terça-feira, 1 de outubro de 2024

Para a história dos Bombeiros de Ponte de Lima

 


Para a história dos Bombeiros de Ponte de Lima

 


Em 1894, no primeiro dia das “feiras novas”, 19 de Setembro, aproveitando a “comemoração do 6.º aniversário da sua instalação”, os bombeiros de Ponte de Lima procederam a inauguração da “nova casa da associação, à rua de D. Pedro” [Pinheiro].

Presentes nos festejos, iniciados com a recepção à Banda dos Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo, que com a Banda dos Artistas de Ponte de Lima abrilhantaram os mesmos, estiveram, também, as corporações dos bombeiros do Porto, Braga, Viana do Castelo e Arcos de Valdevez. Depois da missa solene, na Igreja Matriz, em honra de N.ª Senhora das Dores, “padroeira da benemérita associação”, em cortejo, todos se dirigiram à nova casa dos bombeiros.

“Terminado o acto de instalação no espaçoso edifício”, teve lugar uma sessão em que, entre outros, e repartida entre a manhã e a tarde desse dia, falaram o padre Celestino Vale, o Dr. Reis, o padre Augusto Santos, Domingos Tarroso, Severino de Faria.

  Entre diversas manifestações festivas, depois, no “largo do Dr. António de Magalhães…em dois elegantes pavilhões, levantados aos lados do marco fontenário e artisticamente ornamentados com festões de plantas trepadeiras, principiavam as duas músicas, cada uma por sua vez, a executar as melhores peças do seu abundante e escolhido reportório, e a intervalos subiam ao ar girandolas de foguetes, de variadas e ofuscantes colorizações.” (…)

  (A Semana, n.º 127, 27 de Setembro de 1894)

(Crédito da imagem: Pormenor de desenho de Celso Hermínio, em O Phantasma, n.º 13 – Ponte do Lima, 7 Outubro, 1894 (proprietário e ilustrador Alfredo Mâncio)).


segunda-feira, 17 de junho de 2024

GRUPO CÉNICO TARQUÍNIO VIEIRA

 


 GRUPO CÉNICO TARQUÍNIO VIEIRA


Em 1934, na sua edição de 4 de Janeiro, o jornal Rio Lima noticiava que “acaba de organizar-se nesta vila [Ponte de Lima], um grupo de amadores da arte de Talma[1], para periodicamente levarem à cena uma série de espectáculos, cujo produto reverterá em benefício da Banda dos Artistas, Bombeiros Voluntários, Asilo Camões e subscrição para o monumento a erigir ao nosso egrégio poeta António Feijó”.

   Era, também, divulgado o reportório, todo de peças em 3 actos:” «Rosa do Adro», «Soldados do Bem», «Domingo de Páscoa», original de Delfim Guimarães e «A Feiticeira da Fraga», de Salvato Feijó, ilustre poeta nosso conterrâneo.”

”A todos estes espectáculos, prestará desinteressadamente o seu concurso a nossa Banda dos Artistas”

O mesmo jornal, a 15 de Fevereiro desse ano, informava que tinha assistido a um dos últimos ensaios “da emocionante peça dramática a «Rosa do Adro», extraída por Henrique de Macedo Júnior, do romance do mesmo título do festejado romancista, Manuel Maria Rodrigues”, e tinha tido “a satisfação de notar a perfeita distribuição do libreto e a forma como já alguns dos amadores declamam os seus papéis”. Acrescentando que “na parte feminina trabalha Albertina Saraiva, vocação já bem conhecida da nossa plateia e a debutante Rosa Pereira, que na peça vai desempenhar a parte da protagonista…”.

  Depois, tendo o jornal Rio Lima publicado um outro número a 28 de Fevereiro, em que nada refere do Grupo, e só regressando à edição a 1 de Setembro, justificando-se com a mudança de instalações (do Largo Dr. António de Magalhães, para a Rua Formosa (Pereiras)), e no outro jornal que então se publicava no concelho, Cardeal Saraiva, muito mais regular, a única referência ao Grupo que encontramos foi a publicação, a 28 de Maio, da carta de Tarquínio Vieira, datada de 23 desse mês, e que referimos em texto já divulgado, ignoramos o que sucedeu até essa data ao grupo e também os acontecimentos posteriores.



[1] Aquando desta divulgação, Tarquínio Vieira estava a actuar no Teatro Nacional, na peça Aquela Noite.

Crédito da Imagem: Postal Ilustrado, jornais Diário de Lisboa (inserido um anúncio publicado no n.º 3978 de 9 de Dezembro de 1933 (a referência ao dia 8 é gralha, devido à estreia ter estado anunciada para esse dia)), e Rio Lima (recorte de notícia no n.º 52, de 04.01.1934).

 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

AS FEIRAS NOVAS EM 1855 (HÁ 168 ANOS)

 


AS FEIRAS NOVAS EM 1855 (HÁ 168 ANOS)

 Apesar de Portugal também ter sido atingido pela epidemia de cólera, o que, por exemplo, provocou a proibição da realização das feiras de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, na data habitual, Ponte de Lima, fruto da diligência dos mesários da Irmandade de Nossa Senhora das Dores,” Srs. Silva, Rocha e Pereira Pinto”, junto ao Governador Civil do Distrito de Viana do Castelo, Visconde de São Paio dos Arcos, conseguiu autorização para a realização das feiras anuais de 19, 20 e 21 de Setembro.

  E, com dias quentes e noites frias, muita gente, “principalmente na noite do fogo” e pouco trabalho para o médico-cirurgião Monteiro (só “foi chamado para ver um homem, que tinha levado um coice”), uma feira do gado “ animadíssima” e uma de “bestas muito concorrida”, com a presença “dos costumados capelistas, quinquilheiros, ourives, etc.”, e, grande novidade nesta área, a montagem de “duas lojas de fato feito”.

“ O fogo do ar foi sofrível; porém o preso é forçoso confessar que apresentou vistas tão variadas e de tão bem combinadas cores que faz muita honra ao artista que o fez.“ Reparo só mereceu a hora tardia dos mesmos: “Rogamos aos incansáveis oficiais da irmandade… que para o ano tomem o chá mais cedo para nos aviarem mais depressa, pois sem dúvida o fogo deve principiar-se a lançar-se a hora mais honesta.”

 Nos festejos estiveram as Bandas do Regimento de Infantaria 3 de Viana do Castelo (“a qual tocou muito, e com muito gosto, como sempre costuma: porém no teatro [D. Fernando] foi ela excelente. Recordaremos sempre com saudade a noite de 21 de Setembro de 1855 pelos trechos das óperas do Atila e Trovador que com tanto mimo executou a referida banda”) e a dos Artistas limarenses, que também tocou no “circo equestre”.

