Mostrar mensagens com a etiqueta Vaca das Cordas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vaca das Cordas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de junho de 2023

VACA DAS CORDAS E CORPO DE DEUS HÁ 100 ANOS (1923)

   A grande novidade e expectativa estava na realização, impulsionada por comissão, liderada pelo prior da vila, Monsenhor António Pereira Lima (Ponte de Lima, 24 de Outubro de 1852 - 16 de Fevereiro de 1930), “amigos de fazer ressuscitar a tradição no que ela tem de característico e bom”, da procissão do Corpo de Deus, outrora famosa em Ponte de Lima e que diziam ir reaparecer “com todo o aparato e esplendor igual ao que a revestia há uns bons 50 anos”. 
 Assim, nesse ano, à Vaca das Cordas, que apesar das suspensões e faltas de ambas terá prosperado como parte integrante desses festejos, voltava a velha companhia. 
 E depois de na tarde de o dia 30 de Maio ter ocorrido “o antigo divertimento da vaca das cordas”, em que “como de costume houve muitos sustos e correrias mas felizmente nenhuma nota discordante”, às 17.00 horas dessa quinta-feira, 31 de Maio, cumpriu-se o prometido. Pelas “ruas de S. José, Torre de S. Paulo, Passeio Cândido dos Reis, Avenida 5 de Outubro, ruas de Agostinho José Taveira, João Morais, Norton de Matos, Largo Dr. António de Magalhães, ruas Vieira Lisboa, D. Leonel de Lima, Boaventura José Vieira, Pe. Francisco Pacheco, Largo 13 de Fevereiro, rua do Rosário, Praça de Camões, Largo de S. José, rua da Abadia e Largo da Matriz”, ornada por “todas as irmandades da vila e de grande número das freguesias circunvizinhas, os párocos do concelho, com as respectivas cruzes paroquiais, S. Jorge com o seu estado-maior, carros das ervas, Boi Bento e S. Cristóvão conduzido por oito barqueiros num andor”, decorreu a procissão do Corpo de Deus. 
 “Durante o dia” tocou “ a banda dos nossos Artistas” e, na vila, “notava-se um desusado movimento que maior seria se o tempo não se apresentasse de mau cariz” 
 Em apreciação doutrinal, Carlos de Passos, em texto datado desse dia (31.05) e publicado no jornal Rio Lima, de 3 de Junho, entre outros considerandos, afirma que “uma excelente lição de civismo deu hoje ao país a vila de Ponte de Lima: e seus representantes, a municipalidade, merecem-lhe os melhores louvores [então, na comissão executiva estavam Adelino Ribeiro Sampaio (presidente), Francisco Pereira Campos (Vice-presidente), José Mendes da Costa Júnior, Avelino Guimarães, Raúl Pimenta… vereadores]: “mas quando os homens da ordem presente d’um modo nobre, dignamente rasgado, dão sua companhia à procissão, menosprezando falsas concepções e falsos temores, não se compreende que os vencidos tão triste prova de firmeza e isenção moral-religiosa dessem de si. Quantos faltaram, quantos amarelos, oportunistas, os temperados do dizer faceto de Camilo? ..." . 

Fontes principais: jornais Cardeal Saraiva e Rio Lima, d/nºs, ano de 1923.


 Crédito da ilustração: pormenor de fotografia incluída no Almanaque de Ponte de Lima, 1923 (A tradição Taurófila do Lima, Conde de Aurora) e recorte de cartaz de exposição do Museu dos Terceiros – Ponte de Lima.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Vaca das Cordas em 1914


A Vaca das Cordas em 1914

      Ter-se-á realizado no dia de Corpo de Deus, quinta-feira, 11 de Junho, repetindo, na marcação, o dia de semana do ano anterior (talvez uma forma de melhor contornar o facto de, na sequência da implantação da República, a lei ter deixado de considerar os dias santificados, e assim incentivar, a nível local, a participação nas cerimónias religiosas[1]).
     O jornal Cardeal Saraiva, desse mesmo dia (n.º 151)[2], não achou piada à iniciativa, referindo que “logo deve exibir-se… por essas ruas o bárbaro e repugnante espectáculo que dá pelo nome de Vaca das Cordas.” E, de forma contundente, afirma que “enquanto as utilidades morrem renascem os barbarismos!”. Para concluir, num rasgo de boa disposição: “e ontem houve limpeza na Praça de Camões, naturalmente para o animalejo não sujar as patas!/ Achamos justo.”




