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sábado, 31 de agosto de 2013

As Feiras Novas em Revista


AS FEIRAS NOVAS EM REVISTA

José Sousa Vieira





     Há três publicações anuais dedicadas às feiras que desde 1826 se realizam em Ponte de Lima associadas aos festejos a Nossa Senhora das Dores[1], todas de iniciativa estranha à organização das mesmas, a merecerem lugar na história da imprensa local.
     Em 1926, ano de comemoração dos 100 anos das Feiras Novas, mas na realidade correspondendo aos 101 da sua efectivação (importa relembrar, com ou sem festejos, não existe notícia de qualquer ano de não realização destas feiras), surgiu o O Arauto das Feiras Novas, iniciativa de Eduardo de Castro e Sousa. O último, que conhecemos, corresponde ao 13.º, foi editado em 1938, ano da inauguração, em Ponte de Lima, do monumento ao poeta António Feijó, a obter, na revista, o devido destaque:
    “E Ponte de Lima, a terra natal do Poeta e de outros vates ilustres, consagra-o, com saudade, no monumento de iniciativa da nossa Municipalidade, ali erigido na Praça da República, belo desenho do arquitecto Paulo Carvalho Cunha, apreciável obra de granito, executada sob a direcção de José Manuel Lopes e seus operários da terra do insigne poeta António Feijó, e aonde assenta um admirável busto de bronze, trabalho do Mestre Teixeira Lopes (…) ”.
     Em 1947, o recentemente regressado Augusto de Castro e Sousa, que em Lisboa vivera vários anos, segue o exemplo de seu pai, troca a palavra arauto, e dá à estampa o O Anunciador das Feiras Novas. Este primeiro anunciador, que o responsável em carta a Alberto do Vale Loureiro afirma lhe ter infligido “penosos sofrimentos”, teve vida curta. Termina no número 2, em 1948 e, curiosamente, disso já não se recordava Augusto de Castro e Sousa, em 1984, na epístola a Alberto do Vale Loureiro,  narrando ter saído “um único número”, esquecendo que, em 1948, tinha escrito no seu anunciador, por exemplo e referindo-se às Feiras Novas: «as tocatas – e são às centenas as que vêm à festa – ferem o espaço e oferecem aos nossos distintos hóspedes tudo quanto somos de simples e de bons.»
     E por ser simples e bom, genuíno, Alberto do Vale Loureiro, confessadamente um homem gostando “das coisas que falam, mexem, fazem progredir e elevar Ponte de Lima”, decidiu retomar o O Anunciador das Feiras Novas, gesto de estima pelo seu Mestre de Artes Gráficas, Augusto de Castro e Sousa, pois outro título, se a vaidade se sobrepusesse ao coração, não lhe estava interdito.
     (Re)surge desta forma, a partir de 1984, o O Anunciador das Feiras Novas, em II Série, afectiva, generosa, que, fruto dos tempos e da possibilidade dos homens, apresenta um cunho histórico e cultural predominante, aflorados nas modestas publicações anteriores, não obstante, como naturalmente acontece em edições do tipo, acolher diversificada colaboração, alguma da qual só as necessidades editoriais e, estamos convictos, a referida bondade do coordenador justifica.
    Sendo, desde o n.º 3, de 1986, propriedade da actual Associação Empresarial de Ponte de Lima, completa, neste ano de 2013, o 30.º aniversário. Pelo índice da revista, que meticulosamente José Carlos de Magalhães Loureiro organiza, é possível constatar que, com assiduidade diversa, já colaboraram em O Anunciador 85 autores, um deles, Adelino Tito de Morais, em todos os números.





[1] - Existe, por vezes, alguma confusão quanto às feiras (novas) e à festividade. De facto, as feiras, três dias, autorizadas pela Chancelaria de D. Pedro IV, por Provisão de 5 de Maio de 1826, e interpretando livremente extracto da referida provisão, foram solicitadas para se conservar o culto a Nossa Senhora das Dores, cuja imagem, para promoção da piedade cristã, tinha sido colocada na Igreja Matriz da vila de Ponte e Lima e era festejada no mês de Setembro. Assim, antes das feiras (novas) já existiam, em Ponte de Lima e na sua Igreja Matriz, festejos a Nossa Senhora das Dores, cujo retábulo remonta a 1729.

Fontes:
- Loureiro, Alberto do Vale, 25 anos, Em segunda série, O Anunciador das Feiras Novas, 2008.
- Loureiro, José Carlos de Magalhães Loureiro, Índice da Revista “O Anunciador das Feiras Novas” (1984-2013), O Anunciador das Feiras Novas, 2013.
- O Anunciador das Feiras Novas, Ano II – Setembro de 1948, N.º 2.
- O Arauto das Feiras Novas, Ano 13.º, 1938.
- Vieira, Amândio de Sousa, Feiras Novas, 1826-2006, Foto Lethes, Ponte de Lima, 2006.
- Vieira, José Sousa, As Feiras Novas em Revista, Limiana – Revista de Informação, Cultura e Turismo, Ano II, N.º 10, Dezembro de 2008.
 - Vieira, José Sousa, A Imprensa das Feiras Novas, O Anunciador das Feiras Novas, 2007.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Agora, nenhuma frase sabe ler...



Agora, nenhuma frase sabe ler…


Em alguns anos, a minha colaboração no O Anunciador das Feiras Novas incluiu textos de natureza poética, vários referindo as Feiras Novas e que aqui agora reunimos:


 - Em 1997 (O Anunciador das Feiras Novas, n.º XIV)

FEIRAS NOVAS

Tenho das Feiras Novas
a imagem duma cheia
roubada ao Lima,
em sonho estranho, fantástico,
onde os homens,
diluindo-se compactos,
se assemelham a imenso caudal,
estridente, multicolor, irreal,
engolindo a paisagem
em ininterrupto confluir
de correntes irregulares.

E eu sou integrado
nessa água virtual,
estonteante, ensurdecedora,
que faz esquecer,
como o Lethes da lenda,
e durante três dias
me deixa feliz,
com despreocupada e ingénua
alegria de petiz.