Fontes:

Jornal A Razão, Valença, ano de 1855 (de onde se extraíram, com grafia modificada, todos os “ ”).  

Relatório da Epidemia de Cholera-Morbus em Portugal nos anos de 1855, e 1856, feito pelo Conselho de Saude Publica do Reino, Parte I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858 (segundo este relatório, no distrito de Viana, em 1855, só Viana do Castelo e Caminha foram atingidos tendo a doença provocado 138 mortos (77 em Viana e 61 em Caminha).

Crédito da Imagem:

Fotografia do Álbum de Antero Frederico Ferreira de Seabra da Mota e Silva, divulgada por João Gomes d’Abreu (Ontem-Hoje – Vista geral da Vila de Ponte de Lima em 1858, Arquivo de Ponte de Lima, 1986), que a data de 1858. Sem dúvida obtida em dia de feira, mostra-nos uma Ponte de Lima semelhante ao que seria em 1855 (talvez, com a mais visível diferença de a Torre dos Grilos, à entrada da ponte, do lado da vila, ainda não ter sido começada a demolir, o que, segundo Miguel Roque dos Reys Lemos, Anais Municipais de Ponte de Lima, aconteceu em 1857 e 1858.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

As primeiras marchas no S. João de Ponte de Lima

 

                                         
 

No S. João, que durante muito tempo foi a principal festividade na vila de Ponte de Lima, como participação popular organizada, aos “bailes” sucederam os “ranchos” e depois destes, e ou com estes, as “marchas” que como novidade surgiram em 1955. O jornal Cardeal Saraiva anunciava que “tudo se prepara para dar às festas deste Santo o maior entusiasmo”…”marchas populares, com prémios, arraial com iluminações a electricidade, e ornamentações a cargo de Bernardo Barreiros, de Guimarães, e vistoso fogo de artifício. …”
E terá sido assim mesmo, de acordo com o referido jornal “a concorrência foi o que se pode chamar muito invulgar… além dos números já conhecidos de anos anteriores, todavia este ano bem melhores, houve o cortejo de carros e ranchos folclóricos dos nossos três bairros… “e devemos frisar que qualquer dos bairros agradou imenso pelo imprevisto e colorido das suas marchas…” os carros “do Pinheiro: «Castelo», «Camões», «Varinha de Condão», «Caramanchão» e «Artilharia»; Arrabalde: «Moinho», «Caravelas», «Carro das Damas», «Jardim da Madalena» e «Espadeladeiras»; Além da Ponte: «Pelourinho», «Anjo da Guarda», «Pedreira», «India Portuguesa» e «Princesa» ….”
Depois, em Agosto, se revelava que “conforme classificação oportuna, foram assim distribuídos os prémios referentes a estes interessantes grupos: 1.º Prémio – Rancho do Pinheiro; 2.º - Rancho de Além da Ponte e 3.º - Rancho do Arrabalde.”
Fonte: diversos números do ano de 1955 do jornal Cardeal Saraiva.
Ilustração: recriação de postal da alameda e capela de S. João em Ponte de Lima.
Nota. publicado anteriormente na página do facebook, a 27 de Junho de 2022.

terça-feira, 13 de junho de 2023

1923 (HÁ CEM ANOS) – OS SANTOS POPULARES EM PONTE DE LIMA

 


1923 (HÁ CEM ANOS) – OS SANTOS POPULARES EM PONTE DE LIMA

 

S. ANTÓNIO

1.1 – Lugar de Crasto – Ribeira (dia 13 de Junho)

1.2 – Refoios (dia 13 de Junho)

1.3 – Fornelos (dia 13 de Junho)

1.4 – Vitorino de Piães (dias 16 (?), 17 de Junho)

1.5 – Igreja de Santo António da Torre Velha – Arcozelo (dia 17 de Junho)

 

S. JOÃO

2.1 – Ponte de Lima (dia 23 e 24 de Junho)

 

S. PEDRO

3.1 – S. Martinho da Gandra (dias 28 e 29 de Junho)

3.2 – Bairro de Além da Ponte – Arcozelo (dia 29 de Junho)

 

SANTO ANTÓNIO

Sendo o dia 13 em quarta-feira, realizaram-se (pelo menos foram anunciadas) festividades na Ribeira, Refoios e Fornelos. Em Vitorino de Piães e Arcozelo preferiram os festejos no fim-de-semana.

1.1.RIBEIRA

“No vizinho e pitoresco local da Cruz de Pedra”, “grandes festas ao taumaturgo Santo António”, com, na capela da Cruz de Pedra, missa solene acompanhada a órgão e vozes pelas meninas da creche da vila, sob a regência de Augusta de Araújo Lima, desafio de futebol, banda de música de Moreira do Lima, arraial com iluminação, bazar de prendas, descantes populares ao desafio, grande cascata, representação da comédia, em um acto, «O Actor e seus vizinhos» desempenhada por um grupo de amadores da freguesia.

 

1.2.REFOIOS

Com toda a solenidade e a participação da Banda dos Artistas (Vila).

 

1.3.FORNELOS

Solenidades religiosas, sermões, pelo Abade de Sandiães e pelo Abade de Argela, Caminha, arraial com o concurso da Banda de Cabaços, procissão, fogo-de-artifício.

1.4.VITORINO DE PIÃES

Grande arraial com iluminação, fogo e música e representação do drama de Santo António, solenidades religiosas, procissão, continuação do arraial com descantes populares, música e repetição do drama de Santo António, etc.. Tocou, durante o dia, a banda de Cabaços.

1.5 ARCOZELO

Igreja de Santo António da Torre Velha, “do bairro de Além-da-Ponte”, de manhã solenidades religiosas, de tarde sermão e procissão. Tocou, durante o dia, a Banda dos Artistas de Ponte de Lima.

 

S. JOÃO

2.1. PONTE DE LIMA

Embora organizada fora da responsabilidade da Irmandade, que assumiu a direcção dos festejos a S. João, era prometida, para o dia 24, “uma magnífica tourada”. Não se confirmou.

Certo é que no dia 27 de Maio se procedeu ao costumeiro “içamento da bandeira de S. João, com muita assistência, queima de foguetes, descantes populares, e a participação da Banda dos Artistas de Ponte de Lima que, feita a cerimónia, liderou cortejo por várias ruas tocando o hino do Santo, para satisfação de muito povo.

