Gonçalves Pereira e Albino de
Matos e grande massa de cidadãos. Como não estivesse presente nenhum dos
membros da vereação, resolveu-se hastear a bandeira vermelha e verde, com o
dístico Pátria e Liberdade e marcar para o dia seguinte a entrega e simbolizar
este acto a proclamação do novo regime.
Ponte do Lima e Paços do Concelho Municipal, aos sete dias do mês de
Outubro de 1910."
Falaram, de seguida, Artur Cunha, António José Barbosa Perre, decano dos
republicanos locais e secretário da respectiva comissão municipal (o seu
presidente, Manuel José d'Oliveira, não se encontrava em Ponte de Lima, nessa
altura), os sargentos da armada, José Mendes Pinto e Joaquim José Vicente que,
na companhia do seu colega Guilherme Moreira, representavam a guarnição da
canhoneira Limpopo, ao serviço em Viana do Castelo, e que afirmaram que o seu
ideal político, embora dentro da República, ia um pouco mais além, "um ideal
muito mais alto de justiça e liberdade", e Álvaro d'Almeida, em saudação
ao novo regime.
Foi assinada, logo após, a Acta da Proclamação, primeiro pelos membros da
Comissão Republicana Municipal, depois pelo Juiz da Comarca e por grande número
das pessoas presentes.
Ao som do "novo hino nacional", A Portuguesa, executado pela
"banda dos nossos artistas", foi hasteada a bandeira republicana,
cerimónia acompanhada por uma salva de tiros.
Seguiu-se um cortejo, também ao som de A Portuguesa, e com lançamento de
foguetes e entre vivas à República e à Pátria, que percorreu as ruas Boaventura
José Vieira, D. Pedro, António Feijó, João Rodrigues de Morais, largo do Dr.
Magalhães, rua do Souto, largo da Matriz, rua da Abadia, largo de Camões, rua
do Rosário, largo de S. João, rua Vasco da Gama e bairro de Além da Ponte.
À noite, no Hotel do Passeio, realizou-se um banquete, em que discursaram
Rodrigo d'Abreu, Cândido da Cruz, Francisco Pereira Campos, Guilherme Mata e
Teófilo Carneiro, "um novo cheio de talento e com ideias modernas",
entre vivas à República Portuguesa, à liberdade, e entoações de A Portuguesa, e
sendo lembrado, amiúde, "o 2.º Tenente da Armada e nossoconterrâneo*Tito de Morais", pelo importante
papel desempenhado, ao comando do cruzador S. Rafael, com significativa
participação para o bom êxito da revolução, como o bombardeamento do Rossio, a
4 de Outubro, com dois tiros de artilharia, que puseram em fuga as tropas monárquicas
ali estacionadas e impediram, em conjunto com os outros navios da armada
revoltosos, o prosseguimento dos ataques à Rotunda.
Ao banquete assistiram:
Álvaro d'Almeida, Albino de Matos, Amaro d'Oliveira, Américo Maciel Pais
Carneiro, Anselmo Armando Reis de Sequeiros, António José Barbosa Perre,
António José d'Oliveira, António Antunes Ferraz, António Pereira d'Araújo,
Artur da Cunha Araújo, Avelino Pereira Guimarães, Bento António Gonçalves
Pereira, Claudino José de Lima, Francisco Pereira Campos, Francisco Augusto
Dantas, Francisco Vasques Martins, Francisco José Dantas, Francisco d'Abreu de
Lima, Francisco de Melo da Gama e Vasconcelos, Guilherme da Mata, Henrique de
Passos Sousa, João Manuel da Silva, João Augusto Dantas Júnior, João Manuel da
Silva Braga, João Rodrigues Guerra, José Cândido Pinto da Cruz e Costa, José
Martins d'Albuquerque, José Mendes da Costa Júnior, José Alves de Sousa Júnior,
José de Sousa Vieira, José Joaquim Gonçalves Pereira, José Pereira Marinho,
José Bento de Lima Fernandes, Júlio José de Brito, Luís José Dantas, Luís
Moreira Magalhães, Luís Antunes Ferraz, Manuel de Sousa Amorim, Manuel Teixeira
Júnior, Pelágio Lemos e Teófilo Maciel Pais Carneiro.
