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segunda-feira, 17 de junho de 2024

GRUPO CÉNICO TARQUÍNIO VIEIRA

 


 GRUPO CÉNICO TARQUÍNIO VIEIRA


Em 1934, na sua edição de 4 de Janeiro, o jornal Rio Lima noticiava que “acaba de organizar-se nesta vila [Ponte de Lima], um grupo de amadores da arte de Talma[1], para periodicamente levarem à cena uma série de espectáculos, cujo produto reverterá em benefício da Banda dos Artistas, Bombeiros Voluntários, Asilo Camões e subscrição para o monumento a erigir ao nosso egrégio poeta António Feijó”.

   Era, também, divulgado o reportório, todo de peças em 3 actos:” «Rosa do Adro», «Soldados do Bem», «Domingo de Páscoa», original de Delfim Guimarães e «A Feiticeira da Fraga», de Salvato Feijó, ilustre poeta nosso conterrâneo.”

”A todos estes espectáculos, prestará desinteressadamente o seu concurso a nossa Banda dos Artistas”

O mesmo jornal, a 15 de Fevereiro desse ano, informava que tinha assistido a um dos últimos ensaios “da emocionante peça dramática a «Rosa do Adro», extraída por Henrique de Macedo Júnior, do romance do mesmo título do festejado romancista, Manuel Maria Rodrigues”, e tinha tido “a satisfação de notar a perfeita distribuição do libreto e a forma como já alguns dos amadores declamam os seus papéis”. Acrescentando que “na parte feminina trabalha Albertina Saraiva, vocação já bem conhecida da nossa plateia e a debutante Rosa Pereira, que na peça vai desempenhar a parte da protagonista…”.

  Depois, tendo o jornal Rio Lima publicado um outro número a 28 de Fevereiro, em que nada refere do Grupo, e só regressando à edição a 1 de Setembro, justificando-se com a mudança de instalações (do Largo Dr. António de Magalhães, para a Rua Formosa (Pereiras)), e no outro jornal que então se publicava no concelho, Cardeal Saraiva, muito mais regular, a única referência ao Grupo que encontramos foi a publicação, a 28 de Maio, da carta de Tarquínio Vieira, datada de 23 desse mês, e que referimos em texto já divulgado, ignoramos o que sucedeu até essa data ao grupo e também os acontecimentos posteriores.



[1] Aquando desta divulgação, Tarquínio Vieira estava a actuar no Teatro Nacional, na peça Aquela Noite.

Crédito da Imagem: Postal Ilustrado, jornais Diário de Lisboa (inserido um anúncio publicado no n.º 3978 de 9 de Dezembro de 1933 (a referência ao dia 8 é gralha, devido à estreia ter estado anunciada para esse dia)), e Rio Lima (recorte de notícia no n.º 52, de 04.01.1934).

 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

[de Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro]

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO


1.3    AS CELEBRAÇÕES PARTICULARES

 

«Portugal. Ponte de Lima, 20 de Dezembro (de 1727)

   O Baptismo do primeiro filho varão dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira se celebrou nesta Vila no Oratório dos mesmos Viscondes, com pompa e magnificência. Administrou-lho o Ilustríssimo Arcebispo de Braga, Rodrigo[1] de Moura Teles, que veio expressamente a Ponte de Lima a esta função, pondo-lhe o nome de Dom Tomás Xavier de Lima. Foi padrinho seu avô materno o Visconde Dom Tomás de Lima e Vasconcelos, por procuração mandada a Dom Francisco Xavier Pinto de Sousa, que se achava nesta vila; a cujo acto se achou grande parte da Nobreza desta Província, toda de gala, com muita magnificência e luzimento. De noite houve luminárias por toda a Vila e Castelo; e especialmente em todo o palácio e jardim. Este se via todo bordado de luzes, com o mesmo debuxo das murtas, onde havia muitos vasos de flores de várias cores, todas de iluminação, fontes que lançavam fogo em lugar de água, pórticos, anfiteatros, estátuas, cornijas, colunas e quartelas, tudo iluminado, duas fontes de vinho para o povo, por quem se distribuíram muitos doces e outras coisas comestíveis, com dois coros de música de instrumentos e vozes, que se alternavam grande parte da noite. Representou-se também no Palácio dos mesmos Viscondes uma Comédia nova, representada por pessoas de distinção, e composta por Luís Calisto da Costa e Faria,[2] Abade da Igreja de São Pedro de Rubiães, e Secretário de Suas Excelências, adornada de várias contradanças, ordenadas por um Mestre de dança Alemão, que se acha nesta Vila. No terceiro dia houve uma folia Real de vários bailes de Braga, os mais curiosos e galantes. No quarto se cantou na Igreja Matriz uma Missa em acção de graças, com assistência de algumas Dignidades; e de noite se representou uma Comédia de Calderon. No quinto se tornou a repetir a primeira, e no sexto houve várias danças, e contradanças, sérias e burlescas, alternadas com Serenatas compostas de vozes e instrumentos, repartindo-se em todas as ocasiões doces e refrescos, e em todas as noites mesa pública abundantíssima de todo o comestível; e porque o tempo sobreveio chuvoso se não puderam executar as festas de cavalo, justas e sortilhas, que se tinha disposto, com considerável despesa da Nobreza desta Província.»[3] E - quem sabe? - talvez tudo isto despertando a imberbe curiosidade de Manuel de Figueiredo[4] que havia nascido por aí há cerca de 28 meses.

   Na descrição das celebrações em torno desse baptismo, realizado a 8 de Dezembro, de Tomás Xavier nascido a 12 de Outubro desse ano de 1727, e que viria a ser o 1.º Marquês de Ponte de Lima, englobando 2 comédias com 3 representações, dança, música (coral, instrumental) com a participação de amadores locais, bailes ao estilo dos durante muito tempo presentes principalmente nos festejos ao S. João, faltando apurar se aqui já eram usuais ou vieram posteriormente a ser introduzidos, temos uma mostra daquilo que se foi praticando muito tempo e com maior ou menor exposição.

   Refira-se, em reforço, um outro baptizado, a 26 de Outubro de 1745,[5] de António José Joaquim de Menezes, filho de Maria Rosa de Menezes e João Manuel de Menezes, na Capela da Casa dos seus pais (Calheiros?), em que, entre os festejos celebrativos, se representou uma comédia no pátio da sua casa; e, em 6 de Agosto de 1752,[6] os casamentos dos irmãos António Pereira Pinto de Araújo e Azevedo e Antónia Ventura Pereira Pinto de Azevedo, o primeiro com a prima Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo e ela com o pai da noiva do seu irmão e tio Luís de Araújo e Azevedo, na Capela de Nossa Senhora do Rosário, da Casa de Sá. Os festejos que duraram até ao dia 13 englobaram representações. Do casamento de António Pereira Pinto de Araújo de Azevedo Fagundes com Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo viria a nascer, na mesma casa, a 14 de Maio de 1754, o que foi Conde da Barca, António de Araújo de Azevedo,[7] também ele, na sua muito preenchida vida, com diversos interesses e vocações culturais, parecendo que como dramaturgo terá escrito uma “Osmia” e uma “Nova Castro”.[8]



[1]              No relato consta Rui. Rodrigo de Moura Teles (1644-1728) foi reitor da Universidade de Coimbra (1690-1694), bispo da Guarda (1694-1704) e arcebispo primaz de Braga de 1704 a 1728 e com importante papel pastoral e de enorme relevo cultural.