A 15 de Junho tiveram início, na sua capela na alameda, as novenas. A 23, um sábado, sendo juíza “a simpática menina Albertina Rodrigues da Silva Caridade, filha do abastado proprietário da freguesia de Vitorino das Donas…Sr. Manuel Rodrigues da Silva Caridade…e juiz o menino Manuel de Faria Sampaio, filho do …Sr. Adelino Ribeiro Sampaio, digno presidente da Comissão Executiva da nossa Câmara Municipal”…, tiveram arranque os festejos.

Os dois jornais da terra, o Cardeal Saraiva e o Rio Lima, ambos então semanários e publicados ao domingo, não saíram nesse dia 24, mas, regressados a 1 de Julho, não deixaram de relatar os festejos. Mais ironia, no Cardeal Saraiva, mais descrição, no Rio Lima. Sabemos, pelo segundo, que o fogo-de-artifício era do Sr. Cálon, de Ponte da Barca, as bandas de música dos Artistas de Ponte de Lima, dos Arcos de Valdevez e a de Cabaços, que a procissão tinha muitos anjos e o sermão foi proferido pelo pároco de S. Paio de Jolda, Arcos de Valdevez, que os bailes «A Esfolhada» e dos «Camponeses» tiveram na organização António José Linhares e José Narciso Vieira, e que na garraiada se distinguiram o cavaleiro José Lisboa e o bandarilheiro Artur Cunha. O primeiro, embora afirme que “correram brilhantíssimos os festejos”, e “o fogo e as iluminações agradaram muito”, escreve que “os bailes deixaram muito a desejar, a procissão regular, o desafio de futebol [Sport Club Triângulo Negro, de Ponte de Lima – Sport Club Nun’Alvares, de Ponte da Barca], devido ao calor, não se chegou a concluir, a garraiada, com garraios, talvez fosse brilhante… a respeito de pegas os bois pegaram regularmente nos respectivos forcados, finalmente, tudo correu bem: não houve desastres, nem roubos, nem coisas parecidas.”

Uma semana depois, na sua gazetilha, o Pai-Paulino (Malafaia Neto)), “recorda” a garraiada: “Em honra do S. João/ Na nossa praça de touros,/ A suarem como mouros, / Os destemidos caixeiros,/ Fizeram a garraiada:/ Deram terra p’ra feijões. / Corrida e trambolhões/ Sempre alegres, presenteiros. // Zé-Lisboa mui garboso. / Montado no seu Alter, / Espanou, como se quer,/ Toda a poeira da arena;/ Vermelho como um tomate/ O Joaquim, do Morais/ Deu até saltos mortais/ Para agradar á pequêna// O Artur fez belos câmbios,/ Lorôto pegou de lado/ O Lôpo foi volteado/ Os passes foram p’ro Cunha/ O que a todos fez pasmar,/ Até o mesmo animal, / Foi o caso original/ Dum Rato pegar á unha.//Só três bois foram lidados,/ Os outros, com muita graça,/ Limitaram-se a ver a praça/ Qu’os diestros deixam franca,/ E diz-se, pela calada,/ Que lá foi todo o sabão/ P’ra lavar num caldeirão/ As manchas da roupa branca…”

 

S. PEDRO

3.1. S. MARTINHO DA GANDRA

O correspondente do jornal Rio Lima (A. Caldas) noticiava que em “S. Martinho da Gândara…uma das aldeias mais belas do nosso Minho… um grupo de rapazes resolveu festejar… o Santo Claviculário da Corte Celestial.” Escrevia que “já há três anos... se vem realizando esta festividade…” fazendo também parte da comissão “a senhora D. Conceição Paiva e seu irmão Sr. Albano Paiva“ andam estes a “ensaiar um engraçado baile que se exibirá por ocasião daqueles deslumbrantes e grandiosos festejos”.

   Mais tarde, o jornal Cardeal Saraiva resumia o programa: “solenidades religiosas, grande arraial com 3 bandas de música, cascata, iluminações, descantes ao desafio, fogo-de-artifício”. O mesmo jornal, em posterior número, confirma que o S. Pedro “foi ruidosamente festejado”.

3.2. ARCOZELO

Festejos com “cascatas, música, quermesse e outros números de atracção”.

...

Nota: A informação, baseada em relatos ou publicidade, em alguns casos é incompleta, só anuncia, e não permite, com rigor, confirmar algumas das iniciativas mencionadas.

Fontes principais: jornais Cardeal Saraiva e Rio Lima

Crédito da Imagem: Recorte de capa da autoria de Alfredo Cândido, da revista Brasil-Portugal, n.º 202 – 16 de Junho de 1907.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

VACA DAS CORDAS E CORPO DE DEUS HÁ 100 ANOS (1923)

   A grande novidade e expectativa estava na realização, impulsionada por comissão, liderada pelo prior da vila, Monsenhor António Pereira Lima (Ponte de Lima, 24 de Outubro de 1852 - 16 de Fevereiro de 1930), “amigos de fazer ressuscitar a tradição no que ela tem de característico e bom”, da procissão do Corpo de Deus, outrora famosa em Ponte de Lima e que diziam ir reaparecer “com todo o aparato e esplendor igual ao que a revestia há uns bons 50 anos”. 
 Assim, nesse ano, à Vaca das Cordas, que apesar das suspensões e faltas de ambas terá prosperado como parte integrante desses festejos, voltava a velha companhia. 
 E depois de na tarde de o dia 30 de Maio ter ocorrido “o antigo divertimento da vaca das cordas”, em que “como de costume houve muitos sustos e correrias mas felizmente nenhuma nota discordante”, às 17.00 horas dessa quinta-feira, 31 de Maio, cumpriu-se o prometido. Pelas “ruas de S. José, Torre de S. Paulo, Passeio Cândido dos Reis, Avenida 5 de Outubro, ruas de Agostinho José Taveira, João Morais, Norton de Matos, Largo Dr. António de Magalhães, ruas Vieira Lisboa, D. Leonel de Lima, Boaventura José Vieira, Pe. Francisco Pacheco, Largo 13 de Fevereiro, rua do Rosário, Praça de Camões, Largo de S. José, rua da Abadia e Largo da Matriz”, ornada por “todas as irmandades da vila e de grande número das freguesias circunvizinhas, os párocos do concelho, com as respectivas cruzes paroquiais, S. Jorge com o seu estado-maior, carros das ervas, Boi Bento e S. Cristóvão conduzido por oito barqueiros num andor”, decorreu a procissão do Corpo de Deus. 
 “Durante o dia” tocou “ a banda dos nossos Artistas” e, na vila, “notava-se um desusado movimento que maior seria se o tempo não se apresentasse de mau cariz” 
 Em apreciação doutrinal, Carlos de Passos, em texto datado desse dia (31.05) e publicado no jornal Rio Lima, de 3 de Junho, entre outros considerandos, afirma que “uma excelente lição de civismo deu hoje ao país a vila de Ponte de Lima: e seus representantes, a municipalidade, merecem-lhe os melhores louvores [então, na comissão executiva estavam Adelino Ribeiro Sampaio (presidente), Francisco Pereira Campos (Vice-presidente), José Mendes da Costa Júnior, Avelino Guimarães, Raúl Pimenta… vereadores]: “mas quando os homens da ordem presente d’um modo nobre, dignamente rasgado, dão sua companhia à procissão, menosprezando falsas concepções e falsos temores, não se compreende que os vencidos tão triste prova de firmeza e isenção moral-religiosa dessem de si. Quantos faltaram, quantos amarelos, oportunistas, os temperados do dizer faceto de Camilo? ..." . 