Às três horas da tarde,
do dia 8, partia para Viana do Castelo a Comissão Republicana Municipal, em
virtude de não ter recebido, até aquela hora, "comunicações oficiais que a
autorizassem a tomar posse da Câmara Municipal".
*- Tito de Morais não
era natural de Ponte de Lima. No entanto, seu pai,o agrónomo Manuel Rodrigues
de Morais, havia nascido nesta localidade.
A Comissão Municipal Republicana, "toma posse e
conta da gerência" do Município de Ponte de Lima.
Respeitando as determinações do Governador Civil do Distrito de Viana do
Castelo, Belchior de Figueiredo, transmitidas por telegrama de 9 de Outubro de
1910, no dia imediato, o ainda Presidente da Câmara, Reverendo António Joaquim
da Costa e Sousa, procedeu à entrega do poder aos dirigentes republicanos de
Ponte de Lima.
Em cerimónia realizada nos Paços do Concelho, com numerosa assistência presente
na sala das sessões, e “grande concorrência de povo no local da Praça da
Rainha, fronteiro à janela da referida sala e no qual se encontrava uma força
de dezanove praças do Regimento de Infantaria número três, comandada pelo
Tenente senhor Joaquim Augusto de Oliveira e a Filarmónica dos Artistas, desta
vila”*, assumiu a gestão camarária a Comissão Municipal Republicana,
constituída pelos membros efectivos, Manuel José de Oliveira, António José
Barbosa Perre, Francisco Pereira Campos, Bento António Gonçalves Pereira,
Albino de Matos, José de Oliveira Martins de Albuquerque e Bernardo de Oliveira
Gomes da Cunha, e pelos membros substitutos, Manuel de Sousa Amorim, Anselmo
Armando dos Reis Sequeiros, António José de Sousa, José Bento Fernandes Lima,
Avelino Pereira Guimarães, António Passos da Silva Brito e Manuel José de
Araújo.
António José Barbosa Perre, que, como vogal mais velho, passou à presidência, e
após uma breve intervenção, ainda na sala das sessões, em que historiou o seu
percurso político, ao serviço da causa republicana, e salientou o facto de ter
decorrido praticamente sem derrame de sangue a revolução, dirigiu-se, entre
vivas e aplausos, para o pátio onde, novamente, usou da palavra, proclamando a
República Portuguesa.
Seguidamente, com a força militar em continência, entre vivas à República
Portuguesa, à Pátria, ao Exército, à Armada e à Felicidade Nacional, e com a
filarmónica executando A Portuguesa, foi hasteada, no mastro do edifício, a
bandeira verde e vermelha com a legenda, em branco, Pátria e Liberdade. No ar,
misturavam-se o som dos foguetes e as ovações dos presentes.
“Por fim, o senhor Presidente Barbosa Perre, retomando o seu lugar, designou a
próxima Quinta-feira, dia treze, para a primeira sessão, pela uma hora da
tarde, e deu por concluído o acto de posse da Comissão Municipal, e aclamação
do novo regime português”*, que, curiosamente, em Ponte do Lima, foi duplamente
proclamado – a 7 e 10 de Outubro de 1910.
*-Cf. Anais Municipais de Ponte de Lima, 1938, pág.
127/129.
No mesmo dia em que a administração da Câmara Municipal de Ponte de Lima
passava, oficialmente, para as mãos dos republicanos, Reinaldo Varela (Ponte de
Lima*, 1861 - Lisboa, 1940), criava o seu Fado Republicano.
Reinaldo Varela, herdeiro de tradição familiar,
possuía formação musical e distinguiu-se como compositor, guitarrista, cantor e
professor, tendo elaborado vários compêndios, entre eles, os publicados com os
títulos (grafia actualizada) de "Compêndio mais correcto e aumentado para
aprender a tocar guitarra sem música e sem mestre", "Método prático e
simples para aprender a tocar bandolim sem música", "Método fácil de
viola francesa para aprender sem música", "Breves explicações sobre o
processo de tocar guitarra e bandolim, pelo sistema de algarismos".