[2]              Luís Calisto da Costa e Faria (1679 -?). Natural da Guarda era um poeta apreciado, escrevendo em castelhano, e que a história teatral não ignorou. Entre outros, dele fala Teófilo Braga, na sua História do Teatro Português (A Baixa Comédia e a Ópera - Século XVIII), (1871), e Sousa Bastos na Carteira do Artista (1898). Esteve ao serviço da Casa do Visconde de Vila Nova de Cerveira e, já aos 45 anos, foi ordenado presbítero, tendo passado pela Abadia de Santa Comba de Eiras, actualmente no concelho dos Arcos de Valdevez, e Abadia de S. Pedro de Ruviães, agora pertencente ao concelho de Paredes de Coura, ambas coladas de apresentação dos viscondes de Vila Nova de Cerveira. Escreveu também comédias, tendo ficada manuscritas El sítio de Campo Maior e Rugero e Bradamonte. Não encontramos qualquer referência particular à “comédia nova” em Ponte de Lima levada à cena.

[3]              Gazeta de Lisboa Ocidental, n.º 04, quinta-feira, 22 de Janeiro de 1728.

[4]              Manuel de Figueiredo (1725-1801). Foi BORRALHO, Maria Luísa Malato da Rosa, quem lhe restituiu a naturalidade ao desvendar que o pretenso alfacinha era, na verdade, um limarense. Na sua obra “Manuel de Figueiredo – Uma perspectiva do neoclassicismo português (1745-1777) ”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, que a autora informa ser versão abreviada da sua dissertação de Mestrado apresentada na Universidade de Coimbra em 1987, é possível acompanhar este aspecto. De Manuel de Figueiredo, o mais profícuo dramaturgo da sua época, se foi dizendo que praticamente não teve oportunidade de ver a representação de peças suas. Talvez não tenha sido tanto assim (MÜLLER (Berlim) Christoph,”Teoria e Práxis do Teatro na Arcádia Lusitana”, em: MÜLLER, Christoph, NEUMANN, Martin (Edit.), O Teatro em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Edições Colibri /Instituto Ibero-Americano (Berlim), Lisboa, 2015, pp.14-17), parecendo certo a pouca receptividade do público, o que diversos investigadores aclaram (vide, BARATA, José Oliveira, “A poética de Manuel de Figueiredo”, em: Humanitas, Vol. XLV, Coimbra, 1993, pp.313-334). Pelos tempos, aproveitando peças suas, se foram criando alguns espectáculos, quiçá recuperando o “…oiro de Énio com que fazer muitos Virgílios”, extraível da leitura das suas obras, de acordo com pronunciamento de Almeida Garrett (em: Catão, prefácio da 3.ª edição, Lisboa, 1845), sendo talvez o mais significativo “Um Poeta Afinado” estreado a 24 de Maio  de 1990, pelo Teatro da Cornucópia, no Teatro do Bairro Alto, em dramatização de Manuel João Gomes, colagem de 3 peças de Manuel de Figueiredo, “O Ensaio Cómico”, “Perigos da Educação” e “O Dramático Afinado ou Crítica aos Perigos da Educação”, com encenação de Luís Miguel Cintra, dando 34 representações. Para maior conhecimento, ver: MARTINS, José Cândido Oliveira, “Manuel de Figueiredo”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.114-116.

[5]              Gazeta de Lisboa, n.º 46, terça-feira, 16 de Novembro de 1745.

[6]                Gazeta de Lisboa, n.º 31, quinta-feira, 07 de Setembro de 1752.

[7]              António de Araújo e Azevedo (1754-1817). Ver: MALAFAIA, Eurico de Ataíde, “António de Araújo e Azevedo – 1.º Conde da Barca”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.146-149).

[8]              Ver: VÁZQUEZ, Raquel Bello, Uma certa ambiçaõ de gloria – Trajectória, redes e estratégias de Teresa de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798), Santiago de Compostela, 2005, em que o tema da autoria da “Osmia” é profusamente abordada e, também, nos fornece outros pormenores sobre o Conde da Barca.

Crédito da Imagem - Desenho de Justino Vaz Valente (1898-1954), mostrando uma "Ponte de Lima" talvez semelhante a das datas referidas nas celebrações.


domingo, 19 de setembro de 2021

No dia em que a inauguração oficial do Teatro Diogo completa 125 anos.

De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 4. DA INAUGURAÇÃO AO FIM DA EMPRESA [excerto] 