[1] - Em contrapartida, ao conceder às câmaras poderes para fixar um dia de feriado por ano, escolhido entre os representativos das festas tradicionais e características do concelho, autorizava que muitos deles nascessem com fundamento em motivos religiosos. É também o caso do feriado de Ponte de Lima.
[2] - Não nos foi possível consultar qualquer outra fonte. Quiçá, considerando o habitual relato, o do jornal O Comércio do Lima não seja muito diferente. O que dizia o povo fica por revelar, mas esta oposição da imprensa, reflexo de outras preocupações e já manifestadas durante a Monarquia, parece ter servido para ir libertando a Vaca das Cordas de excessiva violência.

Nota: Feriado Municipal: em sessão de 13 de Julho de 1911, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ponte de Lima, «deliberou considerar feriado dentro da área do concelho, o dia 20 de Setembro, de cada ano, por ser o de maior concorrência e luzimento das festas e feiras francas tradicionais de Nossa Senhora das Dores, realizadas nesta vila nos dias dezanove, vinte e vinte e um daquele mês». Em sessão de 17 de Outubro de 1912, que transfere as feiras (novas) para 9, 10 e 11 de Setembro, o feriado é alterado para o dia 10 de Setembro. Porém, a 2 de Setembro de 1915 é decidido repor as feiras (novas) a 19, 20 e 21 de Setembro, regressando o feriado ao seu dia inicial, 20 de Setembro. Agora goza-se na primeira terça-feira a seguir às Feiras Novas.

Ilustração: Desenho de João Almeida, in O Minho Pitoresco, de José Augusto Vieira, I Volume, 1886.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Corpo de Deus e a Vaca das Cordas em Ponte de Lima



     Parece inegável que a Vaca das Cordas era parte integrante dos festejos do Corpo de Deus[i]. O documento mais antigo conhecido que a refere[ii] não persuade a dúvida.
     Apesar de suspensões e algumas alterações, ao que se conhece, sempre se terá mantido fiel à data desse festejo (na véspera e, esporadicamente, no próprio dia, sendo algumas vezes transferida por razões climatéricas ou por fuga do animal e, durante alguns anos recentes, devido a suspensão do feriado do Corpo de Deus).  

Nota: Existem diversas touradas à corda[iii] (como exemplo, nos Açores são muitas e possuem legislação adequada[iv]). Vaca das Cordas, cremos, só existia a de Ponte de Lima.



[i] - De acordo com as fontes consultadas, foram estabelecidos em 1246, pelo Bispo de Liège. A bula Transiturus, de 1264, do Papa Urbano IV, faz a sua introdução na Liturgia. Sabe-se que, em Portugal, foi acolhida rapidamente, pois que já era celebrada no século XIII, no reinado de D. Afonso III. A procissão foi instituída, em 1317, pelo Papa João XXII. Conforme Ovídio de Sousa Vieira e Ana Cristina Amorim Costa, in Correr Touros em Ponte de Lima / A Vaca das Cordas, 1998, já uma Sentença Régia de 1537, de D. João III, considerava “…o seu antigo imemorial uso e costume que sempre fora na dita Vila para honra da dita festa de Corpus Christi …”.
[ii] - Acta de 11 de Julho de 1604, Livro de Vereações do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, 1602-1605, f.182.
[iii] - Luís Dantas (1946-2011), in A Vaca das Cordas em Ponte de Lima, 2006, refere que “em 1488 já D. João II havia confirmado por alvará as corridas à corda na região de Sintra (…)” e, para além de várias localidades no território de Castela e outras regiões de Espanha, elenca diversas povoações portuguesas onde essa prática, ao correr dos tempos, se efectuou: Ilha Terceira (Açores), onde ainda persiste; Castelo Branco; Santiago do Cacém; Arruda dos Vinhos; Alcabideche; Almoçageme; Aljezur; Monchique; Cascais; Aldeia do Penedo em Sintra; Lisboa (…).
[iv] - Recorde-se esta súmula parcial da referida legislação: “BEM-ESTAR DO TOURO: há um período máximo de 30 minutos para a lide do touro e um período de descanso obrigatório de 8 dias após cada corrida. O período máximo de enjaulamento do touro antes da tourada é de 2 horas. É obrigatória a boa conservação da gaiola do touro, das condições mínimas de arejamento da mesma, bem como o seu depósito em locais à sombra ou o mais abrigada possível dos raios de sol quando tenha touro enjaulado. É proibida a perturbação de touro enjaulado (…).”