O seu nome ficará, para sempre, ligado à história do
fado, quer como compositor (os seus fados ainda são interpretados, na
actualidade), quer como cantor, tendo gravado cerca de 150 discos, a partir de
1904. O recente protocolo, assinado entre instituições nacionais e o inglês
Bruce Bastin, para aquisição, pelo nosso país, de parte do importante espólio
deste coleccionador, no caso e na sua maioria referente a fado, veio chamar à
ribalta este nosso conterrâneo*, e vai permitir-nos, esperamos que brevemente,
desfrutar da sua arte.
Portugal iniciou a sua participação nos Jogos Olímpicos em 1912, em Estocolmo, na Suécia, onde, então, era nosso diplomata António Feijó. A ele, nessa qualidade, coube receber e apoiar a delegação lusa. Infelizmente, a principal esperança portuguesa para os jogos, o maratonista Francisco Lázaro, veio lá a falecer e o limarense António Feijó acompanhou muito de perto esse drama.
Em 1948, nos segundos jogos disputados em Londres, esteve presente o atleta natural de Ponte de Lima, onde nasceu a 25 de Abril de 1923, Nuno Morais. Disputou as provas de 100 e 200 metros, em atletismo. Era, na altura, o recordista nacional de 200 metros e, ainda, co-recordista de 100 metros. Tinha sido, em ambas as distâncias, Campeão de Portugal no ano anterior. (1)
Este ano, nos terceiros jogos olímpicos disputados em Londres, Ponte de Lima orgulha-se da presença do canoísta Fernando Pimenta, nascido a 13 de Agosto de 1989, para, na sua modalidade, participar nas provas de K2, de 1.000 e 200 metros. Nota (16.08.2016) - Como
todos sabemos, Fernando Pimenta, em equipa com Emanuel Silva, obteve a medalha
de prata, em K2 1000 metros, em Londres, a 8 de Agosto (http://limianismo.blogspot.pt/2012/08/ate-pareceu-simples.html). Este ano, 2016, o grande atleta limarense está no
Rio de Janeiro, para competir em K1 e K4 1.000 metros. [1] Importa ter em atenção que
Nuno Morais terá nascido em Braga, sendo o seu pai, Durval de Morais, natural
de Ponte de Lima.
Luís Augusto de Sousa Pereira Dantas nasceu em
Ponte de Lima, na Rua do Arrabalde, então Vasco da Gama, a 3 de Agosto de 1946,
vindo a falecer, em Lisboa, a 20 de Maio de 2011. Perene será a sua obra de
escritor, poeta, publicista, cronista, historiador, crítico literário, começada
a construir, publicamente, a 14 de Maio de 1965, como Luís de Sousa Dantas, nas
páginas do n.º 2.141 do jornal Cardeal Saraiva, numa prosa, carregada de
literatura e inconformismo, titulada Cenas da Aldeia. E foi no mesmo jornal,
creio, que estampou as primeiras poesias, contos, novelas e, alargando
horizontes, assinou Hugo Ritson (cronista e poeta), Só (poeta), L.S.D.
(publicista), Luís de Sousa Dantas, em muitos estilos, e Luís Dantas com que
grafou a maioria dos seus trabalhos. Depois, muitos outros jornais e revistas
acolheram a sua colaboração, viu trabalhos premiados e deu à estampa obras cuja
verdadeira importância está, ainda, por reconhecer devidamente.