Fontes principais: jornais Cardeal Saraiva e Rio Lima, d/nºs, ano de 1923.


 Crédito da ilustração: pormenor de fotografia incluída no Almanaque de Ponte de Lima, 1923 (A tradição Taurófila do Lima, Conde de Aurora) e recorte de cartaz de exposição do Museu dos Terceiros – Ponte de Lima.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

FIGURAS LIMIANAS DE RICARDO FERREIRA

 


FIGURAS LIMIANAS

DE RICARDO FERREIRA

 

As Figuras Limianas, de Ricardo Ferreira, são o seu espelho de recordação. Quando, em 2014, o Ricardo me informou que iria começar a revelar os seus trabalhos intuí (que é forma resumida de afirmar que já, de há muitos anos, conhecia o seu gosto artístico) a sua terra, recriada pelas suas mãos em labor de risco e cor, a ser favorecida. A sua presença nas redes sociais, as exposições realizadas, para surpresa de muitos, vieram confirmar a sua marca.

Agora, de forma mais persistente, pinta personalidades ligadas ao seu berço, em mescla de história e memória. Figuras de quem se habituou a ouvir falar, sobre quem foi lendo e aprendendo, mas, também, outras figuras notáveis com quem ainda conviveu. E é tudo isto, com a grandiosidade, generosidade e visão ampla que a distância permite, que o Ricardo Ferreira nos mostra.

                                                                                                                       
                                                                                                                                             José Sousa Vieira


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

[de Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro]

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO


1.3    AS CELEBRAÇÕES PARTICULARES

 

«Portugal. Ponte de Lima, 20 de Dezembro (de 1727)

   O Baptismo do primeiro filho varão dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira se celebrou nesta Vila no Oratório dos mesmos Viscondes, com pompa e magnificência. Administrou-lho o Ilustríssimo Arcebispo de Braga, Rodrigo[1] de Moura Teles, que veio expressamente a Ponte de Lima a esta função, pondo-lhe o nome de Dom Tomás Xavier de Lima. Foi padrinho seu avô materno o Visconde Dom Tomás de Lima e Vasconcelos, por procuração mandada a Dom Francisco Xavier Pinto de Sousa, que se achava nesta vila; a cujo acto se achou grande parte da Nobreza desta Província, toda de gala, com muita magnificência e luzimento. De noite houve luminárias por toda a Vila e Castelo; e especialmente em todo o palácio e jardim. Este se via todo bordado de luzes, com o mesmo debuxo das murtas, onde havia muitos vasos de flores de várias cores, todas de iluminação, fontes que lançavam fogo em lugar de água, pórticos, anfiteatros, estátuas, cornijas, colunas e quartelas, tudo iluminado, duas fontes de vinho para o povo, por quem se distribuíram muitos doces e outras coisas comestíveis, com dois coros de música de instrumentos e vozes, que se alternavam grande parte da noite. Representou-se também no Palácio dos mesmos Viscondes uma Comédia nova, representada por pessoas de distinção, e composta por Luís Calisto da Costa e Faria,[2] Abade da Igreja de São Pedro de Rubiães, e Secretário de Suas Excelências, adornada de várias contradanças, ordenadas por um Mestre de dança Alemão, que se acha nesta Vila. No terceiro dia houve uma folia Real de vários bailes de Braga, os mais curiosos e galantes. No quarto se cantou na Igreja Matriz uma Missa em acção de graças, com assistência de algumas Dignidades; e de noite se representou uma Comédia de Calderon. No quinto se tornou a repetir a primeira, e no sexto houve várias danças, e contradanças, sérias e burlescas, alternadas com Serenatas compostas de vozes e instrumentos, repartindo-se em todas as ocasiões doces e refrescos, e em todas as noites mesa pública abundantíssima de todo o comestível; e porque o tempo sobreveio chuvoso se não puderam executar as festas de cavalo, justas e sortilhas, que se tinha disposto, com considerável despesa da Nobreza desta Província.»[3] E - quem sabe? - talvez tudo isto despertando a imberbe curiosidade de Manuel de Figueiredo[4] que havia nascido por aí há cerca de 28 meses.

   Na descrição das celebrações em torno desse baptismo, realizado a 8 de Dezembro, de Tomás Xavier nascido a 12 de Outubro desse ano de 1727, e que viria a ser o 1.º Marquês de Ponte de Lima, englobando 2 comédias com 3 representações, dança, música (coral, instrumental) com a participação de amadores locais, bailes ao estilo dos durante muito tempo presentes principalmente nos festejos ao S. João, faltando apurar se aqui já eram usuais ou vieram posteriormente a ser introduzidos, temos uma mostra daquilo que se foi praticando muito tempo e com maior ou menor exposição.