- Em 2000 (O Anunciador das Feiras Novas, n.º XVII)

FOGOS-VÁRIOS

das Feiras Novas
só sei
a noite,
em claro,
de verde e lume,
e as tintas,
matizes vários,
oiro, prata,
luz, sombra,
que no céu
se espreguiçam,
nos amedrontam,
encantam
e deixam tontos.

das Feiras Novas
só sei
som
cor
cheiro
sabor

e também
a palpação duns olhos
de terra,
nu
fogo-fátuo
amor.


- Em 2001 (O Anunciador das Feiras Novas, n.º XVIII)

Das Feiras Novas
já tudo foi dito.
Agora, nenhuma palavra
pode declamar
o que esta festa,
entre o Lima e a Madalena,
sussurra na consciência
dos que a querem possuir.

Já tudo está escrito.
Agora, nenhuma frase
sabe ler
o que esta festa
redige nas pedras
da ponte e da matriz
nem se a caneta de fogo
faz as estrelas sentir.

Já tudo é finito.
E nem mesmo o poeta
vê nos olhos das crianças
o deslumbramento,
o espanto,
com que esta terra,
mesclada na festa,
lhes atira
e ao invés de as assustar
as faz sorrir.


- Em 2003 (O Anunciador das Feiras Novas, n.º XX)

Feiras Novas, mulher mia,
Em Ponte de Lima, madre da poesia,
Irmã lídima da Senhora da Agonia
Rainhas, princesas das romarias,
Alvoroço em matizes e sabores,
Sidra, concertinas, amizades, amores…

Nossa festa, areal, glória e alma
Orgulho de ser soberano povo aqui,
Vivendo, em fremir e calma,
As noites, os dias em que te possuí
Sonhando, pois é sonho estar em ti.


quarta-feira, 13 de setembro de 2006

A IMPRENSA DAS FEIRAS NOVAS



O Arauto das Feiras Novas é a primeira publicação anual dedicada às feiras que, desde 1826, em Ponte de Lima se realizam, associadas aos festejos a Nossa Senhora das Dores, estes, ao que se sabe, vindos dos finais do século XVIII.
Da responsabilidade de Eduardo de Castro e Sousa, também proprietário e director do jornal Rio Lima, surgido no último dia de 1922, e que, na opinião de Júlio de Lemos, "era um gráfico muito inteligente e provada disposição de localista", O Arauto das Feiras Novas é editado, pelo menos, durante 13 anos consecutivos, de 1926 a 1938.
Volvidos nove anos, em 1947 e, novamente, em 1948, Augusto Amorim de Castro e Sousa, filho de Eduardo de Castro e Sousa e Laura Caldas de Amorim, publica O Anunciador das Feiras Novas. Homem ligada à imprensa, quer como tipógrafo quer como colaborador e correspondente de vários jornais locais e nacionais, onde se inclui o jornal República, Augusto Castro e Sousa legou-nos, ainda, os livros, "Nas Horas Livres da Minha Profissão" e, em colaboração com António Soares Correia, "Elucidário Regionalista de Ponte de Lima".
Em 1984, num gesto louvável e revelando grande capacidade empreendedora, desprendimento e espírito de sacrifício, Alberto do Vale Loureiro fez ressurgir O Anunciador das Feiras Novas - título mantido em homenagem ao seu mestre de artes gráficas, Augusto Castro e Sousa - desde logo com importante colaboração de cariz histórico e cultural, só aflorados nas modestas publicações anteriores, e que, com crescente interesse e consequente impacto, tem sido todos os anos publicado e vem preenchendo, com dignidade, um assinalável espaço.
O número XXIII, de 2006, está já disponível, recheado de colaboração diversificada, a vários níveis.
Bibliografia :
- Lemos, Miguel Roque dos Reis - Anais Municipais de Ponte de Lima, Ponte de Lima, 1938
- Vieira, Amândio de Sousa - Feiras Novas - 1826-2006, Ponte de Lima, 2006.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

25 ANIVERSÁRIO DE "O ANUNCIADOR DAS FEIRAS NOVAS - HOMENAGEM A ALBERTO DO VALE LOUREIRO


Um grupo de amigos e colaboradores de “O Anunciador das Feiras Novas”, no ano em que a publicação completou a vigésima quinta edição, decidiu promover um jantar convívio com o intuito de homenagear Alberto do Vale Loureiro, a quem se deve o (re)aparecimento, em 1984, deste título da imprensa ponte-limense.
É um singelo mas justo gesto de apreço por um homem que com arrojo e dedicação abriu as páginas do seu Anunciador, acolhendo diferentes contributos de poetas, prosadores, fotógrafos e ilustradores, autores populares e eruditos e, ano após ano, com denodo, tem dado muito de seu, sem esperar proventos e lugares, para que a tradição, cultura e expressividade do seu concelho possa expandir.
É quase uma obrigação que os colaboradores, e outros amigos de “O Anunciador das Feiras Novas”, se associem a este encontro, marcando presença no próximo dia 11 de Outubro de 2008, pelas 19h00, no Restaurante Manuel Padeiro.
As confirmações podem ser efectuadas, via e-mail (para fotolethes@sapo.pt) ou pelo telefone 258 942 837. O custo do jantar, com garantia de uma ementa de qualidade, é de € 20,00, por pessoa.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Provisão a autorizar as feiras (novas) de Ponte de Lima


(D. João VI e seus filhos, Infanta Isabel Maria e D. Pedro IV.)