Na edição começou em Abril de 1970, com
Pedras Verdes, a que se seguiu, em Janeiro de 1974, Bolero Bar, com
republicações em 2.000 e 2006, ambas obras poéticas. Regressou, com novos
géneros, em 1993, Ponte de Lima na Revolução de 1383 (2.ª edição em 2006);
1999, A Água nas Primeiras Civilizações, O Vinho nas Primeiras Civilizações,
Viagens e Descobertas; 2001, A Revolta da Maria da Fonte, Bocage no seu tempo;
2002, Os Garranos da Península Ibérica (aumentado, tem nova edição em 2010);
2006, O Cinema Olympia em Ponte de Lima, A Vaca das Cordas em Ponte de Lima;
2008, A Arte e a Guerra 1914-1918, Os Limianos na Grande Guerra; 2009, António
Feijó, A Boémia Estudantil e Os Primeiros Versos, O Circo em Ponte de Lima,
Figuras Populares de Ponte de Lima, A Geração Coimbrã de 62; 2010, Retratos
Galegos, Geração Beat; 2011, Gomes Leal, O Anjo Rebelde, João Penha, Vida e
Obra.
Participou,
também, entre 1996 e 2011, em seis obras colectivas e assinou, de 1975 a 2011,
17 prefácios e deixou outro para obra ainda não editorada. Revelados, mas sem
impressão clássica, ficaram 4 trabalhos: Deputados do Alto Minho na Primeira
República; Alberto de Madureira Um poeta esquecido; Mário Domingues; A.
Gonçalves Dias, O Poeta do Maranhão.
Os
que o conheceram sabem da forma especial como se relacionava com a vida,
entendendo-a, quase sempre, como um espaço de partilha e de solidariedade. De
Lisboa, onde viveu o quinhão maior da sua existência, chameava uma visão ampla,
aberta, perto das naus dos descobrimentos constantes, do gosto pelo convívio de
conteúdo fraterno, arrojado, empenhado. Da sua terra pátria, Ponte de Lima, transportava
o aconchego do confinamento territorial, da rua, do largo, da avenida, do
areal, do rio, eternamente, com outra
margem, da casa, do café, do bar, do tasco sempre de caras conhecidas, num
abraço familiar e amigo para com todos – era, em suma, de uma urbanidade
exemplar.
Mas, era mais, tinha uma conversa e uma
escrita cativante, que se fundiam e confundiam. Ainda agora, passado um ano do
seu desaparecimento físico, quando leio algum dos seus trabalhos, é como se o
tivesse à minha frente.
-Pedras Verdes, Edição do Autor, Ponte de Lima, Abril de 1970
Prefácio: A. Garibáldi
Capa e ilustrações: jota álamo
Composição e impressão: Tipografia Guimarães
-Bolero Bar, Edição do Autor, Lisboa, Janeiro de 1974
Capa: A. M. Coelho
Composição e impressão: Oficinas Gráficas «N.A.»Ld.ª
Edição: Edições Ceres (2.ª Edição), Lisboa, 2000
Prefácio: Paulo Brito e Abreu
Capa: Henri de Toulouse-Lautrec, No «Rat Mort»,1899, óleo sobre tela, 55x45 cm, Londres, Courtauld Institute Galleries
Ilustrações: Armanda Andrade
Paginação e Execução Gráfica: Estúdio Ceres
Depósito Legal: 155014/00
ISBN: 972-8565-03-8
Edição: Edições Ceres (3.ª Edição), Lisboa, 2006
Prefácio: Paulo Brito e Abreu
Capa: Henri de Toulouse-Lautrec, O Bar, 1898, óleo sobre cartão, 81,55x60 cm, Zurique, Kunsthaus
Ilustrações: Armanda Andrade
Depósito Legal: 241165/06
ISBN: 972-8565-17-8
-Ponte de Lima na Revolução de 1383, Edição: Ceres Editora, Ponte de Lima, Dezembro de 1993
Capa: Estúdios Ceres