   Refira-se, em reforço, um outro baptizado, a 26 de Outubro de 1745,[5] de António José Joaquim de Menezes, filho de Maria Rosa de Menezes e João Manuel de Menezes, na Capela da Casa dos seus pais (Calheiros?), em que, entre os festejos celebrativos, se representou uma comédia no pátio da sua casa; e, em 6 de Agosto de 1752,[6] os casamentos dos irmãos António Pereira Pinto de Araújo e Azevedo e Antónia Ventura Pereira Pinto de Azevedo, o primeiro com a prima Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo e ela com o pai da noiva do seu irmão e tio Luís de Araújo e Azevedo, na Capela de Nossa Senhora do Rosário, da Casa de Sá. Os festejos que duraram até ao dia 13 englobaram representações. Do casamento de António Pereira Pinto de Araújo de Azevedo Fagundes com Marquesa Francisca de Araújo e Azevedo viria a nascer, na mesma casa, a 14 de Maio de 1754, o que foi Conde da Barca, António de Araújo de Azevedo,[7] também ele, na sua muito preenchida vida, com diversos interesses e vocações culturais, parecendo que como dramaturgo terá escrito uma “Osmia” e uma “Nova Castro”.[8]



[1]              No relato consta Rui. Rodrigo de Moura Teles (1644-1728) foi reitor da Universidade de Coimbra (1690-1694), bispo da Guarda (1694-1704) e arcebispo primaz de Braga de 1704 a 1728 e com importante papel pastoral e de enorme relevo cultural.

[2]              Luís Calisto da Costa e Faria (1679 -?). Natural da Guarda era um poeta apreciado, escrevendo em castelhano, e que a história teatral não ignorou. Entre outros, dele fala Teófilo Braga, na sua História do Teatro Português (A Baixa Comédia e a Ópera - Século XVIII), (1871), e Sousa Bastos na Carteira do Artista (1898). Esteve ao serviço da Casa do Visconde de Vila Nova de Cerveira e, já aos 45 anos, foi ordenado presbítero, tendo passado pela Abadia de Santa Comba de Eiras, actualmente no concelho dos Arcos de Valdevez, e Abadia de S. Pedro de Ruviães, agora pertencente ao concelho de Paredes de Coura, ambas coladas de apresentação dos viscondes de Vila Nova de Cerveira. Escreveu também comédias, tendo ficada manuscritas El sítio de Campo Maior e Rugero e Bradamonte. Não encontramos qualquer referência particular à “comédia nova” em Ponte de Lima levada à cena.

[3]              Gazeta de Lisboa Ocidental, n.º 04, quinta-feira, 22 de Janeiro de 1728.

[4]              Manuel de Figueiredo (1725-1801). Foi BORRALHO, Maria Luísa Malato da Rosa, quem lhe restituiu a naturalidade ao desvendar que o pretenso alfacinha era, na verdade, um limarense. Na sua obra “Manuel de Figueiredo – Uma perspectiva do neoclassicismo português (1745-1777) ”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, que a autora informa ser versão abreviada da sua dissertação de Mestrado apresentada na Universidade de Coimbra em 1987, é possível acompanhar este aspecto. De Manuel de Figueiredo, o mais profícuo dramaturgo da sua época, se foi dizendo que praticamente não teve oportunidade de ver a representação de peças suas. Talvez não tenha sido tanto assim (MÜLLER (Berlim) Christoph,”Teoria e Práxis do Teatro na Arcádia Lusitana”, em: MÜLLER, Christoph, NEUMANN, Martin (Edit.), O Teatro em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Edições Colibri /Instituto Ibero-Americano (Berlim), Lisboa, 2015, pp.14-17), parecendo certo a pouca receptividade do público, o que diversos investigadores aclaram (vide, BARATA, José Oliveira, “A poética de Manuel de Figueiredo”, em: Humanitas, Vol. XLV, Coimbra, 1993, pp.313-334). Pelos tempos, aproveitando peças suas, se foram criando alguns espectáculos, quiçá recuperando o “…oiro de Énio com que fazer muitos Virgílios”, extraível da leitura das suas obras, de acordo com pronunciamento de Almeida Garrett (em: Catão, prefácio da 3.ª edição, Lisboa, 1845), sendo talvez o mais significativo “Um Poeta Afinado” estreado a 24 de Maio  de 1990, pelo Teatro da Cornucópia, no Teatro do Bairro Alto, em dramatização de Manuel João Gomes, colagem de 3 peças de Manuel de Figueiredo, “O Ensaio Cómico”, “Perigos da Educação” e “O Dramático Afinado ou Crítica aos Perigos da Educação”, com encenação de Luís Miguel Cintra, dando 34 representações. Para maior conhecimento, ver: MARTINS, José Cândido Oliveira, “Manuel de Figueiredo”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.114-116.

[5]              Gazeta de Lisboa, n.º 46, terça-feira, 16 de Novembro de 1745.

[6]                Gazeta de Lisboa, n.º 31, quinta-feira, 07 de Setembro de 1752.

[7]              António de Araújo e Azevedo (1754-1817). Ver: MALAFAIA, Eurico de Ataíde, “António de Araújo e Azevedo – 1.º Conde da Barca”, em: ABREU, João Gomes (Coord.),Figuras Limianas, Ponte de Lima, Município de Ponte de Lima, 2008, pp.146-149).

[8]              Ver: VÁZQUEZ, Raquel Bello, Uma certa ambiçaõ de gloria – Trajectória, redes e estratégias de Teresa de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798), Santiago de Compostela, 2005, em que o tema da autoria da “Osmia” é profusamente abordada e, também, nos fornece outros pormenores sobre o Conde da Barca.

Crédito da Imagem - Desenho de Justino Vaz Valente (1898-1954), mostrando uma "Ponte de Lima" talvez semelhante a das datas referidas nas celebrações.


domingo, 25 de setembro de 2022

Cine Bombeiros Voluntários – Ponte do Lima

 

Em época de celebração – para a história dos nossos Bombeiros (Ponte de Lima)

 

 Em mais uma transição de empresa exploradora do Teatro Diogo Bernardes, os nossos bombeiros decidiram, no seu salão, abrir um cinema: o Cine Bombeiros Voluntários – Ponte do Lima.

E aos domingos de alguns meses, a partir de 8 de Janeiro de 1928 (nas quintas-feiras durante a época do carnaval em que, também, assumiram a realização dos costumeiros bailes) era lá que os cinéfilos da nossa terra iam ao cinema.

 O Teatro Diogo Bernardes reabriu a 20 de Maio.



terça-feira, 13 de setembro de 2022

Breve contributo para a história do jornal Cardeal Saraiva


Breve contributo para a história do jornal Cardeal Saraiva

 

José Sousa Vieira

 

 A 22 de Janeiro de 1910, o jornal O Commercio do Lima[1], de que era então director-gerente Pelágio dos Reys Lemos, referia que estava a nascer, em Ponte de Lima, um novo jornal e de que nas suas oficinas (Tipografia Confiança, na rua Vasco da Gama) tinha sido “há dias fechado contrato” para a publicação (impressão) do mesmo de “cujo primeiro número sairá em meados de Fevereiro”.