A Provisão, de 1826, a autorizar os três dias de feira, em 19, 20 e 21 de Setembro, de cada ano, solicitados pelos moradores de Ponte de Lima, em 1825, não se encontra, ao que sabemos, no Arquivo Municipal, onde só existe, no livro de 1819-1829, o registo exarado a 7 de Junho de 1826 e, curiosamente, referindo o nome de D. João (VI), como responsável pela concessão. Infelizmente, o original parece ter desaparecido, como muitos outros documentos.
A primeira transcrição pública que da mesma conhecemos, na sua parte principal, deve-se a António Amorim, e está inserida na revista Gente Minhota, de Setembro de 1926. De idêntico teor é a cópia incluída no Almanaque de Ponte de Lima, de 1927 (com impressão concluída somente a 31 de Outubro de 1928). Ambas, se a memória não nos falha, referem D. Pedro IV como monarca titular, à data da concessão da mercê, o que nos leva a concluir que, possivelmente, o original era localizável em Ponte de Lima, ainda nessa época, ou que alguém teve, então, acesso ao registo existente na Torre do Tombo.
Embora Miguel Roque dos Reis Lemos já em 1879, no Commercio do Lima, n.º 208 de 19 de Novembro, tenha referido que "as feiras francas anuais denominadas de Novas (...) datam do ano de 1826, criadas por alvará régio de 5 de Maio", nada mais esclarece, pelo que é impossível determinar se, ele, terá consultado o original ou a transcrição existente nos livros municipais.
No livro de Amândio de Sousa Vieira, Feiras Novas - 1826-2006, que foi apresentado a 5 de Maio do corrente ano, vem, na página 13, fotografia, obtida na Torre do Tombo, do registo do documento (na Chancelaria de D. Pedro IV), no Livro 6 - Fólio 23, confirmando o nome de D. Pedro IV. Ainda, na mesma obra, na página seguinte, é reproduzido o registo da Provisão, existente no Arquivo Municipal de Ponte de Lima, e se lembra, o que, aliás, o Padre Manuel Dias tinha já feito no Anunciador das Feiras Novas de 1989, que o governo, na altura da autorização das feiras (novas), "era assegurado por um Conselho de Regência, presidido pela Infanta D. Isabel Maria, filha de D. João VI".
De facto, muito embora o período de grande instabilidade que a governação do país atravessava, e das enormes incertezas que ainda subsistem acerca de alguns acontecimentos dessa época, é consensual que a 6 de Março de 1826 é nomeado um conselho de regência presidido pela Infanta D. Isabel Maria e que, oficialmente, D. João VI falece a 10 do mesmo mês. Dez dias depois, a Regência reconhece D. Pedro (então Imperador do Brasil), como legítimo rei de Portugal, o quarto desse nome, e manda passar todos os diplomas do Governo em seu nome. E embora este tenha abdicado, condicionalmente, a 2 de Maio, a favor da sua filha D. Maria da Glória , futura rainha D. Maria II, nascida em 1819, e, então, com 7 anos, a regência continua, em seu nome, até 1828, altura em que D. Miguel toma o poder.
Assim, a atribuição a D. Pedro IV da Provisão a autorizar as feiras (novas) é, no nosso entender, correcta, não descartando que, na prática, a mesma foi concedida pela Regência de D. Isabel Maria. O aparecimento do nome de D. João, no registo da Provisão existente no livro municipal, é, claro, um anacronismo, cujas verdadeiras motivações parecem ter de ficar, para sempre, por revelar.

domingo, 20 de maio de 2007

Vaca das Cordas - 1908

No Almanaque Ilustrado de O Comércio do Lima, 1908, o Padre Roberto Maciel escreveu:
“A propósito aí vai a tradição que explica o antiquíssimo brinquedo da ”vaca das cordas“, em véspera do Corpo de Deus. A igreja Matriz da primitiva Vila era templo pagão dedicado a uma deusa, que eles, os pagãos, adoravam sob a forma duma vaca.
Quando os cristãos fizeram sua esta Vila e converteram em templo cristão a igreja, tiraram dum nicho a imagem da deusa Vaca, prenderam-na com cordas, com ela deram três voltas à igreja e depois arrastaram-na pelas ruas da Vila, com aprazimento de todos os habitantes. Daí o tradicional costume da “vaca das cordas” (hoje parece-me que é “touro”) ainda com as três voltas à igreja Matriz e correria pelas ruas, para gáudio do rapazio e até dos mais velhos, com tanto que se pilhem, seguros, vem longe da rede que os da corda costumam lançar-lhes.”
É claro, esta explicação da origem da Vaca das Cordas não resiste a um confronto com a história, mas fica pelo seu cunho lendário e porque, ao descrever a forma da sua realização, no seu tempo, o Padre Roberto Maciel, então com 38 anos, nos deixa um pormenor interessante: a rede que, segundo ele, os da corda lançavam.
Seria para proteger o animal daqueles que “procuravam atingi-lo com o afilado prego seguro na extremidade de uma vara”?[i]
[i] - como transcreve, de um exemplar do jornal O Eco do Lima, do ano de 1908, José Carlos Loureiro, em O Anunciador das Feiras Novas, do ano de 1994.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

OS LIMIANOS NA GRANDE GUERRA - Luís Dantas


OS LIMIANOS NA GRANDE GUERRA  - Luís Dantas*

   