Execução Técnica: Tipografia Guimarães, Ponte de Lima
Depósito Legal: 63680/93
ISBN: 972-95845-0-8
-A Revolta da Maria da Fonte, Edição: Edições Ceres, Lisboa, 2001
Capa: Armanda Andrade
Execução gráfica: Gráfica da Graciosa, Lda. - Ponte de Lima
Depósito Legal: 162617/01
ISBN: 972-8565-06-2
-Bocage no seu Tempo, Edição: Edições Ceres, Lisboa, 2001
Capa: Estúdios Ceres
Execução Gráfica: Gráfica da Graciosa
Depósito Legal: 155015/00
ISBN: 972-8565-04-6
-Os Garranos da Península Ibérica, Edição: Edições Ceres, Lisboa, 2002
Capa: José G. Garcia
Execução Gráfica: Gráfica da Graciosa
Depósito Legal. 184124/02
ISBN: 972-8565-12-7
Os Garranos na Península Ibérica, Edição: Município de Ponte de Lima, 2010 (2.ª Edição - Revista e aumentada)
Fotografia: Amândio de Sousa Vieira
Design Gráfico: Zain
Impressão e Acabamento: Raínho & Neves
Depósito Legal: 311280/10
ISBN: 978-972-8846-31-2
-O Cinema Olympia em Ponte de Lima, Edição: Luís Dantas, 2006
Depósito Legal: 245703/06
ISBN: 989-95126-1-3
-A Vaca das Cordas em Ponte de Lima, Edição: Luís Dantas, 2006
Capa: Fotografia de Amândio de Sousa Vieira
Execução Gráfica: Barbosa & Xavier, Lda - Braga
Depósito Legal: 245704/06
ISBN: 9989-95126-0-5
-A Arte e a Guerra 1914-1918, Edição: 2008
Execução gráfica. Grafislimia, Ponte de Lima
Depósito Legal: 264139/07
ISBN: 978-989-95126-3-4
-Os Limianos na Grande Guerra, Edição: 2008
Execução Gráfica: Grafislimia, Ponte de Lima
Depósito Legal: 266762/07
ISBN: 978-989-95126-4-1
-António Feijó, A Boémia Estudantil e Os Primeiros Versos, Edição: 2009
Impressão: gráfica da Graciosa, Ponte de Lima
Depósito Legal: 280437/08
IBSN: 978-989-95126-5-8
-O Circo em Ponte de Lima, Edição: Luís Dantas, 2009• (com Catarina Dantas)
Depósito Legal: 288416/09
ISBN: 978-989-95126-6-5
-Figuras Populares de Ponte de Lima, Edição: Município de Ponte de Lima, 2009
Prefácio: João Alpuim Botelho
Recolha e Selecção de Fotografias: Amândio de Sousa Vieira/Luís Dantas
Design Gráfico: XPTO Design, Lda. Impressão e Acabamento: Raínho & Neves, Lda.
Coordenação Editoril: Ovídio de Sousa Vieira
Depósito Legal: 293975/09
ISBN: 978-972-8846-13-8
-A Geração Coimbrã de 62, Edição: 2009
Impressão: Gráfica da Graciosa, Lda.
Depósito Legal: 298401/09
ISBN: 978-989-95126-7-2
-Gomes Leal, O Anjo Rebelde, Edição: 2011
Execução Gráfica e Acabamento: Gráfica da Graciosa /Ponte de Lima
Depósito Legal: 322995/11
ISBN: 978-989-97157-0-7
-João Penha, Vida e Obra, Edição: 2011
Execução Gráfica: Gráfica da Graciosa /Ponte de Lima
Depósito Legal: 323728/11
ISBN: 978-989-97157-1-4
“Tinham-ma anunciado com pormenores exactos para fins de Outubro. Em todo o caso podes calcular a impressão que senti. Muitas vezes nas nossas conversas constatávamos, como filósofos, que Portugal era uma monarquia sem monárquicos. Os factos confirmaram essa observação, e mostraram ainda que essa monarquia também não tinha monarca.
O entusiasmo que vai por aí não pode ser filho senão de uma grande fé. Deus queira que os homens do novo regime saibam aproveitar-se dessa circunstância para levantar o país da miséria em que o lançaram o egoísmo mais abjecto – a mais estúpida e escandalosa ambição.”