1896 

A cargo da “muito numerosa”(1) Companhia de Ópera Cómica Portuguesa, dirigida pelo actor Francisco Cruz(2) e com a orquestra sob a batuta do maestro Rio de Carvalho(3), ficaram os espectáculos teatrais da inauguração oficial do Teatro Diogo Bernardes de Ponte de Lima. 
Os bilhetes foram colocados à venda no estabelecimento do Sr. Lobato, até às seis horas da tarde do dia dos espectáculos, e de noite no bilheteiro do teatro, com preços individuais de 140 a 500 réis, e colectivos (6 entradas para frisas e camarotes, de 1$500 a 3$000 réis) e desconto de 10% para os assinantes. 
A primeira récita, marcada para a noite do dia inaugural das Festas das Dores (Romaria e Feiras Francas [Feiras Novas] de Nossa Senhora das Dores), nesse ano, 19 de Setembro, um sábado que se apresentou com “um belo sol e uma atmosfera temperada,”(4) às 8 horas da noite, com casa repleta, muita gente trajando de gala, tendo todos assistido, "de pé, ao descerramento do pano de boca, que representa uma vista do Lima, - areal, ponte, margens pitorescas e casario do outro lado, e uma larga perspectiva dos montes - em que se nos revela o mérito superior e pujantes aptidões artísticas de Eduardo Reis(5)", e após ovação "ruidosa ao som do hino nacional(6) executado pela orquestra", passou-se à primeira representação no palco do novo teatro com Os Sinos de Corneville (Les Cloches de Corneville), adaptação livre de Eduardo Garrido da famosa ópera cómica, francesa, em 3 actos e 4 quadros, da autoria de Robert Planquette (música), Clairville (pseudónimo de Louis François Nicolaie) e Charles Gabet. 
Na segunda-feira, dia 21, representou-se a primeira peça de autores portugueses, a ópera cómica, em 3 actos, O Burro do Sr. Alcaide, de Gervásio Lobato e D. João da Câmara, com música de Cyriaco de Cardoso. 
No dia 22, novamente o teatro francês, a opereta Os 28 dias de Clarinha (Les 28 jours de Clairette), em 4 actos, original de Hippolyte Raymond e Antony Mars, em tradução de Acácio Antunes e Gervásio Lobato, com música de Victor Roger. Como particularidade, refira-se que a peça foi apresentada em Ponte de Lima com supressões, transformando os 28 dias de Clarinha, “que na fonte limpa são de se lhe tirar o chapéu”, num “produto anódino, desconexo…”(7) Assim, “algumas mutilações, que voluntariamente se fizeram para ocultar certos pontos da opereta um tanto frescos, enredaram bastante o seu desempenho…”(8) 
A encerrar o programa da inauguração, no dia 23, quarta-feira, subiu à cena O Moleiro d'Alcalá, ópera cómica, em 3 actos e 4 quadros, em adaptação de Eduardo Garrido da novela de Pedro Antonio de Alarcón, El Sombrero de Tres Picos, com música do maestro francês Justin Clérice.
Ainda em Setembro, a 25, sexta-feira, a direcção do teatro organizou um espectáculo “a benefício do distinto cenógrafo Sr. Eduardo Reis”(9). Repetiu-se O Moleiro de Alcalá e foi também representada a comédia em 1 acto, de origem espanhola, que José Sebastião Machado Correia havia traduzido, “Simão, Simões & Companhia”. 
Actores, o cenógrafo Eduardo Reis e Alfredo Mâncio “hábil caricaturista” que, num dos intervalos, “executou no palco algumas caricaturas instantâneas com perfeição e habilidade… em tamanho natural e revestidas duma certa graça”,(10) mereceram a chamada do público e o seu aplauso. 
Para despedida da Companhia, a 27 de Setembro, foi levado à cena o drama, em 5 actos e 8 quadros, As Duas Órfãs, de Adolphe d’Ennery. 
A Companhia não trazia nomes de grande destaque. No entanto, dos que foram sendo referidos pela imprensa, alguns deixaram marcas teatrais de que particularizamos, sem qualquer intuito pejorativo para a memória dos demais, Luiza de Oliveira(11) e Eusébio de Melo(12). 



(1) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 263, 27 de Setembro de 1896.
(2) Foi possível recolher, para além do nome do director da Companhia, o actor Francisco Cruz, os da actriz Luiza de Oliveira e dos actores J. [Júlio?] de Sousa, J. Salles, E.[Estevão?] Moniz, Eusébio de Melo, [João?] Rebocho. Existe também uma referência dispersa, a carecer de confirmação, de que o guarda-roupa era de Augusto Franco. 
(3) Rio de Carvalho (João Pedro Augusto) – (1838-1907) – Natural de Lisboa, onde nasceu a 20 de Setembro, muito cedo demonstrou vocação musical. Foi aluno do conservatório e aos 14 anos era já executante de violino na Orquestra do Teatro de S. Carlos, tendo, mais tarde, chegado a dirigir a mesma. Foi como maestro e compositor que mais se destacou deixando muitas obras, sacras e profanas, a maior parte para teatro. Tinha a sua autoria o Te Deum executado na aclamação de D. Carlos, em 1889. Aquando do seu falecimento, em Lisboa a 2 de Novembro, entre outros cargos, era director da Orquestra da Real Câmara e agraciado com o hábito das Ordens de Cristo e de São Tiago. No campo musical, também um seu filho, Ernesto, alcançou alguma notoriedade. 
(4) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 262, 20 de Setembro de 1896. 
(5) Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 229, 24 de Setembro de 1896. 
(6) Atribuído a D. Pedro IV, que o terá composto no Brasil, onde era Príncipe Regente, dedicado à primeira Constituição Liberal Portuguesa, aprovada em 22 de Setembro de 1822, e que a partir de Maio de 1834 se transformou no Hino Nacional, só substituído pela "A Portuguesa", na sequência da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910. 
(7) Jornal A semana, Ponte de Lima, n.º 229, 24 de Setembro de 1896. 
(8) Jornal Política Nova, Ponte de Lima, n.º 263, 27 de Setembro de 1896. 
(9) Idem. 
(10) Idem. 
(11) Luiza de Oliveira (1864-1932) – Em Portugal, onde nasceu a 12 de Outubro, embora tenha estado ligada a algumas companhias de renove, não atingiu particular destaque. Foi no Brasil, com actuações conhecidas a partir de 1902, que o seu nome artístico alcançou notoriedade. Incluídas no elenco que Eduardo Victorino contratou em 1903, o infortúnio de Georgina Pinto, que vítima de febre-amarela faleceu no Rio de Janeiro a 12 de Abril desse ano, permitiu a Luiza de Oliveira desempenhar papéis que não lhe estavam reservados. A actriz acabou por se radicar no Brasil, lá trabalhando, com bastante realce, várias décadas. Em 1929, uma enfermidade manifestada durante uma temporada na Baía, na Companhia do actor Jayme Santos, não lhe permitiu continuar a sua actividade artística. Faleceu a 07 de Novembro de 1932 e, no dia seguinte, o jornal do Rio de Janeiro, O Radical, considerou-a “a mais festejada dama característica do teatro brasileiro de declamação contemporâneo”. 
(12) Eusébio de Melo (1863-1922) – Nasceu a 16 de Dezembro, a sua formação terá sido orientada para o professorado primário mas a plateia ter-lhe-á parecido escassa. Acabou como actor, de teatros de feira e ambulantes a outros espaços mais acolhedores, em digressão ou incluído em elencos fixos. Passou mesmo por alguns dos Teatros mais conhecidos de Lisboa, como o Avenida, o Trindade e o da rua dos Condes, o novo. Efectuou duas digressões ao Brasil, em 1906, de Maio a Outubro, integrado na Companhia A. Miranda, e de Outubro de 1910 a Fevereiro de 1911, na denominada Companhia de operetas, mágicas e revistas do Theatro da rua dos Condes, de Lisboa. Aquando da sua morte, a 23 de Setembro, a imprensa não o deixou de referir: enquanto para a Ilustração Portuguesa (n.º 868, 7 de Outubro de 1922), era “uma das figuras mais simpáticas da cena lisboeta”, o A Capital (n.º 4183, 27 de Setembro de 1922), considerou-o “um homem que soube engrandecer a sua arte” e “lá ficou no cemitério um grande artista desgraçado” e “a sua última criação, a sua morte! Representou de mendigo – ele que era um Cresos do talento!”. Em 1927, Penha Coutinho (revista ABC, n.º 366, 21 de Julho) referiu que foi “um dos artistas que mais prometeu, nos papéis de baixo-cómico”. Terá sido a boémia a grande culpada pelo incumprimento. Em Lousa, freguesia do concelho de Loures, a toponímia conserva o nome actor Eusébio de Melo.