 Foi José Carlos de Magalhães Loureiro (a 10 de Setembro de 2008, no blogue Anunciador das Feiras Novas) quem, do que conheço, melhor revelou o trabalho de Luís Dantas, Os Limianos na Grande Guerra, e o autor, com a honestidade e simplicidade que quem o percebeu lhe atribuiu como intrínseca, reconheceu e agradeceu.
   Sendo uma obra onde se equilibram o rigor histórico e o pendor literário, seria simplificar, passados dez anos da edição, afirmar que, no que concerne aos “limianos”, agora, o autor nos deixaria mais sumarenta narrativa, e, em mim, uma completa desonestidade não desconhecendo que, já em 22 de Novembro de 2007, Luís Dantas escrevia: “Não me foi possível fazer o levantamento da maior parte dos limianos que foram mobilizados para as campanhas de África (1914-1918) e França. Esses heróis estão sepultados no Arquivo Geral do Exército. Um Arquivo miserável. Só dão informações por requerimento e mesmo assim tem de se levar o nome, a naturalidade, a data do nascimento. Vão passar 100 anos sobre a guerra e a história desses homens está desprezada. Uma vergonha. Só agora é que o arquivo Histórico Militar está a colocar as fichas do C.E.P. com o nome e localidade no computador. Fiz o que foi possível.” E, mais tarde, a 30 de Dezembro do mesmo ano, Luís Dantas revelava: “Afinal sempre vou fazer o agradecimento a todos que contribuíram para o livro… foi essa gente a minha principal fonte. Foi essa gente que permitiu trazer à história o nome e o rosto de muitos soldados da nossa terra…”.
   Todos sabemos que é hoje possível aceder a informação relevante com facilidade o que permitiria ao autor uma “2.ª edição”- que anteviu mas, infelizmente, não pôde concretizar - praticamente completa quanto aos nossos que participaram no conflito, mas não ignoramos que, apesar de todas as dificuldades, também nesta vertente, Luís Dantas nos deixou um trabalho de enorme dignidade e, no essencial, revelador. Sintetizando e concordando com José Carlos de Magalhães Loureiro, a quem cito, “a partir deste trabalho, deixa de haver “antigos combatentes limianos”, colectivo anónimo puramente comemorativo.”
   E isto sem prejuízo de que, entre outros, também Adelino Sampaio, o último presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima na 1.ª República, na sua qualidade de corresponde do jornal O Primeiro de Janeiro e nesse jornal, de 6 de Maio de 1933, havia recordado a participação local na 1.ª Grande Guerra, o que também fez, nos aditamentos aos Anais Municipais de Ponte de Lima de Miguel Roque de Reis Lemos, editados em 1938, Júlio de Lemos.
   Como não podemos ignorar que o armistício foi recebido em Ponte de Lima em festa, como nos informa o jornal Cardeal Saraiva de 14 de Novembro de 1918 e, em 1921, aquando do acolhimento nacional aos “soldados desconhecidos”, também na nossa localidade existiram comemorações diversas sendo até efectuado o “lançamento da primeira pedra para o monumento que a Câmara manda erigir aos soldados do concelho mortos…”(CS 460, 1921.04.07). Ainda que a 7 de Abril de 1923, na sessão da Comissão Executiva da Câmara, o Dr. Adelino Sampaio, então seu presidente, apresentou a seguinte proposta: / … 1. Que se inscreva no primeiro orçamento suplementar a verba necessária para mandar erigir no Largo de Dr. António de Magalhães…um Monumento consagrado aos Mortos da Grande Guerra, segundo o projecto fornecido pela Junta Patriótica do Norte; / 2. Que sejam inscritos num livro de Honra os nomes de todos os oficiais e soldados deste concelho, que tomaram parte na Grande Guerra – para o que solicitarão das entidades competentes as indispensáveis informações./ 3. Que se inquira da situação económica não só dos soldados sobreviventes, como das famílias dos já falecidos, afim de lhes ser prestada, como dela precisem, a assistência devida, finalmente; 4. Que a Câmara tome a iniciativa de abrir uma subscrição pública, cujo produto constituirá os dotes dos filhos dos soldados deste concelho que morreram ao serviço da pátria. Embora aprovado o  certo é que em 1926, a 4 de Março era noticiado, em texto de António da Baldrufa, ainda no jornal Cardeal Saraiva, n.º 677: “Foi já há alguns anos, por uma tarde luminosa, que se galardoou, condecorando com a Cruz de Guerra um humilde soldado da Flandres… /…./ Foi igualmente nessa mesma tarde de sol triunfante, após o Sr. Dr. Cândido da Cruz…então Governador Civil do Distrito, ter colocado no peito do humilde herói a Cruz de Guerra, que lançaram a primeira pedra para um padrão comemorativo das campanhas de África e da Flandres, perpetuando o esforço dos soldados limianos nessa monstruosa conflagração./ … Foram simultaneamente o baptismo e o de profundis dessa bela ideia: a própria pedra foi levada não sabemos para que paradeiro…”/..e acrescenta: “Quando o Dr. Adelino Sampaio assumiu a presidência do Município em 1923, oficiou para os párocos de todas as freguesias do concelho pedindo os nomes dos combatentes mortos e várias outras informações. Pois até há muito pouco tempo ainda não haviam chegado as elucidativas respostas. Este gesto de indiferença é o mais categórico reflexo do desleixo colectivo por uma iniciativa nobre e patriótica – a perpetuação do nosso maior esforço nos últimos séculos./… /…
   Por último, importa referir que, nessa campanha, sem cuidar de situar o legítimo posicionamento de cada um, quer quando a causas, quer quanto a consequências, e sabendo que as guerras afectam os que vão e os que ficam, é justo pedir atenção para mais um nosso conterrâneo que terá contribuído para essa participação: Alfredo Cândido, um dos nomes referidos como estando ligado à propaganda do CEP.

*Texto lido a 22 de Julho de 2018, na Feira do Livro de Ponte de Lima, aquando da iniciativa promovida pela livraria ler.com.gosto.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...

 


...na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537...é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista...


De Diogo Bernardes – O Nosso Elegante Teatro:

 

1.     UMA POVOAÇÃO NA ROTA DO ESPECTÁCULO [excerto]

 

1.1  - A FEIRA E A PONTE

  «No século XII, o lugar de Ponte não era pobre, nem pouco povoado, nem desprovido de acessos porque tinha o rio, os atalhos, a ponte e a estrada da época dos romanos a servir o vaivém dos homens na rota da feira, das festas, das tropas e das jornadas peregrinas. Por aqui passavam os bufões, que tinham acompanhado a turbamulta dos mercenários suevos, a arregalar os olhos da assistência com o atrevimento das suas danças, velhacarias, diabruras, chistes, caretas e disfarces… Mais tarde, no tempo da vila medieval chegam outros marginais: menestréis, jograis, bailarinas, ciganas, charlatães e trupes de saltimbancos.»[1]

   E assim por outros tempos, enquanto terra a bordar a única ponte[2] existente a unir as duas margens que o rio Lima separava, e após, onde a feira[3] criava um bulício especial, de homens e suas transacções, muito além do quotidiano.  

   Com o crescimento e estruturação do concelho passam também a pertencer-lhe os usos e costumes dos vulgos anexados, as suas crenças e diversões.

 

   1.2 – FESTIVIDADES. OS TURCOS DE CRASTO. 