FEIRAS NOVAS – 1909
(António Feijó, uma visita infrutuosa)
Chegou, com a sua família, a Portugal no fim do ano de 1908. Por cá permaneceu até meados de Março de 1910 naquela que foi a sua última visita, em vida, ao país. António Feijó, poeta e diplomata, nascido em Ponte de Lima em 1859, não deixou de aproveitar para ver a sua terra natal e, em carta ao seu amigo Luís de Magalhães (Feijó, Rui, António Feijó, Cartas a Luís de Magalhães, Vol II. INCM, 2004), datada de 28 de Setembro de 1909, da Casa de Vilar, Lousada, manifesta a sua decepção pelas condições climatéricas o terem impedido de desfrutar, como desejava, essa ocasião.
Era dia de Feiras Novas que, na sua data fundadora, 19, 20 e 21 de Setembro, nesse ano, domingo, segunda e terça-feira, se realizavam envoltas em forte expectativa. É, pelo menos, o que nos obriga a inferir a consulta a diversos números do jornal local, O Commercio do Lima, “o jornal de maior formato do districto”, sob o comando de Pelágio dos Reys Lemos, seu derradeiro director. Mas o tempo, alheio à vontade humana, em constante birra chorosa com as feiras limarenses, não fossem elas dedicadas a Nossa Senhora das Dores!, transformou-as em enxurrada, também de lamentos.
Tinham ficado pelo projecto algumas intenções, como a de uma “magestosa procissão com o concurso de todas as irmandades do concelho”, e outras iniciativas agendadas viram-se impedidas: as iluminações, a cargo de António Pereira as da margem do rio e, cremos, iniciativa de uma comissão de moradores, as da rua de Souto, João de Souza Guerra, a gás acetileno, as do largo de Camões, José de Sousa Guerra as do passeio de D. Fernando, do “Casa Nova” as da rua de S. José e de António Linhares as do largo do dr. Magalhães até à rua João Rodrigues de Moraes, onde este residia e seu filho, o juiz da festa desse ano, Filinto Moraes; as duas touradas, para as quais o empresário Francisco Augusto Dantas encarregou Francisco José de Barros, da Ribeira, de realizar obras de reparação na praça de touros, e que contavam com a participação, entre outros, do cavaleiro Aires de Mendonça, do espada Chicorrito, do bandarilheiro Manuel dos Santos, de Braziliza Chaves, anunciada como “arrojada, Temerária”, do Morgado de Covas, em deferência para com os seus amigos, e de “14 touros de bela estampa e bastante corpulentos” que tinham chegado a Ponte de Lima no dia 17 de Setembro; os fogos de artifício dos barquenses Manuel José Vieira Cálom, Alberto Gomes da Costa & Filhos e João António de Sousa; no largo de Camões, o exercício de ataque a uma simulação de incêndio por “todo o corpo activo dos Bombeiros Voluntários, com o respectivo material”; o “atraente festival”, na noite do dia 21, também no Largo de Camões, “oferecido às damas de Ponte do Lima, abrilhantado pela banda regimental de infantaria 8, de Braga”.
Prevaleceram, como programado, as cerimónias religiosas, com “a exposição de alfaias, vasos sagrados, etc.”, na igreja Matriz, aberta ao meio-dia do dia 19, e, no mesmo templo, a “missa solene a grande instrumental e sermão pelo abalisado orador rev. Sr. Geraldo de Vasconcélos”, na manhã do dia 21. No dia 19, pela manhã, a feira de gado foi muito concorrida, mas a chegada da chuva, “que saiu-se á estacada com uma furia tremenda, por volta das 11 horas… continuamente até ao fim da tarde, pôs em debandada uma grande parte dos forasteiros que, desanimados, se retiraram para as suas terras”. Os mais resistentes ainda presenciaram, nessa noite, no Largo de Camões, a “Kermesse” e” um bocado de música”, pela Banda dos Artistas. Nos dois restantes dias das feiras, para além das já referidas cerimónias religiosas, só a música foi intervalando com a chuva, numa disputa desigual e de sonoridades distintas. Para além da Banda local, a dos Artistas, estavam contratadas as de Távora e Mazarefes.