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Vaca das Cordas em Ponte de Lima


A VACA DAS CORDAS EM PONTE DE LIMA

José Sousa Vieira

1.       Fonte mais remota
     Quiçá a sua mais antiga referência conhecida, e durante muito tempo esquecida, foi revelada por Miguel Roque dos Reys Lemos (1831-1897), em trabalho datado de 1873[1], que, referindo-se ao Livro de Vereações do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, 1602-1605, f.182, escreveu: “cordas – vacca das – Obrigação do marchante obrigado ao corte nos açougues, - a dar seis touros para a festa do Corpus Christi, - sendo 5 no dia, - e um para ser corrido na véspera com cordas”.
     De facto o documento existe e foi lavrado em 11 de Julho de 1604[2]. Com data posterior são muitas as fontes escritas divulgadas onde, com relativa eficácia, é possível acompanhar o trajecto desta prática. Diversos investigadores as têm mencionado. Vamos, portanto, avançar no tempo e fixarmo-nos em 1913, exactamente um século atrás.
     
2.       Em 1913

       Nesse ano, a tradição só foi cumprida à segunda tentativa. Reza a imprensa local[3], que de forma álacre relata essa Vaca das Cordas e nos encaminha para pormenores e percursos de tempos anteriores, em texto que não identifica o autor e de que transcrevemos parte: “ (...) Não foi corrida na tarde de quinta-feira[4], porque, quebrando as prisões num esticão rápido, abalou para as verdes montadas da armada, donde viera para o espectáculo brutal!
O caso produziu fundo desconsolo na enorme concorrência, que antegostava os prazeres do seu predilecto divertimento; e, daí, a corrida da vaca das cordas – que por sinal era boi – na tarde de domingo.
    Ser boi ou vaca não nos parece, porém, motivo para controvérsia, pois que uma postura municipal de 1720 lhe chama touro das cordas. A corrida realizou-se no domingo – dia iluminado e quente como de pleno estio – com numerosíssima assistência de pessoas da vila e arredores.
Somos do tempo em que esta usança tinha ainda o seu feitio tradicional.
O bicho era amarrado às grades de ferro da janela do sopé da torre da igreja da Matriz, à tarde da véspera do Corpus Christi, e agrilhoado e apupado pela multidão, esperava espumando raiva, que terminassem as solenidades religiosas, que nesse dia se faziam ali com a presença do senado, as paredes forradas de fresca ramaria e no pavimento espanadas e funcho oloroso.
A aludida postura impunha a todos os moleiros do termo a obrigação de virem na véspera de Corpus Christi à vila para andarem com o touro das cordas – sob a pena de 480 réis pagos na cadeia para o concelho quem faltasse – e por isso, após as solenidades, dois desses moleiros tomavam conta do cornúpeto, e segurando-o com valentia por fortes e compridas cordas davam com ele três voltas em redor da igreja e seguiam depois, a trote e no meio de alaridos e confusão, para o Passeio e amplo areal, onde os perigosos boléus arrancavam delirantes aplausos, e tais e outras sortes tinham sucesso ruidoso ao ânimo dos numerosíssimos espectadores!!
Era uma cena selvagem, que apaixonava novos e velhos e parecia produzir alvoroçadas alegrias nos mais graves e circunspectos! ...”

3.       A Corrida à corda, em Portugal

        Luís Dantas (1946-2011) refere que “em 1488 já D. João II havia confirmado por alvará as corridas à corda na região de Sintra (…)”[5] e, para além de várias localidades no território de Castela e outras regiões de Espanha, elenca diversas povoações portuguesas onde essa prática, ao correr dos tempos, se efectuou: Ilha Terceira (Açores), onde ainda persiste; Castelo Branco; Santiago do Cacém; Arruda dos Vinhos; Alcabideche; Almoçageme; Aljezur; Monchique; Cascais; Aldeia do Penedo em Sintra; Lisboa “no ano de 1562, no tempo de D. Sebastião, a preparar uma tourada no Terreiro do Paço”, com “o alcaide Nicolau Moniz a cavalo afastando a gente para se correr um touro que se corria por cordas”[6]; Ponte de Lima que, com diversas interrupções, impostas ou voluntárias, e faltando precisar o seu início, a conserva até aos nossos dias.          
 