   Do contencioso gerado por decisão do Corregedor da Comarca a 28 de Março de 1536, na Sentença de Desagravo de D. João III, a 17 de Fevereiro de 1537,[4] consta que algumas práticas são consideradas de antigo e imemorial uso e costume que sempre fora na dita Vila (Ponte de Lima) por honra da Festa de Corpus Christi. E nela, que a esta localidade poderá ter chegado praticamente nos alvores da sua introdução em Portugal em Coimbra, festa a 1266 e com procissão a 1307,[5] como é conhecido, os espectáculos rivalizavam, quando não se fundiam ou turbavam, a religiosidade. A «procissão até 1749 fazia-se...com as cenas burlescas, ridículas e grotescas dos grémios dos diferentes mesteres, danças, folias, coros de diabos e diabas com seus uivos e lubricidades que divertiam o povo. Atrás disto seguia um homem a cavalo, figurando de S. Jorge com seu pajem, e após a Procissão séria, como hoje se usa. Aquelas caricaturas acabaram em 1750 com a proibição que se contém na Provisão de D. João V, passada em Março desse ano…».[6]

   Na mesma sentença é referida, entre outras, a festa a S. João Baptista e é nela que haveremos de encontrar, com maior e continuada expressão, os “Bailes,”[7]  de que alguns de cariz mais religioso chegaram a acompanhar a procissão com referências já na segunda metade do século XIX, em que o canto, a dança, a música e os diálogos se podiam unir e espalhar essas representações, diversificadas (dos Pretos Grandes, dos Pretos Pequenos, dos Canecos, dos Velhos, das Feiticeiras, dos Galegos, do Penedo, dos Pastores, da Mão de Deus, de Isabel e Zacarias, Galateia, dos Alfaiates, dos Sapateiros, dos Lavradores, dos Camponeses, das Camponesas, Uma freguesia em desordem, da Espadelada (as espadeladeiras), do Rei David, Processo do Rasga, O Povo do nosso lugar, etc.), por toda a vila. E se, por quase todos, eles eram considerados como fazendo “as delícias deste bom povinho…”,[8] “já pela sua originalidade, como pela hilaridade que provocam…”,[9]são sempre a alegria e o divertimento indispensável ao bom humor do nosso povo”,[10] em contraste flagrante também se referiu que “em verdade não sabemos se nos causa repugnância, gargalhadas ou nojo ver que a festividade dum santo…é aqui celebrada com rapazes quase nus, sujos, pintados de preto e felugem e água, fazendo pelas ruas trejeitos malcriados, selvagens, com uns regougos de sandices na maior parte obscenas. / Os tais bailes são isto: - uma selvageria.”[11]

 

    Habitualmente ao ar livre e desempenhadas por amadores locais, por vezes reforçados com elementos de outras terras,[12] ou oriundos de outras freguesias com companhia itinerante formada, como é o exemplo da de Comédia do Melinho,[13] as récitas (comédias, dramas, bailes, etc.) foram tendo lugar em festividades realizadas em muitas das freguesias do concelho limarense (entre outras, Ribeira – Nossa Senhora da Abadia, Senhor da Cruz de Pedra, Santo António; Arcozelo – Nossa Senhora das Dores, Senhora da Luz, Senhor dos Aflitos, S. Pedro; S. Martinho da Gandra – Nossa Senhora da Rocha; Calheiros – Senhor dos Perdidos; Correlhã – Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora das Neves; Estorãos – Santo Amaro; vila – S. Benedito, S. Pedro na rua António Feijó (Pinheiro), S. João; Calvelo – Senhor do Calvário; Bárrio – Nossa Senhora da Abadia).

  A mais persistente é a da «Turquia» (Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos). Com rigor, não se conhece quando se iniciou nem quem a trouxe. Parece certo que não foi criada localmente e, desde que a imprensa escrita a acompanha, sabemos que está associada à festa ao Senhor da Cruz de Pedra, no lugar de Crasto, na freguesia da Ribeira, Ponte de Lima.[14]   Desde sempre a referida imprensa lhe atribuiu antiguidade. Por exemplo, em 1892,[15] embora a considerasse produção local, precisava: «A pantomina dos «turcos e cristãos», peculiar dos de Crasto foi exibida a rigor, com denodo e saber entre as hostes beligerantes! / Os papéis, que dão água pela barba, de parte a parte foram executados sem vergonha para as caveiras das passadas gerações do lugar, que inventaram num arranque de catolicismo e mandaram para a posteridade tão famosa composição, que teve certamente o beneplácito do «Santo Ofício» …/ O povo aplaudiu, se não com tanta fé ao menos com entusiasmo igual ao dos espectadores de há cem anos!».

  A primitiva descrição, que dela conhecemos,[16] ajuda a confirmar a sua antiguidade e a informação difundida por Cláudio Basto[17] quanto a haver “sofrido, pelos anos adiante, modificações e aditamentos…”: «Seriam 3 horas da tarde ouvem os muitos romeiros que ali se achavam quase ao mesmo tempo dois hinos guerreiros um do lado da igreja paroquial da freguesia, e outro do desta vila, e pouco depois chegam daquele perto de vinte cristãos armados de lanças com uma banda de música de arraial à frente, os quais pararam em frente à capela do Senhor festejado e igual número de turcos do lado oposto, com alfanges e outra banda de música, que se colocaram em frente da casa do Sr. José Manuel Gonçalves, mediando entre uns e outros cem metros da nova estrada, orlada com os globos da iluminação da véspera.

     Aflui o povo de todas as partes, admiram-se os seus vestuários e armaduras e especialmente do rei daqueles, e sultão destes, e dos generais de ambos os bandos.

     Mal se avistam não lhes sofre o ânimo conterem-se, e uma partida de seis de cada lado caminham para a frente, e antes que os turcos usassem das suas armas os cristãos dão dois tiros, matando dois turcos, um antes de uma delas se desfechar, (tal foi o medo) e o outro depois, que ficam estirados no meio da estrada fugindo todos os restantes dez a reunir-se ao grosso da sua respectiva tropa.

     Os turcos assanham-se e marcham sobre os cristãos que fogem a encerrar-se precipitadamente no seu castelo de modo que lhes apanhados uns poucos de burros com bagagens, dois dos quais são aproveitados para conduzir escarranchados os dois turcos mortos, que vão fazendo cortesias com os olhos fechados. Os turcos altivos com a sua tomadia recolhem-se à sua praça, e querendo aproveitar a ocasião, depois de informados por espias da posição dos cristãos invadem o castelo e tomam-no, mas por uma incúria só própria do seu general, e do sultão que só tratava de mirar-se a si, e ao muito ouro que trazia ao pescoço; deixam a sua praça sem guarnição, de forma que os cristãos fugidos e acossados metem-se nela e aí se fortalecem.

     Aparecem parlamentários de uma parte e de outra, e põem-se a comer à mesma mesa, até que um mata o outro, fugindo o vivo para o lado dos seus e arrastando-se o morto para onde lhe conveio.