Feijó terá estado em Ponte de Lima a 20 de Setembro, pois na sua carta refere que “não houve feira, nem fogo, nem iluminações”, e, embora no dia 19 estivesse prevista iluminação, no Largo de Camões, e fogo, era no dia seguinte, o principal dos festejos, que ambos os números tinham a sua máxima expressão. Valeu ao poeta e à sua esposa (os filhos desconhecemos se os acompanharam até Ponte de Lima) a solicitude amiga do Padre João Inácio de Araújo Lima que os recolheu em sua casa e lhes serviu “uma canja aguada mas reconfortante… esplêndida por sinal!”. Daí, à 1 da manhã, partiram para Viana de onde tinham saído às 11 da manhã, com paragem em Bertiandos, “onde foram “pedir de almoçar” e se demoraram até às 3 da tarde.
Esta situação poderá ter estado na origem da prosa do Conde d’Aurora, Um encontro memorável (ver, Vieira, Amândio de Sousa, Foto Lethes, 2003), muito embora diversas discrepâncias, culpa, talvez, da imaginação literária e da memória do autor que só produziu esse precioso texto 20 anos volvidos.
Certo é que o nosso vate não terá aproveitado o facto de logo no domingo seguinte, dia 26, se terem realizado todas as iluminações, que a organização caprichou em não deixar no olvido, o fogo, “confeccionado por dois haveis pirotecnicos”, e, durante o dia, terem actuado três bandas de música, “uma dellas a dos Artistas desta villa”. “À noite não faltou também o competente coro dos Zés Preiras que, atroando os ares com a sua zabumbada infernal, arrastava atraz de si, em alegre multidão, o povo das nossas aldeias”. Falharam, para se desagravar o programa, o Festival, devido à “banda regimental de infantaria 8 estar comprometida” para o Bom Jesus, e as touradas, por o gado ter “de estar em Espinho para uma ou duas corridas que lá tem de haver”.
E, possivelmente, também não terá visto as fotografias que José Pereira Marinho tirou às iluminações e, no dia seguinte, 27, estiverem expostas no estabelecimento de José Pereira Pinto.Uma dessas fotografias, a “do explendido panneau que se ostentava na margem direita do Lima e que pelo admirável conjunto de todos os seus lumes era dum efeito surpreendente, verdadeiramente maravilhoso”, representando “o palácio que o governo brazileiro ofereceu ao português na exposição ultimamente ali realisada”, está incluída no livro de Amândio de Sousa Vieira, Feiras Novas 1826-2006, por sortilégio ao lado de uma de António Feijó.
Na imagem - Aspecto do Pavilhão de Portugal, na Exposição do Rio de Janeiro de 1908, que terá servido de modelo ao "panneau" referido (ver pág. 43 do livro Feiras Novas 1826-2006, de Amândio de Sousa Vieira).
A Direcção Regional de Cultura do Norte, em parceria com as Edições Caixotim, e, neste caso, com o apoio do Município de Ponte de Lima, dedicou um dos livros da sua colecção Viajar com… os caminhos da literatura, a António Feijó.
Tendo autoria de José Cândido de Oliveira Martins, Viajar com… António Feijó, é, consubstanciando os objectivos da colectânea, uma proposta de roteiro pela localidade de origem do notável poeta, Ponte de Lima, e pela sua vida e obra.
O autor, apoiado numa selecção de imagens, com fotografia actual de António Pinto, percorre algumas das facetas e dos locais das vivências de Feijó, um homem de grande riqueza cultural e opíparo gosto gastronómico, e sugere-nos a visita a trechos de paisagem e identidade, componentes do nosso património (material e imaterial).
É uma viagem possível, como muitas outras que a nossa fertilidade, e o engenho e arte de António Feijó, nos permite.
ANTÓNIO FEIJÓ,
A BOÉMIA ESTUDANTIL
E OS PRIMEIROS VERSOS[1]
Este estudo do Luís Dantas, um autor de consagrados recursos literários e investigantes, trata de aspectos da vida de António Feijó, o mais significativo poeta nascido em Ponte de Lima, ocorridos de 1880 a 1885, com primórdio em Coimbra e Ponte de Lima mas, como toda a actividade telúrica, com desenvolvimentos e repercussões em distintos locais.