sábado, 21 de março de 2015

O Sr. Joaquim Pintassilgo, de Ponte de Lima

O Sr. Joaquim Pintassilgo*, de Ponte de Lima

     Terá nascido na Alemanha (Der doppelte Moritz, de Impekoven y Mathern), foi adaptado em Espanha (Dispensa, Perico, por Ángel Custodio y Luis Fernandez Rica) e, de lá, passou a Portugal, como Desculpa ó Caetano, exibindo-se a partir de 10 de Setembro de 1932.
     Desconhecemos como, ausente do original e da versão espanhola, o Sr. Joaquim Pintassilgo, de Ponte de Lima, voou até à peça (a adaptação, feita por Carlos do Vale, que cobria uma trindade composta por Alberto Barbosa, José Galhardo e Vasco Santana, foi apresentada como libérrima**). Certo é que encheu o Teatro Variedades, no Parque Mayer, de espectadores e fortes risos, e deu, ao quotidiano alfacinha, pelo menos, novos chavões. O Sr. Joaquim Pintassilgo terá gostado daquela incursão à grande cidade, de tal forma que à despedida, nos primeiros dias de Janeiro de 1933, dizem, resolveu presentear os espectadores com castanhas e água-pé, oriundas das suas propriedades de Ponte de Lima, e durante a celebração do seu casamento. 
     Tudo teatro (nessa primeira apresentação da peça, em Portugal, o hipotético nosso conterrâneo era uma criação de Vasco Santana).

*- Em muita da informação consultada, aparece grafado Pintasilgo e Ponte do Lima..
** - Não se deve ter livrado de passar pela Censura, como todas as peças teatrais da época.
Fontes: Imprensa da época.


domingo, 15 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 9 de maio de 2014

CUCURRUCUCU


      

     Um dia desta semana passei por um cartaz (dão-lhe uma designação estrangeira, talvez ignorando que já de há muito são utilizados e nomeados na nossa língua) e, em um cantinho, reparei na figura de Ribeirinho.
     O cartaz anuncia um espectáculo teatral, a decorrer brevemente no Teatro Diogo Bernardes em Ponte de Lima, agora divulgado como Cucurrucucu, e a menção a Ribeirinho (Lisboa, 1911- 1984), e também a Henrique Santana (Lisboa, 1924-1995), deve-se a terem sido eles, provavelmente, os primeiros a trazer a peça a Portugal.
  Em 1960, no Teatro Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa, uma companhia Teatral, titulado por Francisco Ribeiro (Ribeirinho) e Henrique Santana, tinha anunciado um projecto de teatro só para rir. A que agora chamam de Cucurrucucu, na altura, foi apresentada só com um r (Cucurucucu), era a segunda peça a entrar em cena, e foi estreada a 18 de Novembro desse ano. No elenco, para além de Ribeirinho e Henrique Santana, estavam os nomes de Assis Pacheco, Irene Isidro, Aida Baptista, Lili Neves, Carlos Alves, Mário Pereira e Joaquim Nunes.
     
     A peça da autoria de Alfonso Paso (Madrid, 1926-1978) e título Usted puede ser un asesino, datada de 1958, tinha sido estreada nesse mesmo ano e nele chegou ao Teatro de la Comedia, de Madrid, a 27 de Maio, em representação da Companhia de Ismael Merlo e Diana Maggi, e rapidamente se transformou num enorme êxito, merecendo adaptação cinematográfica em 1961, em realização de José Maria Folqué.
     
     A tradução e adaptação para o nosso país foi efectuada por Jorge de Sousa e a escolha do título ignoro a quem pertenceu.
 Não interessa referir a reacção da crítica, até porque apenas consegui consultar uma, mas a verdade é que a peça se manteve em cartaz até 2 de Janeiro de 1961, sendo, ainda nesse mês, representada no Sá da Bandeira, no Porto, durante vários dias, e também, mais perto de nós, em Braga a 22. Posteriormente a Companhia regressou ao Variedades, com outra peça.

      Francisco Ribeiro (Ribeirinho) pisou o palco do Teatro Diogo Bernardes, pelo menos, uma vez. Integrado na Companhia de Chaby Pinheiro, a 1 de Dezembro de 1929 aqui actuou, na peça de André Brun, A Maluquinha de Arroios, no papel de Chico (a mesma com que tinha feito o seu debute profissional, em Torres Vedras, no Teatro Virgínia, a 3 de Outubro de 1929).
   Não registo qualquer outra passagem de Ribeirinho pelo palco (diversas pelo ecrã) do nosso Teatro, embora tenha regressado a Ponte de Lima, pelo menos, em dois anos, 1939 e 1953, ao serviço do Teatro do Povo, que então dirigia, e acompanhado de excelentes actores (Laura Alves, Leonor d’Eça, Amélia Pereira, Alfredo Ruas, Barroso Lopes, Luís de Campos, em 1939), (Gina Santos, Fernanda de Montemor, Maria Albergaria, Maria José, Vanda Maria, Canto e Castro, Carlos Duarte, Costa Ferreira, Fernando Gusmão, Paulo Renato e Rui de Carvalho, em 1953). Os espectáculos, do Teatro do Povo, aqui realizados, foram ao ar livre, como habitualmente acontecia com aquela companhia de iniciativa estatal.
    Feita esta pequena memória, relembro que o Teatro Diogo Bernardes apresenta, a 17 de Maio de 2014, a peça Cucurrucucu, adaptação de Tozé Martinho e Teresa Wong.


Fontes principais: Jornais da época (ABC de Madrid, Cardeal Saraiva, Diário de Lisboa, …)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Unhas do Diabo

O limarense Severino de Faria incluiu, no Almanaque de Ponte de Lima, 1927 (só editado nos fins de 1928), uma composição poética, tendo por base a Lenda das Unhas do Diabo. Hoje, dia da inauguração do RUARTE, em Ponte de Lima, exactamente com uma grande produção alusiva à referida lenda, aqui a deixamos transcrita:

 A PEDRA DO DIABO (LENDA) 





 Num convento solitário 
 De monges sem abastança, 
 Deu-se um caso extraordinário 
 Que me int’ressou em criança. 

 Por vezes, ouvi dizê-lo 
 A um velho cheio de fé;
 E, ao narrá-lo, o meu cabelo 
 Punha-se todo de pé. 

 Ei-lo aí vai: em noite escura, 
 Junto às grades do portão, 
 Surge sinistra figura 
 Que assim brada ao guardião: 


 - «Reúne a comunidade 
 Para que, de perto, veja 
 Quem não póde, quem não há-de, 
 Repousar dentro da igreja.» 

 O grupo, num pasmo absorto,
 A’ luz dos círios, com mêdo, 
 Assistiu a erguer um morto 
 De sob um grande lajedo. 

