sábado, 22 de junho de 2013

O S. João, em 1867




    O Santo assistiu às festividades, realizadas em 23 e 24 de Junho, em Ponte de Lima, da nova Ermida, para onde tinha sido levado em Procissão Solene na tarde do dia 16, do mesmo mês, um domingo. Na manhã, desse dia, tinham-lhe benzido e efectuado a primeira missa da moderna morada.
   Quis, antes de conhecer a Ermida, percorrer muitas das ruas da vila. Poderia, da Capela de Nossa Senhora do Rosário[1], próxima da ponte medieval, onde se tinha abrigado para permitir a demolição da sua antiga residência, em 1863[2], ter rumado rapidamente para lá. Mas não, esfriou a curiosidade e aproveitou o ensejo para deambular no burgo. E lá foi, na companhia do Senhor dos Aflitos, pelas Ruas do Rosário, 28 d’Agosto, Abadia, Adro da Matriz, S. José, Passeio de D. Fernando, Campo dos Touros, Largo da Regeneração, Santo António, Esperança, D. Pedro, Souto, Castelo, Italianos, Formosa, Calçada dos Artistas, Largo de S. João e Alameda das Carvalheiras até chegar à Capela, mais isolada de que o passado templo, mas permitindo-lhe espreguiçar a vista pelas areias e as águas do rio Lima, o seu recente Jordão, e vislumbrar, lá ao fundo, a vetusta ponte de pedra.
    Mas, quanto aos festejos desse ano, demos a palavra às “fontes” (jornais Echo do Lima e O Lethes), que o Santo (S. João namoradeiro…) há-de gostar do vocábulo, embora estas não jorrem água, nem aproximem as moçoilas. Trazem, no entanto, a luz que alimenta a história, como a fogueira, com ele relacionado, na tradição cristã, é aviso de nascimento.
     Diz-nos O Echo do Lima: “Correram alegres, expansivos e humorísticos os folguedos do S. João.”
   “Na noite do fogo a concorrência era imensa. O povo afluía de todas as partes para assistir às festas do grande precursor.”
      Escreve-se em O Lethes: “O S. João desta terra é um frenesi, é o tumultuar das turbas, é a expressão de júbilos espontâneos, é o que não é em outra parte!”
     “Alegria, que toca a meta do delírio!”
     “Na noite do domingo houve fogo, luminárias e entusiasmo na nova ermida do Baptista.”
      E retorna o Echo: ”Na segunda-feira percorreram as ruas da vila vários entremezes, que traziam em contínuo giro e galhofa o bom do nosso povo. De tarde houve corrida de touros, e à noite teatro que esteve concorrido, merecendo os curiosos os aplausos do público”.
   Para O Lethes: “… os bailes de antiga usança, e à tarde as toiradas… à noite houve o espectáculo anunciado, onde os curiosos se houveram como era de esperar-se de seus esforços, estudo, e paixão pela arte do proscénio”.
     Onde os dois jornais não se entenderam foi quanto às causas do desabamento do camarote ocupado por uma das bandas de música locais (a chamada NOVA), durante toirada, não provocando grandes danos aos envolvidos. Como se sabe, as rivalidades partidárias até tinham direito a expressão musical: assim, os de o Echo do Lima viram  acidente (talvez, por desleixo de montagem); os de O Lethes, segundo eles, como é voz pública, ódios inveterados e mal contidos.
    Já por cá andava o Fotógrafo Miguel de Novaes[3], a “tirar algumas vistas das muitas pitorescas, que de diferentes pontos da vila se disfrutam, e merecem representar em estampa, ao lado das admiráveis paisagens da Suíça, e margens do Reno (…)”. Infelizmente, não as temos para abrilhantar este relato.
     



[1] Esta Capela foi demolida em 1903, segundo Araújo, Jorge Pereira, in Ponte de Lima - Uma Vila Histórica do Minho, Município de Ponte de Lima, 2007, p. 287.
[2] - Conforme Lemos, Miguel Roque dos Reys, Anais Municipais de Ponte de Lima, Câmara Municipal de Ponte de Lima, 1938, p.29: “Torre e porta de S. João… ambas tiveram o nome daquele santo à conta da sua capela abobadada, de grandes dimensões, que havia dentro da torre e por cima da porta…”. Situava-se à boca da actual rua Beato Francisco Pacheco, virada para o Largo de S. João.
[3] - Não consta que a fotografia com que ilustramos este apontamento lhe pertença, ela é considerada dos primeiros anos do Séc. XX.


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