[1] -Indice Alphabetico das Principais Matérias dos Livros das Vereações do Archivo Municipal de Ponte de Lima.
[2] - Fig.1
[3] - Cardeal Saraiva, n.º 102, 29 de Maio de 1913.  O Comércio do Lima, outro importante jornal local, pouco noticia, manifestando oposição ao “divertimento”
[4] . Estava prevista para o dia do Corpo de Deus. Essa situação surge referida, também, em outros anos.
[5] - A Vaca das Cordas em Ponte de Lima, 2006.
[6] - Idem

sábado, 28 de abril de 2012

PONTE DE LIMA - VACA DAS CORDAS E CORPO DE DEUS



     Em trabalho de 1873*, Miguel Roque dos Reys Lemos escreveu, em referência ao Livro de Vereações do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, 1602-1605, f.182:


“Cordas – vacca das
- Obrigação do marchante obrigado ao corte nos assougues, - a dar seis touros para a festa do Corpus Christi, - sendo 5 no dia, - e um para ser corrido na véspera com cordas”.


     O documento, com data de 11 de Julho de 1604**, e aqui reproduzido:


* -Indice alphabetico das Principais matérias dos Livros das Vereações do Archivo Municipal de Ponte do Lima.

** - ver, este blogue, 19 e 20.05.2008.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Hoje, em Ponte de Lima: "VACA DAS CORDAS".


Hoje, em Ponte de Lima, é dia de "Vaca das Cordas". Para todos os que pretendam compreender esta nossa tradição secular, é indispensável a leitura do trabalho de Luís Dantas.

terça-feira, 20 de maio de 2008

11 DE JULHO DE 1604

É a data do documento da reunião camarária onde é referido o touro para ser corrido, com cordas, na véspera do “Corpus Christi”, ontem mencionado. Fica-se a dever a Ovídio de Sousa Vieira a confirmação do teor do documento e a sua data e, claro, a Miguel Roque dos Reys Lemos o seu fácil encontro.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

PONTE DE LIMA - VACA DAS CORDAS E CORPO DE DEUS

Em trabalho de 1873*, Miguel Roque dos Reys Lemos escreve, em referência ao Livro de Vereações do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, 1602-1605, f.182:

“Cordas – vacca das
- Obrigação do marchante obrigado ao corte nos assougues, - a dar seis touros para a festa do Corpus Christi, - sendo 5 no dia, - e um para ser corrido na véspera com cordas”.

* -Indice alphabetico das Principais matérias dos Livros das Vereações do Archivo Municipal de Ponte do Lima.

Nota:  Será este o mais antigo documento,, até agora conhecido, a mencionar o que, em Ponte de Lima, ficou como a “Vaca das Cordas”. A consulta ao sítio do Arquivo Municipal, entretanto efectuada, não me permitiu assegurar (por dificuldade de leitura) a exactidão do documento citado. Alguém, seguramente, o esclarecerá.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

VACA DAS CORDAS

Augusto Castro e Sousa, na sua pele de “Repórter Visão”, descreve, de forma humorada, a peripécia da “Vaca das Cordas” de 1960, que, então, se realizava na quinta-feira do corpo de Deus.
Nesse ano, perante milhares de pessoas, “a função ficou adiada para” o próximo. É que “levaram o animalzinho para além da ponte, a pé, quando poderiam alugar o barco da Pontenova”, e o cornípeto por lá se quedou, recusando nova estopada e defraudando as expectativas dos que aguardavam “na praça que tinha os “camarotes” esgotados e ornamentados com os lindos rostos das raparigas limianas”, e que “só viram as cordas da vaca”.
Claro, “aqueles que não deram cheta foram os que mais protestaram”.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

VACA DAS CORDAS 2008 - 21 de Maio


Esta fotografia, inserta no Almanaque Ilustrado de O Commercio do Lima, 1908, é, do que está publicado, e ao que sabemos, a mais antiga de “A Vaca das Cordas”. Não refere data, nem local, embora pareça ter sido tirada no Largo de Camões, quase na embocadura da ponte, vendo-se, a ela contígua, o que poderá ser o edifício onde estava (ou veio a estar) instalado o célebre Café da Ponte (“O Kiosque do Ventura”), que tanta água viu passar e tinta fez correr, antes de ser derribado.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Vaca das Cordas em Ponte de Lima, vista por Luís Dantas

Conforme prometido, segue o texto da intervenção de Luís Dantas.