 E Satanás, furibundo, 
 Com tal murro, tal pancada, 
 Arrancou-lhe bem do fundo 
 A Partícula Sagrada. 

 Num fragor apavorante, 
 Como em abraço fraterno, 
 O cadáver, num instante, 
 Foi conduzido ao inferno 

 * * * 

 Entre Santo António e a Guia,
 Junto à múrmura corrente,
 Uma pedra ali havia, 
 Que eu lembro, saudosamente…

 E o povo todo afirmava, 
 Vendo-a assim, em menoscabo, 
 Que o sinal que ela mostrava 
 Era o da mão do diabo.

  * * * 

 Nestes versos imperfeitos 
 Fica, pois, descrita a lenda; 
 Mas a par dos seus defeitos, 
 Oxalá que bem se entenda. 


 Post-Scriptum 


          Aos edis da minha terra 
          Um apélo aqui declino: 
          A’ lágea, que a treva encerra, 
          Se lhe descubra o destino.


          E seguindo a longa escala 
          Duma busca em sua pista, 
          Achando-a, devem guardà-la 
          Num museu regionalista. 
                                                                         *

 Com se sabe, actualmente, a referida pedra, que, ao que parece, andou desaparecida, encontra-se acolhida junto ao Museu dos Terceiros.

domingo, 29 de junho de 2008

Ruy de Carvalho e Tarquínio Vieira

É uma mera coincidência feliz, mas revela que o nome de Tarquínio Vieira não era substimável no panorama teatral português, das três últimas décadas da primeira metade do século XX.
O semanário gratuito Sexta, no n.º 23 de 28 de Março de 2008, em destaque, e assinalando o Dia Mundial do Teatro, inclui uma entrevista com Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho, duas das principais figuras do teatro nacional. Nela, Ruy de Carvalho divulga que a primeira memória que guarda de teatro é uma peça, a que assistiu em 1933 (tinha, então, 6 anos), no Chiado Terrasse, em Lisboa, com o Tarquínio Vieira.
Não temos mais referências a essa peça, e passagem de Tarquínio Vieira pelo Chiado Terrasse, mas esta simples lembrança, decorridos 75 anos, não pode deixar de ser considerada significativa.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

CARDEAL SARAIVA

João Anastácio Rosa, caricaturado por Rafael Bordalo Pinheiro, foi um grande actor (e pai de outros dois, João e Augusto, que em nada deslustraram o seu progenitor). Mas, também, deixou rastro em outras artes, como se comprova pela gravura do Cardeal Saraiva, aqui reproduzida, e que tem a particularidade de ter sido dedicada a António Correia Caldeira que, como se sabe, foi o responsável pela publicação das "Obras Completas do Cardeal Saraiva".




terça-feira, 8 de abril de 2008

NA HORA DA DESPEDIDA...


O incontornável Malafaia Neto, interpretando o Pai-Paulino, na sua habitual gazetilha, nas páginas do jornal “Cardeal Saraiva”, tinha, a 27 de Outubro, dado o lamiré:


« (...)
E p’ra grande gargalhada
O Pinto e o Zé Pimenta
Convidaram o Chabi
A breve vir até aqui
Pois p’ro ver quem quer se tenta!

Já o disse, mas repito,
Quem quiser morrer a rir
Seja troiano ou grego
E ponha as botas no prego
Ao Chabi é que tem de ir!»

E lá foram, os nossos patrícios, assistir a duas peças, naquela que era apresentada como a digressão de despedida de Jesuína de Chaby, e se acabou por transformar, também, na última passagem de Chaby Pinheiro pelo palco do Teatro Diogo Bernardes.
A Companhia trouxe, desta vez, a comédia em 3 actos, original de André Brun, “A Maluquinha de Arroios” e a comédia, em 4 actos, de Ivo Miranda, com tradução de Álvaro de Andrade, “Dois Milhões”. No elenco vinha, recentemente estreado como profissional, no Teatro Virgínia de Torres Novas, a 3 de Outubro, um jovem franzino de nome Francisco Ribeiro, que actuou na primeira peça, representada a 1 de Dezembro, do ano de 1929, a mesma em que se tinha iniciado, “A Maluquinha de Arroios”, no papel de “Chico”. Pois este jovem, apesar do seu aspecto físico, um contraste de Chaby, rapidamente se agigantou, pela sua forte personalidade e descomunal talento, e, em proporção inversa ao diminutivo porque ficaria conhecido, “Ribeirinho”, encheu, como oceano, os nossos palcos e as nossas telas, sobressaindo, ainda, em outras áreas ligadas ao teatro e ao cinema.
Curiosamente, a imprensa, em Agosto, tinha anunciado a contratação de Tarquínio Vieira, então na Companhia Ester Leão-Alexandre de Azevedo, a actuar no Teatro Nacional, para a Companhia Chaby Pinheiro. Dias depois, esta contratação era desmentida, “porquanto o galã desta companhia vai ser o actor Manuel Bessa, que regressa ao teatro...” e à companhia (cf. Diário de Lisboa, n.º2558 de 10 de Agosto de 1929). Não sabemos se o intuito desta contratação teria a ver com a presença de Chaby Pinheiro, a 19 de Julho, na estreia da peça “O Processo de Mary Dugan”, que a Companhia Ester Leão-Alexandre de Azevedo tinha posto em cena, pela primeira vez no nosso país, no Teatro Nacional, então Almeida Garrett, e que, escreve-se no Diário de Lisboa, de 12 de Agosto, fez sentir ao “grande Chaby”, “tal prazer artístico, tal emoção”, “ao ver a perfeição com que os seus colegas portugueses representavam a celebre peça – em comparação com o que ele acabava de ver em Paris e Madrid – que, apesar do seu feitio ponderado, não teve mão no seu entusiasmo, e deu bem alto a sua opinião, mostrando-se pasmado com o extraordinário espectáculo a que acabava de assistir e abraçando comovidamente Ester Leão, Alexandre de Azevedo, Abílio Alves e todos os principais intérpretes”, onde se incluía Tarquínio Vieira.
Como sabemos, a Companhia Ester Leão-Alexandre de Azevedo veio de visita a Ponte de Lima, no ano seguinte e representou, também, “O Processo de Mary Dugan”, a que já nos referimos. Quanto ao relacionamento, de Chaby Pinheiro e de Tarquínio Vieira, voltaremos .