  Precisamente, a 15 de Fevereiro foi divulgado o n.º 1 do jornal, “semanário imparcial”, Cardeal Saraiva, tendo como director António José de Oliveira[2], o dia semanal de publicação a terça-feira, a propriedade da empresa do Cardeal Saraiva, a redacção e administração na rua António Feijó.

  No número 16, de 31 de Maio, o cabeçalho do jornal passa a referir, também, o nome do administrador: Avelino Guimarães[3]

 O número 24, de 9 de Agosto, é o último desse ano de 1910. A edição só é retomada a 8 de Novembro de 1911 (com o n.º 25), agora à quarta-feira, passando a redacção e administração para o Largo de Camões, a composição e impressão na Papelaria e Tipografia Modelo (a vapor), na rua dos Monjavos, Viana do Castelo. Desaparece a referência a director, sendo apresentados como redactores António J. d’Oliveira e Malafaia Neto[4], administrador e editor, Avelino Guimarães, continuando a propriedade da empresa do Cardeal Saraiva.

  O n.º 49, de 24 de Abril de 1912, é referido como de aniversário, e incluiu o retrato de diversos “colaboradores” (Dr. A de Magalhães; Dr. Luís Nogueira; Pe. Araújo Calheiros; Dr. Francisco Maia; Dr. Francisco de Queiroz; Júlio de Lemos), do Dr. António Ferreira[5] (“fundador do Cardeal”) e de António José de Oliveira (“fundador e actual redactor”).

Ainda em 1912, no n.º 62, de 31 de Julho, desaparece, no rosto, a referência a redactores (o n.º seguinte, 63 de 7 de Agosto, refere que “desde o presente número, deixa de fazer parte da redacção d’este jornal…Malafaia Neto”) e, mantendo o restante, volta a ser mencionado, como director, António José d’Oliveira.

Em 1913 (a partir do n.º 92, de 13 de Março) é director, administrador e editor, Avelino Guimarães, e o jornal passa a publicar-se à quinta-feira.

Nesse mesmo ano (n.º 113 de 4 de Setembro), a composição e impressão começa a ser feita na Papelaria, Livraria e Tipografia Guimarães – Praça de Camões de Ponte de Lima.

  Em 1916, Avelino Guimarães é referido como proprietário, director e editor.[6]

Como mera curiosidade importa relatar que, sem que o cabeçalho tenha sofrido qualquer alteração, durante três números de 1921 (486, 487 e 488), com relevo, é noticiado, na primeira página, que “durante o impedimento do director deste semanário, como administrador do concelho, fica exercendo a direcção deste jornal o nosso distinto amigo e colaborador sr. Ismael Mota”.[7]

 Depois, e durante muitos anos, até ao falecimento de Avelino Guimarães, trave-mestra da existência deste título, no essencial (propriedade e direcção), não registamos alterações de vulto.



[1]  1910.01.22 - O Commercio do Lima, n.º 176

[2] 1888-1949 – António José de Oliveira nasceu em Ponte de Lima. Com continuada ligação à imprensa, ao ensino (professor e autor de títulos para a instrução primária) e à produção teatral.

[3] 1879-1959 - Avelino Pereira Guimarães nasceu em Labrujó, no concelho de Ponte de Lima, empresário de vários ramos (passou pelo Teatro Diogo Bernardes, e também por diversas iniciativas cinematográficas em outros locais), com intervenção cívica e política continuada o que lhe valeu vários cargos e muitos incómodos.

[4] 1888-1951 – Américo Malafaia Neto professor e autor teatral, profícuo colaborador e correspondente da imprensa, gazetilheiro perspicaz, contista, pintor, cenógrafo, decorador, político.

[5] 1885-1963 – António Gonçalves Ferreira, natural de Ponte de Lima, político (foi presidente da Câmara e administrador do concelho de Arcos de Valdevez), magistrado e autor literário, colaborador da imprensa.

[6] Não tendo sido possível a consulta dos n.ºs 239 a 242 do jornal, é verificável que o n.º 243, de 18 de Maio, já assim o refere.

[7] 1893-1974 – Ismael Cândido Guimarães da Mota, natural de Ponte de Lima, foi funcionário municipal, actor e músico amador, empresário do Teatro Diogo Bernardes, colaborador da imprensa e, dizem, um exímio apicultor.

 

 Avelino Guimarães

 
 António José de Oliveira

 Malafaia Neto

 


sábado, 27 de agosto de 2022

ANTÓNIO FEIJÓ NO TEATRO D. FERNANDO

 



 No Teatro D. Fernando, em Ponte de Lima, a 23 de Abril de 1881[1], realizou-se um “sarau dramático-musical” com fins beneficentes. Entre os que para ele contribuíram, recitando poesia, estava António Feijó que dias depois, a 7 de Maio, apresentava “Sacerdos Magnus”[2] no Teatro Académico, em Coimbra. A este último sarau assistiu Sebastião Sanhudo que no seu Sorvete o mostrou[3] e deixou escrito: “António Feijó, um moço de vigoroso talento, muito considerado pela Academia toda, poeta distintíssimo, também recitou uma brilhante poesia que conquistou ao autor uma delirante ovação”.


[1] O Comércio do Lima, n.º 283, 27 de Abril de 1881.

[2]   Será que António Feijó aproveitou o Sarau em Ponte de Lima para ensaiar a recitação de  Sacerdos Magnus, assinado pelo autor como criado em Coimbra em Abril desse ano?

[3] O Sorvete, n.º 157, 15 de Maio de 1881.

 

 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...

 


...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...


De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO [excerto]

 

1.1  - A FEIRA E A PONTE

  «No século XII, o lugar de Ponte não era pobre, nem pouco povoado, nem desprovido de acessos porque tinha o rio, os atalhos, a ponte e a estrada da época dos romanos a servir o vaivém dos homens na rota da feira, das festas, das tropas e das jornadas peregrinas. Por aqui passavam os bufões, que tinham acompanhado a turbamulta dos mercenários suevos, a arregalar os olhos da assistência com o atrevimento das suas danças, velhacarias, diabruras, chistes, caretas e disfarces… Mais tarde, no tempo da vila medieval chegam outros marginais: menestréis, jograis, bailarinas, ciganas, charlatães e trupes de saltimbancos.»[1]

   E assim por outros tempos, enquanto terra a bordar a única ponte[2] existente a unir as duas margens que o rio Lima separava, e após, onde a feira[3] criava um bulício especial, de homens e suas transacções, muito além do quotidiano.  

   Com o crescimento e estruturação do concelho passam também a pertencer-lhe os usos e costumes dos vulgos anexados, as suas crenças e diversões.