A VACA DAS CORDAS EM PONTE DE LIMA

Sobre esta obra, «A Vaca das cordas em Ponte de Lima», disse o Manuel Pires Trigo no «Alto Minho»: «o autor ou não quis tirar conclusões ou não achou os elementos bastantes.» E é tudo verdade. Deixei isso para o leitor, para os leitores. E tinha as minhas razões: não há verdade absoluta quando se procura o tempo perdido na História. Surgem sempre espaços vazios. Faltam documentos. Lidamos por isso com o silêncio. Mas ainda bem que estamos aqui reunidos para voltar a este tema tradicional da nossa vila, para evocar o passado e reflectir acerca deste costume nos dias que passam.
Li quase tudo o que se tinha escrito sobre a «Vaca das Cordas». Li o Miguel de Lemos. Deixei-me encantar pela sua tese. Procurei aprofundá-la, mas desisti. As fontes que foi consultando, abriram‑me outros caminhos, não os da mitologia egípcia. Foi em Creta, na Grécia e em Roma que encontrei «elementos estáveis de uma infinidade de gerações», isto é, foi nessas civilizações que encontrei quadros do tempo da nossa vida ou da nossa cultura.
Virgílio ( o mais célebre dos poetas latinos que viveu entre 71 e 19 ª C.), fala-nos das festas em Honra de Ceres, das três voltas mágicas: «em redor dos trigos já nascidos três vezes se passeie a vaca» - a vaca que vai ser sacrificada, não qualquer uma: «a melhor vaca», diz ele, «é a que tem o olhar carrancudo, pescoço muito grosso, barbela caída e toda ela deve ser grande e forte; que seja rebelde à canga e dada a investir com o arreganho de toiro». Numa ou outra festa ( em honra de Baco ou de Júpiter, por exemplo) as oferendas mais frequentes eram os bois ainda novos. Na obra « A Vida Quotidiana em Roma no Apogeu do Império» aparece um registo sobre um desses animais que «estica e sacode a sua corda e agita uma fronte ameaçadora, bezerro já feroz, maduro para os templos e para o altar, que vai ser regado pelo vinho puro.» Queria aqui sublinhar «regado pelo vinho puro».
Vamos agora evocar em cenas breves o templo e o ritual na tradição romana.
Os sacerdotes ataviavam os animais com uma grinalda de flores à volta do pescoço e colocavam a faixa sagrada.
No altar, o sacerdote provava o vinho e dava-o a provar também aos devotos e o resto era despejado sobre os cornos do animal. Pouco depois o animal era degolado. Repartia‑se a carne. No final do rito bebia-se vinho outra vez e o benfeitor ou a confraria honrava o povo com banquetes, danças e espectáculos.
Esta festa era organizada por um aristocrata rural, pelo favor de grandes famílias, por um grupo corporativo ou pela comunidade da aldeia ou vila.
A primeira conclusão que podemos tirar é que o costume de correr a vaca ou o boi em três voltas mágicas, a oferta e o sacrifício desses animais, as cerimónias (a grinalda de flores, provar e entornar o vinho nos cornos do animal, a festa e o banquete) vem directamente dos romanos. O costume esteve vivo até há bem pouco não só em Ponte de Lima, mas em muitos outros lugares.
Os registos municipais (já em 1536 e 1537) referem o antigo uso e costume de correr touros em quatro das nossas festas anuais. Mas não sei qual é verdadeiramente este conceito de corrida de toiros. A corrida fazia‑se «dentro de cancelas» ou «circo», não há dúvida. Não é de excluir a hipótese da corrida à corda em volta da igreja. Mas não encontramos a expressão «vaca das cordas» nos documentos mais antigos. Ela só aparece nos arquivos municipais de 1646.
E chegamos à segunda conclusão : temos corrida de toiros ( e muito provavelmente tourada à corda ou corrida da «vaca das cordas») há mais de 500 anos.
E por último: em Ponte de Lima, no século XVI, na festa do Corpo de Deus, os dirigentes do concelho ou os representantes do povo pagavam a corrida de toiros, a mourisca (danças e jogos) e um modesto banquete. Seria sempre assim? Comparando as histórias locais, devia também ter existido aqui famílias nobres, confrarias ou corporações - talvez a dos marchantes, que foram representantes do povo nas cortes do reinado de D. Fernando (1367-1380)- relacionadas com a oferta da vaca (do boi bento) para o sacrifício, para o bodo e festa. O boi bento foi durante muito tempo incorporado na nossa procissão do Corpo de Deus. Não existem do lado de cá relatos pormenorizados, mas é possível imaginar o que se passava noutras localidades. Em Cascais era assim: «este boi, enfeitado com flores, guizos e chocalhos, percorria a vila a correr. Atrás dele a garotada numa gritaria infernal invectivava: Boi bento, boi bento. Este, depois de morto, era distribuído pelos pobres, juntamente com o pão bento.» Assim devia ser aqui. Portanto, fica apenas o meu contributo: esta obra incompleta. E a ideia de que é preciso manter a tradição: engalanar o boi, dar vinho «do puro» a provar e entornar o resto nos cornos e dar as três voltas no sentido contrário ao ponteiro do relógio...