     Ambos os exércitos porém resolvem vir às mãos, batem-se em pelotões de quatro a quatro e depois de dois e dois, batendo com as armas nos escudos dos adversários em três encontros que têm lugar no meio da arena em corridas desordenadas ao toque de música. Em seguida batem-se um a um, e no fim das investidas cada soldado cristão vai arrastando o seu turco, depois o general daqueles arrasta o destes, e por último o rei faz o mesmo ao sultão, no meio de risadas estrepitosas e assim acabou a acção…».

  E se depois deste relato se assegurou que “o famoso episódio dos Turcos, de estilo nesta romaria, e que de largos anos tem passado de pais a filhos, invariável, uniforme, sem a maior uma simples peripécia, zombando assim da filosofia, que assevera que o mundo, e as coisas dele sempre caminham, sob o benefício influxo de um novo mundo, que se diz Progresso!,”[18] é certo que, para além de personagens e atavios, pelo menos em representações posteriores ao que nos é asseverado de que “de ordinário se representam combates de mouros e cristãos, que terminam pela morte dos primeiros a fio ou ponta de espada dos segundos,”[19] o invariável caiu, e a morte da totalidade dos turcos foi substituída pelo baptismo da maioria, como as récitas mais próximas nos confirmam.

 

 



[1]              DANTAS, Catarina; DANTAS, Luís – O Circo em Ponte de Lima, Luís Dantas, 2009, pg. 27.

[2]              ALMEIDA, Carlos A. Brochado – A Via XIX em Território Limiano, Município de Ponte de Lima, 2008, pg. 12.

[3]              RAU, Virgínia – Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Editorial Presença, 1983 (2.ª edição), pg. 63/64

[4]              VIEIRA, Ovídio Sousa; COSTA, Ana Cristina Amorim – Correr Touros em Ponte de Lima – A Vaca das Cordas, Comissão Organizadora da Vaca das Cordas, 1998, págs. 56-61.

[5]              AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) – História Religiosa de Portugal, Volume 2, Círculo dos Leitores, 2000, pg.564.

[6]              LEMOS, Miguel Roque Reis – Apontamentos para as Memórias das Antiguidades de Ponte do Lima, 1873, p.67 (PT/MPTL/CMPTL35/C-F/003)

[7]                Em «Uma simples chamada de atenção…», O Anunciador das Feiras Novas, II Série, n.º III, 1986, Maria Emília Sena de Vasconcelos escreve, com base em informações de Severino Costa, “que alguns destes «Bailes» comportavam «história», (enredo, composição…) ”. No Arquivo Municipal de Ponte de Lima é possível espreitar documentos referentes a uma reconstituição do Baile da espadelada, onde não falta a “parte cénica” (PT/MPTL/GBE).

[8]              Jornal Vida Nova, Viana do Castelo, n.º 262, 26 de Junho de 1894.

[9]              Jornal Cardeal Saraiva, Ponte de Lima, n.º 152, 18 de Junho de 1914

[10]            Jornal Rio Lima, Ponte de Lima, Ano 2.ª, n.º 16, 15 de Junho de 1924.

[11]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 1397, 27 de Junho de 1880.

[12]              Como nesta em que “adoeceu o Santo…num dos domingos últimos, numa das aldeias deste concelho” numa “festa a Santo António…” onde “se fez um tablado para a representação do drama sacro St.º António; e segundo nos dizem, quem desempenhava o papel do Santo era cá da nossa vila. / O dia estava quente; e por isso a secura era natural. O homem comeu bem, bebeu melhor; e o pano do tablado corre-se. Por certo que era para começar o espectáculo. E assim foi. O espectáculo começa; os actores vão desempenhando os seus papéis, senão como deviam, ao menos como podiam, e os aplausos e saudações fervem sobre eles. / Quando o entusiasmo chegava a delírio, aparece uma pequena interrupção. No palco nota-se descontentamento e dentro do cenário manifesta-se um tal ou qual alvoroço. Tudo ficou silencioso por momentos e o palco despovoado de actores. Os espectadores interrogavam uns aos outros. E, quando se estava neste ponto, aparece um dos actores, dando a seguinte notícia. «Não continua o espectáculo, porque adoeceu o santo.»/ Vago rumor entre os espectadores; e tudo se retira com o maior sentimento. / Averiguado o caso, fora uma indigestão, porque o homem está óptimo. E assim acabou tão tristemente a festividade.” (Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 599, 18 de Julho de 1872.)

[13]            “Representação cheia de cor local, com um pronunciado cachet provinciano” sendo o Melinho, numa apreciação onde não sabemos o tamanho da ironia, “uma vocação artística completamente perdida, segundo dizem alguns estendedores. A sua figura graciosa, deveria exibir-se ao calor mordente da rampa iluminada pelo gás da ribalta, e os seus braços eram mais próprios para os grandes gestos trágicos do teatro de Shakespeare, do que para o fabrico do cerol e para retesar com fúria a presilha ensebada do tirapé. / Eis aqui um grande dilema imposto pela sorte à maleabilidade dos destinos humanos: - ser um génio ou um sapateiro…” (Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 198, 10 de Setembro de 1879.)

[14]              REIS, António Matos (1980, Origem da «Turquia» de Crasto, Almanaque de Ponte de Lima) e SOUSA, João R. (1984, Turquia – Drama das Grandes Guerras entre Turcos e Cristãos), talvez os mais recentes investigadores a estudarem a peça, coincidem em designá-la de teatro popular de terreiro, tardo-medieval, dos fins do séc. XV ou inícios do século XVI, e de que não é originária do concelho de Ponte de Lima.

[15]              Jornal A Semana, Ponte de Lima, n.º 19, 18.08.1892.

[16]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima,  n.º 510, 27.08.1871

[17]            BASTO, Cláudio (1917-1918, Lusa – Folha quinzenal de letras e ciências, Viana do Castelo, Ano I, n.º 15-16, 15 Out e 1 Nov 1917, pg. 119-124 e Ano II, n.º 30, 1 de Junho de 1918, p.45)

[18]            Jornal O Echo do Lima, Ponte de Lima, n.º 709, 21 de Agosto de 1873.

[19]            Jornal O Commercio do Lima, Ponte de Lima, n.º 195, 20 de Agosto de 1879.

Ilustração: Postal de figuração do Baile da Dança do Rei David, na cidade de Braga.