 

   1.2 – FESTIVIDADES. OS TURCOS DE CRASTO. 

   Do contencioso gerado por decisão do Corregedor da Comarca a 28 de Março de 1536, na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537,[4] consta que algumas práticas são consideradas de antigo e imemorial uso e costume que sempre fora na dita Vila (Ponte de Lima) por honra da Festa de Corpus Christi. E nela, que a esta localidade poderá ter chegado praticamente nos alvores da sua introdução em Portugal em Coimbra, festa a 1266 e com procissão a 1307,[5] como é conhecido, os espectáculos rivalizavam, quando não se fundiam ou turbavam, a religiosidade. A «procissão até 1749 fazia-se...com as cenas burlescas, ridículas e grotescas dos grémios dos diferentes mesteres, danças, folias, coros de diabos e diabas com seus uivos e lubricidades que divertiam o povo. Atrás disto seguia um homem a cavalo, figurando de S. Jorge com seu pajem, e após a Procissão séria, como hoje se usa. Aquelas caricaturas acabaram em 1750 com a proibição que se contém na Provisão de D. João V, passada em Março desse ano…».[6]

   Na mesma sentença é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista e é nela que haveremos de encontrar, com maior e continuada expressão, os “Bailes,”[7]  de que alguns de cariz mais religioso chegaram a acompanhar a procissão com referências já na segunda metade do século XIX, em que o canto, a dança, a música e os diálogos se podiam unir e espalhar essas representações, diversificadas (dos Pretos Grandes, dos Pretos Pequenos, dos Canecos, dos Velhos, das Feiticeiras, dos Galegos, do Penedo, dos Pastores, da Mão de Deus, de Isabel e Zacarias, Galateia, dos Alfaiates, dos Sapateiros, dos Lavradores, dos Camponeses, das Camponesas, Uma freguesia em desordem, da Espadelada (as espadeladeiras), do Rei David, Processo do Rasga, O Povo do nosso lugar, etc.), por toda a vila. E se, por quase todos, eles eram considerados como fazendo “as delícias deste bom povinho…”,[8] “já pela sua originalidade, como pela hilaridade que provocam…”,[9]são sempre a alegria e o divertimento indispensável ao bom humor do nosso povo”,[10] em contraste flagrante também se referiu que “em verdade não sabemos se nos causa repugnância, gargalhadas ou nojo ver que a festividade dum santo…é aqui celebrada com rapazes quase nus, sujos, pintados de preto e felugem e água, fazendo pelas ruas trejeitos malcriados, selvagens, com uns regougos de sandices na maior parte obscenas. / Os tais bailes são isto: - uma selvageria.”[11]

 

    Habitualmente ao ar livre e desempenhadas por amadores locais, por vezes reforçados com elementos de outras terras,[12] ou oriundos de outras freguesias com companhia itinerante formada, como é o exemplo da de Comédia do Melinho,[13] as récitas (comédias, dramas, bailes, etc.) foram tendo lugar em festividades realizadas em muitas das freguesias do concelho limarense (entre outras, Ribeira – Nossa Senhora da Abadia, Senhor da Cruz de Pedra, Santo António; Arcozelo – Nossa Senhora das Dores, Senhora da Luz, Senhor dos Aflitos, S. Pedro; S. Martinho da Gandra – Nossa Senhora da Rocha; Calheiros – Senhor dos Perdidos; Correlhã – Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora das Neves; Estorãos – Santo Amaro; vila – S. Benedito, S. Pedro na rua António Feijó (Pinheiro), S. João; Calvelo – Senhor do Calvário; Bárrio – Nossa Senhora da Abadia).

  A mais persistente é a da «Turquia» (Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos). Com rigor, não se conhece quando se iniciou nem quem a trouxe. Parece certo que não foi criada localmente e, desde que a imprensa escrita a acompanha, sabemos que está associada à festa ao Senhor da Cruz de Pedra, no lugar de Crasto, na freguesia da Ribeira, Ponte de Lima.[14]   Desde sempre a referida imprensa lhe atribuiu antiguidade. Por exemplo, em 1892,[15] embora a considerasse produção local, precisava: «A pantomina dos «turcos e cristãos», peculiar dos de Crasto foi exibida a rigor, com denodo e saber entre as hostes beligerantes! / Os papéis, que dão água pela barba, de parte a parte foram executados sem vergonha para as caveiras das passadas gerações do lugar, que inventaram num arranque de catolicismo e mandaram para a posteridade tão famosa composição, que teve certamente o beneplácito do «Santo Ofício» …/ O povo aplaudiu, se não com tanta fé ao menos com entusiasmo igual ao dos espectadores de há cem anos!».

  A primitiva descrição, que dela conhecemos,[16] ajuda a confirmar a sua antiguidade e a informação difundida por Cláudio Basto[17] quanto a haver “sofrido, pelos anos adiante, modificações e aditamentos…”: «Seriam 3 horas da tarde ouvem os muitos romeiros que ali se achavam quase ao mesmo tempo dois hinos guerreiros um do lado da igreja paroquial da freguesia, e outro do desta vila, e pouco depois chegam daquele perto de vinte cristãos armados de lanças com uma banda de música de arraial à frente, os quais pararam em frente à capela do Senhor festejado e igual número de turcos do lado oposto, com alfanges e outra banda de música, que se colocaram em frente da casa do Sr. José Manuel Gonçalves, mediando entre uns e outros cem metros da nova estrada, orlada com os globos da iluminação da véspera.

     Aflui o povo de todas as partes, admiram-se os seus vestuários e armaduras e especialmente do rei daqueles, e sultão destes, e dos generais de ambos os bandos.

     Mal se avistam não lhes sofre o ânimo conterem-se, e uma partida de seis de cada lado caminham para a frente, e antes que os turcos usassem das suas armas os cristãos dão dois tiros, matando dois turcos, um antes de uma delas se desfechar, (tal foi o medo) e o outro depois, que ficam estirados no meio da estrada fugindo todos os restantes dez a reunir-se ao grosso da sua respectiva tropa.

     Os turcos assanham-se e marcham sobre os cristãos que fogem a encerrar-se precipitadamente no seu castelo de modo que lhes apanhados uns poucos de burros com bagagens, dois dos quais são aproveitados para conduzir escarranchados os dois turcos mortos, que vão fazendo cortesias com os olhos fechados. Os turcos altivos com a sua tomadia recolhem-se à sua praça, e querendo aproveitar a ocasião, depois de informados por espias da posição dos cristãos invadem o castelo e tomam-no, mas por uma incúria só própria do seu general, e do sultão que só tratava de mirar-se a si, e ao muito ouro que trazia ao pescoço; deixam a sua praça sem guarnição, de forma que os cristãos fugidos e acossados metem-se nela e aí se fortalecem.