Luís Dantas

terça-feira, 5 de junho de 2007

Vaca das Cordas , alguns apontamentos

No Arquivo de Ponte de Lima, Vol. V – 1984, incluído no trabalho de Ovídio de Sousa Vieira, Ponte de Lima nas Vereações Antigas, vem, na página oito, uma transcrição, referente a 22 de Janeiro de 1684, um sábado, de que nos permitimos extrair o seguinte:
“Casas da Câmara (...). Apareceram Gaspar Gonçalves e Manuel Rebelo, marchantes da Rua do Pinheiro (...). Obrigaram-se também a mandar correr dois touros cada um no dia de Corpo de Deus, e no dia de véspera, um para correr à volta da Igreja Matriz como é costume. (...)”
Esse costume, o de correr um touro, que, sem distinção pelo sexo do animal, se designou de Vaca das Cordas, todos os anos, na véspera do dia do Corpo de Deus, já se encontra documentado “no livro das Posturas Municipais de 1646, capítulo 56", como refere Miguel Roque dos Reis Lemos (1831-1897) em texto, datado de 20-6-1877, inserto, segundo José Rosa de Araújo, no jornal O Comércio do Lima. Nesse texto, Miguel de Lemos afirma que se ignora “a origem e data de inauguração de tão burlesco e brutal espectáculo. Ao inventor devia-lhe ficar o juízo a arder.”
Mais tarde, e figurando nos “Anais Municipais de Ponte de Lima”, Miguel de Lemos, não deixando de reafirmar que quando à origem e significado do espectáculo “não há nenhuma memória, nem corre nenhuma tradição”, “arrisca” uma “opinião” remetendo-nos para a mitologia e a religião egípcia, como base deste costume, numa explicação já muito divulgado e que, por isso, não repetimos.
Em 1998, com coordenação de Ovídio de Sousa Vieira, a Comissão Organizadora da Vaca das cordas editou uma brochura onde, para além de textos do coordenador, se incluíram alguns trabalhos anteriores, de diversos estudiosos, versando quer a vaca das cordas quer a restante tradição ligada às corridas de touros em Ponte de Lima.
No livro “A Vaca das Cordas em Ponte de Lima”, editado em 2006, Luís Dantas abre novas perspectivas quanto à origem e significado desta antiga tradição. Amanhã, como remate desta série de apontamentos, vamos publicar, com a autorização do autor, a intervenção que Luís Dantas fez durante a apresentação do Cartaz da Vaca das Cordas 2007.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

"A Vaca das Cordas" de Goya


José Rosa de Araújo, na sua "Página Regional de Arqueologia Artística e Etnografia - LIMIANA", que foi sendo publicada, entre 1969 e 1991, em folhetins, no jornal Cardeal Saraiva de Ponte de Lima, refere, em duas ocasiões, 18 de Janeiro de 1974 e 18 de Setembro de 1981, uma tapeçaria baseada em trabalho do grande pintor espanhol Goya (1746-1828).
No primeiro desses apontamentos, escreveu José Rosa de Araújo: "Quando visitava o imponente mosteiro do Escurial, um amigo que me acompanhava, pontelimense estremado, reparou no que representava uma tapeçaria de Goya, pendente da parede e junto da porta por onde passávamos:
- Olha a Vaca das Cordas!
Efectivamente, lá estava a vaca presa, por umas cordas, a arremeter e de que fugiam uns risonhos mancebos no meio de um cercado campestre, de onde espreitavam velhos e raparigas.
A gentil funcionária que nos acompanhava explicou que era, efectivamente, um tradicional espectáculo popular, existente ainda em Benavente e, à rápida explicação que nos fez dele, verificamos a perfeita semelhança com o de Ponte de Lima. (...)"
O trabalho de Goya de 1793, acima reproduzido, mostra "El toro enmaronado".
De acordo com José Rosa Araújo, "enmaronado, vem de maroma, isto é, segundo o dicionário, corda grossa."