 


domingo, 7 de janeiro de 2007

IMPRENSA PERIÓDICA - NOVOS TÍTULOS 1910-1926




Imprensa periódica surgida em Ponte de Lima, durante a 1.ª República.
A imprensa escrita surgiu em Ponte de Lima, ao que se sabe, em 1865, com o jornal O Lethes, e desse ano até Outubro de 1910 apareceram mais de 30 novos títulos, entre eles o Cardeal Saraiva, único sobrevivente, que se publica desde 15 de Fevereiro de 1910.
Durante a 1.ª República  nasceram, pelo menos, 9 novos títulos, que abaixo se enumeram e todos já extintos, e o “Estado Novo” quase passava sem deixar nova marca jornalística. No impasse surgido com o falecimento de Avelino Guimarães, então proprietário e director do jornal Cardeal Saraiva, com direcção de Alcides Pereira foi lançado o jornal O Lima, o 2.º desse título em Ponte de Lima, que se editou de 12 de Março de 1960 a 23 de Dezembro de 1961.
Após o 25 de Abril recordamos O Povo do Lima (1975); À Margem do Lima (1979); O Anunciador das Feiras Novas (a partir de 1984), que aqui figura pois, pela diversidade temática e qualidade de muita da colaboração, é mais do que um “anunciador de festividade”; límia – revista regional (1993-1997), de saudosa memória; jornal Alto-Minho (a partir de 1995), que apesar de surgido numa época difícil para a imprensa escrita, principalmente a local e regional, tem conseguido prosperar; Lima-Viva, surgido em 2004, que sendo, essencialmente, um quinzenário publicitário conseguiu, enquanto se publicou, incluir informação de interesse com destaque para a coluna de Alexandra Esteves; Novo Panorama (2010) que desde   2011 tem a sua sede em Ponte de Lima e demonstra atenção às temáticas limarenses.
Também não esquecemos outras publicações, de antes e após o 25 de Abril de 1974, de órgãos do poder local, paróquias, colectividades, escolas, etc., mas que, pelas suas características, nos dispensamos de pormenorizar.
Quanto ao Arquivo de Ponte de Lima, com volumes referentes aos anos de 1980 a 1993, primeiro dirigido por José Rosa de Araújo e depois por João Gomes de Abreu de Lima, com inegável interesse e cujo desaparecimento entristece, atendendo a que a sua edição, geralmente, não era coincidente com a data de capa (o que sabemos, com menor visibilidade, também aconteceu com outros títulos) sai do conceito de imprensa periódica.

Imprensa periódica – novos títulos (1910-1926)
1.º - (jornal) Armazéns de Lisboa, 1911, Direcção de José Alves de Sousa Júnior*.
2.º - (jornal) Notícias do Lima, semanário, direcção de Domingos Barbosa, aparecido em 1912, conforme noticiava o jornal O Commercio do Lima, n.º 279, de 17/2/1912.
3.º - (revista) Limiana, revista literária, com 12 números publicados entre Julho de 1912 e Outubro de 1917 com direcção de Severino de Faria e Júlio de Lemos.
4.º - (jornal) Democracia do Lima, com o 1.º número publicado em 9 de Janeiro de 1921, dirigido por Teófilo Carneiro, um nome de referência da cultura e política ponte-limense, e que subsistiu até ao n.º 69, de 21 de Maio de 1922. Cremos que a sua curta existência se deveu à eleição para deputado, pelo Partido  Republicano Português (Democrático), de Teófilo Carneiro que assoberbado com o trabalho parlamentar não quis, artificialmente, manter a publicação de que era o grande impulsionador.
5.º - (jornal) A Risota,, iniciativa “da alegre rapaziada pontelimense...um pequenino semanário humorístico...” (Cardeal Saraiva, n.º 452 de 3 de Fevereiro de 1921), com direcção de José Maria de Oliveira Pimenta.
6.º - (jornal) O Kodak, “novo quinzenário local ...muito bem redigido e com excelente aspecto gráfico”, refere o jornal Democracia do Lima, no seu n.º 33 de 28/8/1921, com direcção de João José Correia; Redacção e Administração de Manuel Ferreira e António Amorim.
7.º - (revista) A Junta Escolar, 1921, mensal, pedagógica, artística e de elucidação para os Secretários das Juntas Escolares e para todos os professsores do ensino primário geral. Ed. Caetano José de Oliveira
8.º - (jornal) Rio Lima, aparecido em 31 de Dezembro de 1922, com edição, propriedade e direcção de Eduardo de Castro e Sousa. Foi, de todas as publicações periódicas surgidas durante a 1.ª República (1910-1926), a que mais tempo resistiu.. Embora tivesse diversas interrupções, e alterações de periodicidade,.ainda se publicava em 1937.
9.º - (jornal) - O Independente, 1925, semanário republicano, Propriedade e redacção de Geraldo Dantas

Importa referir que nos Anais Municipais de Ponte de Lima é mencionado o aparecimento, em Julho de 1912, do jornal A Semana. No entanto, desconhecemos se assim terá sido e parece tratar-se de uma gralha que alterou o teor e a colocação da informação no texto. Possivelmente, Júlio de Lemos pretendia noticiar o reaparecimento do antigo semanário A Semana, substituindo o Echo do Lima, em 1910 (Cf. O Commercio do Lima, n.º 184 de 19 de Março de 1910).
Também, durante a 1.ª República, surgem o 5.º e 6.º volumes do Almanaque de Ponte de Lima, com direcção de António de Magalhães ( 5.º -1923) e Júlio de Lemos ( 6.º - 1924), sendo, na prática, uma nova revista pois já não ligada ao jornal O Commercio do Lima, como acontecia anteriormente.
*José Rosa de Araújo, na sua Limiana, n.º 66 de 19 de Setembro de 1986 (jornal Cardeal Saraiva n.º 3.176), refere,  “Armazéns de Lisboa”, como jornal trimestral com direcção de José Alves de Sousa e órgão do partido de modas e novidades. Terá sido publicado entre 1911 e 1912.
Não temos elementos que nos permitam, com rigor, ordenar os títulos listados (de 1 a 9), por data de aparecimento e, de alguns deles, a sua duração.