     Aparecem parlamentários de uma parte e de outra, e põem-se a comer à mesma mesa, até que um mata o outro, fugindo o vivo para o lado dos seus e arrastando-se o morto para onde lhe conveio.

     Ambos os exércitos porém resolvem vir às mãos, batem-se em pelotões de quatro a quatro e depois de dois e dois, batendo com as armas nos escudos dos adversários em três encontros que têm lugar no meio da arena em corridas desordenadas ao toque de música. Em seguida batem-se um a um, e no fim das investidas cada soldado cristão vai arrastando o seu turco, depois o general daqueles arrasta o destes, e por último o rei faz o mesmo ao sultão, no meio de risadas estrepitosas e assim acabou a acção…».

  E se depois deste relato se assegurou que “o famoso episódio dos Turcos, de estilo nesta romaria, e que de largos anos tem passado de pais a filhos, invariável, uniforme, sem a maior uma simples peripécia, zombando assim da filosofia, que assevera que o mundo, e as coisas dele sempre caminham, sob o benefício influxo de um novo mundo, que se diz Progresso!,”[18] é certo que, para além de personagens e atavios, pelo menos em representações posteriores ao que nos é asseverado de que “de ordinário se representam combates de mouros e cristãos, que terminam pela morte dos primeiros a fio ou ponta de espada dos segundos,”[19] o invariável caiu, e a morte da totalidade dos turcos foi substituída pelo baptismo da maioria, como as récitas mais próximas nos confirmam.

 

 



[1]              DANTAS, Catarina; DANTAS, Luís – O Circo em Ponte de Lima, Luís Dantas, 2009, pg. 27.

[2]              ALMEIDA, Carlos A. Brochado – A Via XIX em Território Limiano, Município de Ponte de Lima, 2008, pg. 12.

[3]              RAU, Virgínia – Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Editorial Presença, 1983 (2.ª edição), pg. 63/64

[4]              VIEIRA, Ovídio Sousa; COSTA, Ana Cristina Amorim – Correr Touros em Ponte de Lima – A Vaca das Cordas, Comissão Organizadora da Vaca das Cordas, 1998, págs. 56-61.

[5]              AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, Volume 2, Círculo dos Leitores, 2000, pg.564.

[6]              LEMOS, Miguel Roque Reis – Apontamentos para as Memórias das Antiguidades de Ponte do Lima, 1873, p.67 (PT/MPTL/CMPTL35/C-F/003)

[7]                Em «Uma simples chamada de atenção…», O Anunciador das Feiras Novas, II Série, n.º III, 1986, Maria Emília Sena de Vasconcelos escreve, com base em informações de Severino Costa, “que alguns destes «Bailes» comportavam «história», (enredo, composição…) ”. No Arquivo Municipal de Ponte de Lima é possível espreitar documentos referentes a uma reconstituição do Baile da espadelada, onde não falta a “parte cénica” (PT/MPTL/GBE).

[8]              Jornal Vida Nova, Viana do Castelo, n.º 262, 26 de Junho de 1894.

[9]              Jornal Cardeal Saraiva, Ponte de Lima, n.º 152, 18 de Junho de 1914

[10]            Jornal Rio Lima, Ponte de Lima, Ano 2.ª, n.º 16, 15 de Junho de 1924.

[11]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 1397, 27 de Junho de 1880.

[12]              Como nesta em que “adoeceu o Santo…num dos domingos últimos, numa das aldeias deste concelho” numa “festa a Santo António…” onde “se fez um tablado para a representação do drama sacro St.º António; e segundo nos dizem, quem desempenhava o papel do Santo era cá da nossa vila. / O dia estava quente; e por isso a secura era natural. O homem comeu bem, bebeu melhor; e o pano do tablado corre-se. Por certo que era para começar o espectáculo. E assim foi. O espectáculo começa; os actores vão desempenhando os seus papéis, senão como deviam, ao menos como podiam, e os aplausos e saudações fervem sobre eles. / Quando o entusiasmo chegava a delírio, aparece uma pequena interrupção. No palco nota-se descontentamento e dentro do cenário manifesta-se um tal ou qual alvoroço. Tudo ficou silencioso por momentos e o palco despovoado de actores. Os espectadores interrogavam uns aos outros. E, quando se estava neste ponto, aparece um dos actores, dando a seguinte notícia. «Não continua o espectáculo, porque adoeceu o santo.»/ Vago rumor entre os espectadores; e tudo se retira com o maior sentimento. / Averiguado o caso, fora uma indigestão, porque o homem está óptimo. E assim acabou tão tristemente a festividade.” (Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 599, 18 de Julho de 1872.)

[13]            “Representação cheia de cor local, com um pronunciado cachet provinciano” sendo o Melinho, numa apreciação onde não sabemos o tamanho da ironia, “uma vocação artística completamente perdida, segundo dizem alguns estendedores. A sua figura graciosa, deveria exibir-se ao calor mordente da rampa iluminada pelo gás da ribalta, e os seus braços eram mais próprios para os grandes gestos trágicos do teatro de Shakespeare, do que para o fabrico do cerol e para retesar com fúria a presilha ensebada do tirapé. / Eis aqui um grande dilema imposto pela sorte à maleabilidade dos destinos humanos: - ser um génio ou um sapateiro…” (Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 198, 10 de Setembro de 1879.)

[14]              REIS, António Matos (1980, Origem da «Turquia» de Crasto, Almanaque de Ponte de Lima) e SOUSA, João R. (1984, Turquia – Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos), talvez os mais recentes investigadores a estudarem a peça, coincidem em designá-la de teatro popular de terreiro, tardo-medieval, dos fins do séc. XV ou inícios do século XVI, e de que não é originária do concelho de Ponte de Lima.

[15]              Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 19, 18.08.1892.

[16]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima,  n.º 510, 27.08.1871

[17]            BASTO, Cláudio (1917-1918, Lusa – Folha quinzenal de letras e ciências, Viana do Castelo, Ano I, n.º 15-16, 15 Out e 1 Nov 1917, pg. 119-124 e Ano II, n.º 30, 1 de Junho de 1918, p.45)

[18]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 709, 21 de Agosto de 1873.

[19]            Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 195, 20 de Agosto de 1879.

Ilustração: Postal de figuração do Baile da Dança do Rei David, na cidade de Braga.