sábado, 5 de abril de 2008

A PRIMEIRA LÁPIDE DO TEATRO DIOGO BERNARDES

Estava prevista para 24 e 25 de Maio, mas, justificada por homenagens que lhe prestariam no Porto, foi transferida para os dias 31 de Maio e 1 de Junho de 1926, mais uma visita de Chaby Pinheiro, e a sua Companhia Teatral, ao Teatro Diogo Bernardes, a Ponte de Lima. Realidade ou notícia publicitária, ao jeito de outras referentes ao teatro de Ponte de Lima, em 29 de Abril era referido um tumulto pela disputa de bilhetes.
E nem esses supostos tumultos, nem os verdadeiros originados pelo golpe militar, entretanto ocorrido (a 28 de Maio, a partir de Braga), importunaram a concretização dos dois espectáculos anunciados: “O Amigo de Peniche” e “O Leão da Estrela”, ambas as peças da Parceria João Bastos, Félix Bermudes e Ernesto Rodrigues, “dois diamantes que Chabi Pinheiro lapida prodigiosamente, arrancando-lhes revérberos e fulgurações inimagináveis...”, a acreditar em António Amorim, um nome que, pouco depois, a ditadura empurrou para o Brasil,(1)  empobrecendo a cultura local e roubando-nos a qualidade crítica deste nosso conterrâneo, de pedir meças a muitos profissionais encartados.
Mas deixemos as peças e falemos, novamente pela prosa de António Amorim, na colocação de “uma lápide, por iniciativa da Empresa, assinalando a passagem do ilustre e insigne actor Chabi Pinheiro, na ribalta do elegante salão do «Teatro Diogo Bernardes»”. Foi a 1 de Junho de 1926 (2) e é a primeira a ornamentar aquela Casa de Espectáculos. Descerrou-a a actriz, e esposa de Chaby Pinheiro, Jesuína de Chaby, mereceu alocução do Dr. Francisco de Queiroz e agradecimentos de Chaby que, em jeito de retribuição, recitou a poesia, de António Feijó, “O garoto dos jornais”, que é, como se sabe e abaixo se reproduz (das “Poesias Completas de António Feijó”, Lisboa, Bertrand, 2.ª edição), “Noite de Natal”, incluída no livro “Ilha dos Amores”, de 1897.

(1)- A Imprensa da época (Cardeal Saraiva, n.º 705, 04/11/1926) refere a sua partida para o Rio de Janeiro. 

(2)- Embora a lápide, existente no Teatro Diogo Bernardes, tenha gravada a data de 31 de Maio de 1926, segundo A.A. (António Amorim), no Cardeal Saraiva n.º 688 de 03/06/1926, o descerramento ocorreu no última dia dos espectáculos (01.06.1926). Fica a dúvida!













quinta-feira, 3 de abril de 2008

A DAMA BRANCA

Erico Braga, para lá de distinto actor, foi um dinâmico empresário. Numa das suas iniciativas, em Dezembro de 1934, decidiu montar, no Teatro do Ginásio, em Lisboa, um espectáculo que incluía a representação, em estreia entre nós, de uma comédia, em dois actos, dos célebres irmãos espanhóis Álvarez Quintero (na fotografia, Seráfin (1871-1938) e Joaquín (1873-1944)), adaptada por Pedro Diniz com a designação de “A Dama Branca”, e a actuação, pela primeira vez em Portugal, da afamada cantora francesa Damia, de seu nome verdadeiro Marie-Louise Damien (1889-1978), que também era actriz, tendo entrado em diversos filmes.
No desempenho da peça, encenada por Lucília Simões, participaram, para além desta notável artista, no papel de D. Clara, a grande Adelina Abranches (Rita), Margarida de Almeida (Luísa), Judite Marques (Josefa), Erico Braga (Basílio), Henrique de Albuquerque (Ricardo Castro), Tarquínio Vieira (Miguel de Aguiar) e António Góis (Escopeta).
A cargo da “incomparável Damia”, “a grande trágica da canção francesa”, como, então, a apresentou o jornal “Diário de Lisboa”, ficava a restante representação.
Senhoras e senhores, Damia!

quinta-feira, 27 de março de 2008

CHABY PINHEIRO - PONTE DE LIMA, 1925

A 3 de Dezembro de 1925, na sua Gazetilha, habitual no jornal Cardeal Saraiva, Malafaia Neto desvendava o ambiente e tornava obrigatória a presença:



“Meus meninos, cá na terra,
Reina intensa alegria
Por breve termos aqui
O querido actor Chabi
Com a sua companhia!
(...)
Para ver o grande artista,
E fartar-se bem de rir,
Seja troiano ou grego
E ponha as botas no prego
Ao Chabi, é que tem de ir!
(...)”.


Dos actores consagrados, terá sido Chaby Pinheiro um dos que mais vezes actuou no Teatro Diogo Bernardes. Ligadas às suas passagens por Ponte de Lima, são várias as situações de quase comédia em que se viu envolvido, desde hipotética tentativa de assalto, descida de pensão seguro por cordas (apanhado por cheia do Rio Lima), até a acontecida por ocasião desta visita, em Dezembro de 1925, quando a sua Companhia Teatral, em Viana do Castelo, decidiu “reservar no escritório da Empresa dos Transportes Mecânicos”, com destino a Ponte de Lima, mais um lugar de que o dos seus componentes, pois dois eram para acomodar Chaby Pinheiro. Acontece que a reserva não foi respeitada e ao protesto do actor responderam-lhe que, se não cabia, fosse para o tejadilho. Chaby, ao que dizem, retorquiu estar em “terra de selvagens”. O certo é que a viagem se efectuou mesmo e a companhia lá chegou ao destino para a realização dos dois espectáculos previstos.
E a acreditar na crítica de A.A. (António Amorim), inserta no “Cardeal Saraiva” de 10 de Dezembro, bem podiam ter adquirido somente dois lugares, pois “há dias, a companhia Chabi Pinheiro – companhia, não! Chabi Pinheiro apenas, Chabi só, Chabi multidão, Chabi com todos os satélites frouxos e pálidos mexendo-se em volta do globo das suas adiposidades... – deu-nos em duas representações as aplaudidas peças: «Casa,* mesa e roupa-lavada» e «Conde Barão» - duas comédias que são uma fábrica de gargalhada em constante laboração...”.
E lá prosseguiu a sua apreciação no mesmo tom o nosso António Amorim que, seguramente, não pretendia achincalhar o mérito inegável de outros actores presentes, mas, tão só, enaltecer a grandeza, na figura e no talento, de um dos nossos melhores comediantes de todos os tempos e que este desenho, alusivo à Revista, de 1917, Lisbia Amada, como que representa, incluindo a situação caricata vivida na viagem de Viana do Castelo a Ponte de Lima.