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Vaca das Cordas, vista por Teófilo Carneiro


“Veremos na véspera do Corpus Christi, um touro bravo, preso por duas grossas e compridas cordas, dar três voltas à Igreja Matriz e ser levado, pelas ruas e largos da vila, em correria veloz, no meio de estrídula algazarra, fugas precipitadas, grandes trambolhões e pegas voluntárias ou forçadas, como que numa espécie de balanço anual às aptidões tauromáquicas do indígena.
Espectáculo bárbaro e único no país – que a tradição, seja vaca ou boi o animal corrido, epicenamente baptizou de vaca-das-cordas – ele constitui, segundo os entendidos, uma sobrevivência pré-histórica da zoolatria pagã.”
[excerto do texto, Ponte do Lima – Estância da Divindade, in Portugal Económico, Monumental e Artístico, 1939]

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A Vaca das Cordas, na obra "O Minho Pitoresco"

[Gravura de "O Minho Pitoresco"]
José Augusto Vieira (1856-1890), na sua famosa obra, em 2 volumes, publicados em 1886 e 1887, refere-se à Vaca das Cordas:
“A matriz está sob a invocação de Santa Maria dos Anjos e é a sede da paróquia única da vila. Na sua frontaria, quase ao rés-do-chão, está uma janela com grades de ferro, que recorda para quem é de Ponte o singular e bárbaro costume da corrida da vaca, na véspera de Corpus-Christi. Existe desde séculos remotos a usança, e difícil será que o povo prescinda da sua vaca das cordas nesse dia. Pelas três horas da tarde prendem o pobre animal pelas pontas aos varões de ferro da janela, e durante uma hora aí o vai açular o rapazio, espancando-a e atordoando-a com assobios e apupos. Findo esse tempo desligam as cordas das grades da janela, e dois homens, cada um com a corda que prende uma das hastes do animal, fazem-no correr três vezes em volta da matriz, e acto seguido aguilhoam-no e avançam com ele pela Rua de S. José até ao passeio e areal próximo da ponte. O povo acumula-se nesses lugares para ver passar a vaca, e se acontece que o animal atropela alguém ou com ele investe, o regozijo é geral, o aplauso corre com algazarra na multidão; se nenhum desastre, se nenhum incidente, porém, sucede, pinta-se o desalento na fisionomia de todos;
- Oh! Este ano a vaca não prestou! Comentam tristemente.
É antigo o costume, dissemos, e disso dá prova ser ainda hoje o município que paga a qualquer marchante uma gratificação para ceder a vaca para a corrida, sendo nos tempos do velho sistema obrigados os moleiros do concelho a ministrar, à vez, para esse fim, o manso e pacífico animal.”

domingo, 20 de maio de 2007

Vaca das Cordas - 1908

No Almanaque Ilustrado de O Comércio do Lima, 1908, o Padre Roberto Maciel escreveu:
“A propósito aí vai a tradição que explica o antiquíssimo brinquedo da ”vaca das cordas“, em véspera do Corpo de Deus. A igreja Matriz da primitiva Vila era templo pagão dedicado a uma deusa, que eles, os pagãos, adoravam sob a forma duma vaca.
Quando os cristãos fizeram sua esta Vila e converteram em templo cristão a igreja, tiraram dum nicho a imagem da deusa Vaca, prenderam-na com cordas, com ela deram três voltas à igreja e depois arrastaram-na pelas ruas da Vila, com aprazimento de todos os habitantes. Daí o tradicional costume da “vaca das cordas” (hoje parece-me que é “touro”) ainda com as três voltas à igreja Matriz e correria pelas ruas, para gáudio do rapazio e até dos mais velhos, com tanto que se pilhem, seguros, vem longe da rede que os da corda costumam lançar-lhes.”
É claro, esta explicação da origem da Vaca das Cordas não resiste a um confronto com a história, mas fica pelo seu cunho lendário e porque, ao descrever a forma da sua realização, no seu tempo, o Padre Roberto Maciel, então com 38 anos, nos deixa um pormenor interessante: a rede que, segundo ele, os da corda lançavam.
Seria para proteger o animal daqueles que “procuravam atingi-lo com o afilado prego seguro na extremidade de uma vara”?[i]
[i] - como transcreve, de um exemplar do jornal O Eco do Lima, do ano de 1908, José Carlos Loureiro, em O Anunciador das Feiras Novas, do ano de 1994.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Vaca das Cordas - 1913