De permeio abre espaço a outras personalidades, quer directa ou colateralmente envolvidas nas situações descritas ou necessárias para a compreensão das mesmas: do incontornável Luís de Magalhães a Guerra Junqueiro, de António Fogaça a António Inácio Pereira de Freitas, de João Gomes de Abreu a José Trindade Coelho, de Abílio de Campos Monteiro a José de Sá Coutinho... numa correria de nomes e situações a atestar a vivacidade do vate Feijó e afastando o semblante soturno com que ele, a maioria das vezes (em recatada sisudez), é retratado.
A obra permite-nos espreitar o jovem Feijó (dos 21 aos 26 anos), com toda a sua imaginação, irreverência e sagacidade, começando pela caricata e elucidativa história em torno do governador civil de Coimbra, José Pereira, a quem a paixoneta libidinosa arrastou para um confronto com a Academia. Já, então, Feijó se afirmara poeticamente e preparava para, nas comemorações do tricentenário de Camões, recitar Sacerdos Magnus, no Teatro Académico, em Coimbra, e tinha posto Ponte de Lima em polvoroso com a sua tenebrosa Quadrilha dos Carecas, de que se libertou, com a complacência do Dr. Freitas, ao alegar um caso de alucinação.
É um dos fundadores, na cidade de Coimbra, em Dezembro de 1880, da Revista Científica e Literária que termina 3 meses e números decorridos. O Comércio do Lima que, em Ponte de Lima, lhe tinha acolhido, em Setembro do mesmo ano, a história dos carecas ainda se consegue publicar até Julho de 1881, afirmando alguns que ao seu desaparecimento não foram alheias as repercussões dessa história.
Sobra fôlego ao autor para nos levar em visita às Musas de Coimbra, uma das quais, tragicamente, inspirou o nosso António Feijó numa das suas mais famosas composições: o soneto Pálida e Loira, não obstante, como nos informa J. Cândido Martins[2], em patética reacção “um barbeiro miguelista e agiota de Coimbra, mestre Inácio,” ter jurado a falsidade dos versos, “já que a moça teria falecido na sua cama, e não num “caixão estreito””. E lá teve António Feijó de dedicar ao perspicaz crítico uma quadra: “Inácio, quando morreres/ Irás deitado no enxurro!/ Que o Pio não come carne/ De mula, cavalo ou burro.”
Termina Luís Dantas este florilégio (não sem antes recordar a pantomina montada por António Feijó, na Casa de N.ª S.ª da Aurora, com a conivência de um rapaz de nome abreviado Abílio de Campos Monteiro, arremedando os poderes hipnóticos do médico Freitas que traziam a vila embasbacada) referindo a convivência de António Feijó com Guerra Junqueiro, na cata de antigalhas de mistura com confidências literárias, girando o concelho de Ponte de Lima, e outras paragens deste Minho, em constantes devaneios, degustações variadas, em qualidade e consequências, como, exemplificando, a de melão da Vilariça, “...regado a um tal vinhinho branco/ De Monção, que ao pé dele, ó patriarca Noé!/ Tudo aquilo que tu bebeste era – água-pé.”
É, de forma inequívoca, um trabalho de feliz selecção e criativa escrita, de leitura atraente e recomendável, uma óptima evocação centrada em António Feijó.[3]
[1]O livro foi apresentado em 30 de Janeiro de 2009, na Escola EB 2,3 de António Feijó, em Ponte de Lima, e permito-me uma referência, de elementar justiça, à qualidade da declamação de poemas de António Feijó, na função, por alunas da mencionada escola. [2] Feijó, António, Poesias Dispersas e Inéditas, prefácio, fixação do texto e notas de J. Cândido Martins, Edições Caixotim, Porto, 2005, pp. 278-279. [3] Nos últimos anos, e de autores naturais de Ponte de Lima, recordam-se, em trabalho de J. Cândido Martins, as Poesias Completas (2004) e as Poesias Dispersas e Inéditas (2005) de António Feijó, e de João Araújo Pimenta, Gota – O tormento de António Feijó (2004).