* - O título da peça, nesta transcrição e no anúncio, está errado. Em outro espaço da crítica, António Amorim, refere, correctamente, "Cama, mesa e roupa lavada".

terça-feira, 18 de março de 2008

A VIDA DE CRISTO

.
A peça sacra, “A Vida de Cristo”, de Jorge Grave, Salvador Costa, José Azambuja e Duarte Costa, com música de Venceslau Pinto e Angel Gomez, já anteriormente representada, apresentava, como novidade, o protagonista, Cristo, ser confiado ao actor Tarquínio Vieira. A Virgem Maria seria Cremilda de Oliveira e, entre outros intérpretes, também participavam Silvestre Alegrim, Leonor d’Eça, Laura Hirsch e Jorge Grave, para além de cerca de 100 figurantes.
De 29 de Março a 6 de Abril, desse ano de 1931, abrangendo toda a Semana Santa, o Teatro do Ginásio, em Lisboa, acolheu os “Artistas Socializados”, responsáveis pela reposição da oratória, em 15 quadros: O Presépio; O Baptismo de Jesus; Jesus e Samaritana; A entrada em Jerusalém; Os vendilhões do templo; A traição de Judas; A ceia do Senhor; A prisão de Cristo; Judas e o remorso; Pilatos; O Rei dos Judeus; Via dolorosa; O Calvário; A Ressurreição; Ascensão.

segunda-feira, 17 de março de 2008

ELENA FONS



O “Sr. Gonçalo de Abreu, distinto académico da Universidade de Coimbra, subiu ao palco para entregar, à grande artista, um formoso bouquet, composto de flores naturais e em cujo cartão se lia a seguinte sextilha do nosso amigo e distinto colaborador Sr. Teófilo Carneiro:

Na vossa voz de acento embalador
Há tanta luz, Senhora, há tanta cor,
A traduzir-se em notas fugidias,
Que todos nós ouvindo-vos cantar
Julgamos que assistimos ao raiar
De auroras rutilando em harmonias.”

A voz pertencia a Elena Fons, consagrada cantora lírica nascida em Sevilha, no ano de 1873, e que tendo-se estreado no Teatro Real, de Madrid, na época de 1894-1895, tornou-se, rapidamente, numa das mais famosas vozes de Espanha, triunfando em espectáculos realizados em diversos países. Em Portugal, por exemplo, há notícia da sua passagem pelo S. Carlos, em 1896-1897, regressando posteriormente.
A partir de 1912 diversificou o seu repertório, juntando outros géneros a “reduções de óperas”. Foi assim que, em 1913, o Teatro Diogo Bernardes foi palco de quatro actuações da “Troupe Elena Fons”. Inicialmente estavam anunciadas três representações, na última das quais se passou, no meio de “uma grande salva de palmas” e arremesso de flores para o palco a partir “dos camarotes mais próximos da cena”, a já descrita entrega do “bouquet”, mas o sucesso obrigou a um espectáculo extra, realizado a 30 de Março, “com uma extraordinária concorrência, como raro se tem visto na nossa casa de espectáculos”.
Elena Fons viria a falecer em Portugal, em Loures, no ano de 1948, cerca de 11 anos após ter abandonado a sua carreira, casando com Alberto Virgílio Baptista que, no desempenho das suas funções profissionais, na “Fazenda Pública”, permaneceu, algum tempo, em Ponte de Lima.
""-Cf. "O Commercio do Lima".

quinta-feira, 13 de março de 2008

O HOMEM QUE MUDOU DE COR

Foi em 1935. O actor Samwel Dinis decidiu formar a Companhia Dramática Portuguesa e, para peça de estreia, escolheu o inédito de Reinaldo Ferreira (Repórter X), “O Homem que mudou de cor”, que o autor adaptou a partir da sua antiga novela “Preto e Branco”.
A peça, em 4 actos e 6 quadros, tratava das dificuldades de integração de um negro rico, confrontado com o preconceito rácico, frustrado com a ingratidão, os abusos e as traições a que se via sujeito e que, por isso, convencido de que todos os seus problemas estavam na sua cor de pele, conseguiu que um homem de ciência lhe a mudasse, em segredo.
A partir daí, iniciou uma vingança contra todos aqueles que o estigmatizavam e dele se aproveitavam. Mas, a mulher que ele amava confessou-lhe a sua indisponibilidade, por ainda ter no coração o homem que ele deixara de ser. A ciência não tinha meios para reverter as transformações a que o tinha sujeitado. Finalmente, e porque, apesar das mudanças físicas, ele continuava, no fundo, o mesmo homem, a união dos dois acabou por concretizar-se.
Para colocar no palco do Teatro S. Luiz, em Lisboa, a peça, encenada por Carlos Santos, com a direcção artística de Samwel Dinis e cenários de Sousa Mendes, foi necessário o concurso de muitos actores que, a exemplo do protagonista Samwel Dinis, o homem que mudou de cor e personalizou Edgar de Lencastre, também, todos os outros intérpretes, deram o nome e se adaptaram às respectivas personagens. Clemente Pinto foi o Dr. Adolfo Helder; Tarquínio Vieira, Carlos Zolnaga; Francisco Ribeiro/Ribeirinho vestiu-se de Cohen, judeu arruinado; Henrique de Albuquerque foi um empresário; José Azambuja, Gastão de Castro; Carlos Santos, Henrique Almada; Seixas Pereira, Eduardo; Alberto Reis, Miguel de Melo; José Monteiro, Horácio Manselmo; Constantino de Carvalho foi o Director do Casino; João Lopes, o Comissário da Polícia; Rebelo de Almeida, Fausto; José Alves o “Croupier”; Manuel Guerra o criado; Aura Abranches, Maria de Lourdes; Adelina Campos, Marta (a do amor do homem que mudou de cor); Amélia Pereira, Mariana; Constança Navarro, Leonor; Aurora Dubini, Eva e Lina Tavares, a cliente.
Apesar da fama do autor, e do grupo apreciável de actores, a peça só permaneceu em cena de 12 a 15 de Julho. Também Reinaldo Ferreira (Repórter X) pouco mais viveria: a 4 de Outubro vem a falecer aquele que Ferreira de Castro considerou, “no seu género, um dos maiores e mais originais jornalistas da Europa”*

*- “O diabo”, n.68, 13 de Outubro de 1935.