[Postal, de Tourada à Corda, na Ilha Terceira, Açores, c. 1914.
Tourada semelhante à Vaca das Cordas de Ponte de Lima]
*****
Aproveitamos um excerto do texto (actualizando a grafia) incluído no n.º 102 do jornal Cardeal Saraiva de 29 de Maio de 1913, e que, de forma álacre, relata a Vaca das Cordas desse ano, e nos encaminha para pormenores e percursos de tempos anteriores.
Esse texto não identifica o autor e conclui com a transcrição da tese de Miguel Roque dos Reys Lemos, quanto à origem desta tradição.

“Não foi corrida na tarde de quinta-feira, porque, quebrando as prisões num esticão rápido, abalou para as verdes montadas da armada, donde viera para o espectáculo brutal!
O caso produziu fundo desconsolo na enorme concorrência, que antegostava os prazeres do seu predilecto divertimento; e, daí, a corrida da vaca das cordas – que por sinal era boi – na tarde de domingo.
Ser boi ou vaca não nos parece, porém, motivo para controvérsia, pois que uma postura municipal de 1720 lhe chama touro das cordas.
A corrida realizou-se no domingo – dia iluminado e quente como de pleno estio – com numerosíssima assistência de pessoas da vila e arredores.
Somos do tempo em que esta usança tinha ainda o seu feitio tradicional.
O bicho era amarrado às grades de ferro da janela do sopé da torre da igreja da Matriz, à tarde da véspera do Corpus Christi, e agrilhoado e apupado pela multidão, esperava espumando raiva, que terminassem as solenidades religiosas, que nesse dia se faziam ali com a presença do senado, as paredes forradas de fresca ramaria e no pavimento espanadas e funcho oloroso.
A aludida postura impunha a todos os moleiros do termo a obrigação de virem na véspera de Corpus Christi à vila para andarem com o touro das cordas – sob a pena de 480 réis pagos na cadeia para o concelho quem faltasse – e por isso, após as solenidades, dois desses moleiros tomavam conta do cornúpeto, e segurando-o com valentia por fortes e compridas cordas davam com ele três voltas em redor da igreja e seguiam depois, a trote e no meio de alaridos e confusão, para o Passeio e amplo areal, onde os perigosos boléus arrancavam delirantes aplausos, e tais e outras sortes tinham sucesso ruidoso ao ânimo dos numerosíssimos espectadores!!
Era uma cena selvagem, que apaixonava novos e velhos e parecia produzir alvoroçadas alegrias nos mais graves e circunspectos! (...)”

terça-feira, 15 de maio de 2007

Vaca das Cordas

[Ilustração de Araújo Soares, in Anais Municipais de Ponte de Lima, 2.ª edição, 1977]

Pela curiosidade, deixamos um recorte do jornal Cardeal Saraiva, n.º 1792, de 4 de Julho de 1957.



sábado, 12 de maio de 2007

Vaca das Cordas

Fotografia de Amândio de Sousa Vieira, utilizada na ilustração da capa do livro de Luís Dantas e como fundo do cartaz da Vaca das Cordas, 2007.


Foi já apresentado o cartaz anunciador da realização da Vaca das Cordas, em 2007, no dia 6 de Junho.
Associados a este acto, Luís Dantas falou do livro "A Vaca das Cordas em Ponte de Lima", e Augusto Canário, com o auxílio da concertina, cantou o seu tema "Vamos à Vaca".

Sobre a "Vaca das Cordas" iremos editar, nos próximos dias, alguns apontamentos.

De imediato, deixamos ligações a textos diversos que se relacionam com este tema:




segunda-feira, 28 de agosto de 2006

A VACA DAS CORDAS EM PONTE DE LIMA

Luís Dantas

A VACA DAS CORDAS EM PONTE DE LIMA
De forma concisa, mas precisa, Luís Dantas, na sua mais recente obra, A Vaca das Cordas em Ponte de Lima, enquadra esta antiga tradição com exemplar rigor histórico, abrindo novas perspectivas quanto à origem e significado desta corrida.
Aliando o saber do historiador aos seus inegáveis dotes literárias, juntando o sagrado e o profano, colando informação que, até aqui, nos chegava fragmentada, despindo-a da fantasia e do erro, servindo-se de outras fontes, dá-nos, pela primeira vez, uma visão integrada e sustentada da Vaca das Cordas em Ponte de Lima.