quarta-feira, 5 de março de 2008

O ROSQUEDO - DELFIM GUIMARÃES


“Pretendendo fazer crítica social, com páginas de cru realismo e de desassombrada denúncia de comportamentos classistas, - Ponte de Lima é «um bonito cortiço com pessimas abelhas», diz ele na pág. 143 – é como fotografia de um lugar e de uma época que, em nosso entender, reside a grande virtude deste livro. Porque ler hoje O Rosquedo representa, mais do que evocar o passado, senti-lo vivo e pulsátil diante dos nossos olhos”.[i] E tem razão Cláudio Lima. É isso o essencial da obra de Delfim Guimarães (1872-1933), elaborada, a acreditar no local e data com que o autor antecede a palavra FIM, em “Ponte do Lima, 1900/901”, agora acessível, pela 3.ª Edição[ii], em feliz e oportuna iniciativa de Adelino Tito de Morais que lhe acrescenta, em esforço de identificação de personagens e divulgação do escritor, 42 novas páginas.
Desde que para cá se mudou, após a sua rotura, em 1899, com “O Século”, Delfim Guimarães, excluindo a poesia, para além do romance “O Rosquedo”, enriqueceu-nos, entre outras, com duas obras dramaturgicas, ambas estreadas no Teatro Diogo Bernardes: em 1901, “A República de Rebordões”, e, em 1902, “Mariquinhas Tecedeira”, também publicada em Folhetim, nas páginas do jornal O Lima, de que era, então, director. E depois da sua partida, em 1903, edita, cinco anos volvidos, “Ares do Minho”, onde a sua vivência no nosso concelho volta a estar presente.
Delfim Guimarães nasceu no Porto, mas sendo o seu pai de Ponte de Lima, por aqui foi passando parte da sua infância e adolescência, revelando cedo o seu amor pela cultura, como em 1888, quando, aos 16 anos, e com João Inácio de Araújo Lima, fundou o “Club Recreativo Diogo Bernardes”.[iii]
[i] - Lima, Cláudio, Um rio de muitas luzes, “Delfim Guimarães, O Rosquedo – Uma leitura cem anos depois”, pp. 63/67, 2005[ii] - A 1.ª Edição é de 1904 e a 2.ª de 1912, ambas da Guimarães & C.ª – Editores.[iii] - Marques, Galino (Org.), In Memoriam de Delfim Guimarães 1872-1933, João I. de Araújo Lima, “Amizade de 45 anos!", pp. 221/224, Guimarães & C.ª, Lisboa, 1934.
[Ilustração – Delfim Guimarães em aguarela de Roque Gameiro, 1906]

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

MIMI AGUGLIA EM PONTE DE LIMA

A intenção era anterior, mas só a partir de meados de Novembro começou a despertar a curiosidade e a ganhar direito a comentário aberto: o empresário do Teatro Diogo Bernardes, Avelino Guimarães, pretendia trazer até Ponte de Lima uma companhia teatral italiana, que tinha como primeira figura Mimi Aguglia (1884-1970), uma autêntica diva dos palcos, capaz de arrebatar elites e simples apreciadores da arte cénica e, como se veria depois, suficiente para motivar uma trégua entre Pancho Villa e as tropas federais, no México, para que ambos os lados beligerantes pudessem assistir aos seus espectáculos.
Em 3 de Dezembro de 1912, uma terça-feira, ao tablado do Diogo Bernardes subiu Mimi Aguglia, e os restantes actores, para a representação do drama, em quadro actos, de Hermann Sudermann (1857-1928), Magda.
A escolha da peça, a que era reconhecida excelência, não agradou ao jornal O Commercio do Lima, “porque tendo os actores de declamar numa língua estranha, de melhor efeito seria, para a compreensão do público, que se preferisse outra peça do repertório da companhia, e são elas bastantes, em que o trabalho de Mimi se manifestasse mais pela acção impressionante e empolgadora, do que pela dicção”. E após elogiar a alta qualidade do desempenho da actriz, o jornal refere que dos restantes interpretes apenas dois se destacaram, o que foi considerado natural, pois “se com uma celebridade já foi puchadinho, o que não seria com uma companhia de celebridades!”.
O “puchadinho”, claro, era o preço dos ingressos e, pelo P.S. com que se remata a prosa, o frio “siberiano quando o pano subia”, pedindo-se que em dias de espectáculo se mandassem acender “todas as luzes da sala do Teatro, a ver se consegue fazer subir a temperatura”.
Responde o jornal “Cardeal Saraiva” (Avelino Guimarães), lamentando que o espectáculo não tivesse sido mais concorrido, zurzindo a maioria do público por falta de compreensão para “o moderno teatro” e só querer ”rir-se”, referindo do agrado dos que assistiram à peça, a julgar pelas “estrondosas e por vezes entusiásticas ovações que, sem favor, dispensaram à grande actriz siliciana, em todos os finais de acto”.
Quanto à escolha da peça... esta foi a possível, atendendo ao cenário e ao preço, que, mesmo assim, “não foi nada barato”. “Por isso tivemos de nos sujeitar a ver a Magda (Casa Paterna), o que já não representa pouco em terras minúsculas como a nossa, ainda para mais reposta em cena por uma das melhores actrizes do mundo!”. E, após fazer uma pequena apreciação ao desempenho, remata, com indisfarçável azedume, dizendo aos leitores “que tarde ou nunca terão o prazer de apreciar em Ponte de Lima tão excelente companhia por preços relativamente baratos”.
Noutro espaço, do mesmo jornal, explica-se que o frio permaneceria, mesmo com todas as luzes acesas, e que a opção, neste particular, tinha sido da companhia, por razões cénicas.
E por aqui se quedaram, pensamos, as repercussões da passagem pelo Teatro Diogo Bernardes de uma enorme actriz.

Como Fernando Correia Dias (1892-1935) e José de Almada Negreiros (1893-1970) apontaram a passagem de Mimi Aguglia por Portugal, nesse ano de 1912.
José de Almada Negreiros
Fernando Correia Dias

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

REPÓRTER X

Deixou nome, deixou obra, apesar de ter vivido demasiado depressa. Nasceu em Lisboa, a 10 de Agosto de 1897, e lá haveria de falecer, aos 38 anos, a 4 de Outubro de 1935. Não obstante a sua curta existência, a que a dependência da droga ditou o epílogo e prejudicou o trabalho criativo, foi um jornalista de imaginação fértil e processos inovadores e um profícuo escritor, sobejando-lhe ainda fôlego para viagens reais e fictícias, edição de jornais, produção e realização cinematográfica, rocambolescas escaramuças políticas de contorno internacional, etc.
Por razões profissionais, o nome de Tarquínio Vieira aparece associado ao de Reinaldo Ferreira (repórter X). Em 1928, em Dezembro, era anunciado que a Companhia Teatral Palmira Bastos- Alexandre de Azevedo, à qual o nosso conterrâneo pertencia, iria para o teatro de S. João, no Porto, e lá estrearia a peça de Reinaldo Ferreira, “a Dama do Sud”, que o autor tinha escrito adaptada da sua novela, de 1923, “O Homem da Cabeleira Branca”. Foi rebate falso, a peça só haveria de subir ao palco em 1931, no Teatro Ginásio, em Lisboa, a 22 de Janeiro.
Na Companhia do Ginásio, com direcção de Palmira Bastos, lá estavam, nessa altura, Alexandre de Azevedo e Tarquínio Vieira, que, com Constança Navarro, Leonor de Eça, Arlete Santos, Lino Ribeiro, Rafael Alves, Joaquim Miranda, Vítor Cruz, Jaime Zenoglio, José Miranda e João Perry, participaram no desempenho das diversas personagens de “A Dama do Sud”.
Mais tarde, no ano do falecimento do autor, Tarquínio Vieira haveria de actuar numa outra peça de Reinaldo Ferreira. Mas isso fica para ... mais tarde.
[Na foto de cima, Reinaldo Ferreira, entre Palmira Bastos e Alexandre de Azevedo. Também nela figura Tarquínio Vieira, o de sobretudo mais claro.]