Fontes:
Lemos, Miguel Roque dos Reis – Anais Municipais de Ponte de Lima, 1938.
Veloso, Lúcia Mariano; Sousa, José M. Mota de (org.) Publicações Periódicas Portuguesas existentes na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (1911-1926), Coimbra, 1991.
Araújo, José Rosa de - Limiana, Ponte de Lima, 1993.
Imprensa local, diversos títulos.

[actualizado em 2012.10.08]

segunda-feira, 27 de abril de 2015

NO CENTENÁRIO DE AUGUSTO AMORIM DE CASTRO E SOUSA


NO CENTENÁRIO DE AUGUSTO DE CASTRO E SOUSA

     Foi em Braga, a 30 de Abril de 1915, que Augusto Amorim de Castro e Sousa nasceu. Seus pais, Eduardo de Castro e Sousa, bracarense e gráfico, e Laura Caldas de Amorim, ponte-limense e modista, habitualmente residentes em Ponte de Lima, estavam, então, a habitar naquela cidade.
     Em Ponte de Lima pronunciou as primeiras palavras, deu os passos iniciais e alinhou os estreados caracteres. Na escola teve como um dos seus professores Caetano de Oliveira, que recordou, em texto de 1959, como “o mestre amado, que mesmo depois de cego, ainda conseguiu levar a exame centenas de alunos com as mais altas classificações” e “ensinava não só a ler, escrever e contar, como a raciocinar”.
     Orientado pelo progenitor, proprietário de uma pequena oficina tipográfica e editor e director do jornal “Rio Lima”, começou a aprendizagem profissional e revelou os dotes jornalísticos. A sua inaugural colaboração na imprensa, no ano de 1931, está inserta nesse periódico, com o pseudónimo “Esparza”, e relata o jogo de futebol entre o Sport Clube Vianense e o Ponte de Lima Sport Club, realizado no dia de S. João.
   Em meados dos anos 30 rumou a Lisboa, onde aprofundou os conhecimentos, nomeadamente ao serviço da Tipografia Pinheiro & Dias, e reforçou o interesse pelas questões políticas, propiciadas pela sua formação no seio de uma classe progressiva, que tinha como uma das principais referências Alexandre Vieira, com quem desenvolveu constantes contactos e laços de amizade. 
     Regressou a Ponte de Lima, em 1947, e, a partir dessa data, aqui e daqui manteve intensa actividade, como gráfico e publicista com acentuadas preocupações sociais e culturais e participação directa em associações, de diversa natureza, integrando os corpos sociais de muitas delas. O seu nome está, por exemplo, ligado à institucionalização da banda de música de Ponte de Lima (Grupo de Cultura Musical), em 1951, e, como mestre, à Escola Tipográfica da Oficina de S. José.
    Utiliza, pelo menos, os nomes de “Augusto de Castro e Sousa”, “Augusto de Sousa”, “A. Castro e Sousa”, o acrónimo “A.C.S”. e os pseudónimos “Esparza”, “Repórter Visão”, “C.”, “A.C.” e “Cícero”, nas notícias para, entre outros, o “Cardeal Saraiva”, “Gazeta do Sul”, “O Jornal de Felgueiras”, “Cícero”,  “Os Ridículos”, “A Bola”, “Notícias da Amadora”, “A Aurora do Lima”, “República” e “Diário de Notícias” e com indignação viu por diversas vezes a censura retalhar os seus textos.
     Depois de em 1947 e 1948 ter publicado o “Anunciador das Feiras Novas”, coordena o “Elucidário Regionalista de Ponte de Lima” que, com António Soares Correia, edita em 1950. Em 1960 lança o seu livro, “Nas Horas Livres da Minha Profissão”, reunindo inéditos a textos já anteriormente incluídos em diversos jornais, alguns dos quais reformula.
     De 1948 para 1949 empenhou-se na Campanha do General Norton de Matos à Presidência da República e, após vinte e seis anos de corajosa resistência e persistente inconformismo, assistiu, com profunda emoção, à implantação da democracia, intervindo, de forma activa, na sua consolidação.
      Augusto de Castro e Sousa, como muito bem o retratou Luís Dantas, “esteve sempre aberto à universalização, mas herdou o génio romântico no ardor das suas ideias, na aventura da palavra escrita, no apego à música, na exaltação dos sentidos, no viver emotivo e apaixonado...”. E foi com todos estes traços da sua personalidade impoluta que nos deixou, a 17 de Janeiro de 1985, legando-nos as obras e, principalmente, o exemplo.
     Pode ser que um dia destes nos surpreenda e deixe conhecer o antedito livro, para o qual tinha reservado o título sugestivo de “Tartufos, Fouchés & Similares”. 


 (Versões do texto publicados em Figuras Limianas, Município de Ponte de Lima, 2008 e Jornal Alto Minho, n.º 831, 21.01.2010)

quarta-feira, 26 de março de 2008

A ASCENDÊNCIA PONTE-LIMENSE DE JOSÉ AFONSO

Nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, resultado, segundo o seu irmão mais velho, João, “da enxertia de uma cepa beirã em vide minhota, ambas transplantadas para a foz do Vouga”.
A “cepa” era José Nepomuceno Afonso dos Santos, natural do Fundão, magistrado, e a “vide” a professora primária Maria das Dores Dantas Cerqueira, nativa de Ponte de Lima, como seus pais, Rosa Augusta Dantas e Domingos José Cerqueira.
Deste seu avô, que Zeca Afonso não conheceu, escrevia Júlio de Lemos ser de “inteligência ricamente dotada” e “a bondade em pessoa” (cf. Anais Municipais de Ponte de Lima, pág. 91). José Carlos de Magalhães Loureiro, no número 22, ano 2005, de “O Anunciador das Feiras Novas”, páginas 157 a 159, dá-nos relevantes elementos desta personalidade que deixou, para a posteridade, os seus descendentes, destacando-se José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (José Afonso), mas também um papel não negligenciável na história do ensino no nosso país, com marca perene na sua “Cartilha Escolar”, aparecida em 1912.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen e Ponte de Lima

     No Lima [1]

No barco do Ponte-Nova
ou do Pai-Quim
este remansoso navegar
vai dentro de mim,

mais além do nu –
assim como o silêncio
é a essência da palavra,

e as águas são deusas
liquefeitas.

É estio no Lima.

   A Casa de Nossa Senhora de Aurora serviu como espécie de farol a relevantes actores culturais de visita a Ponte de Lima. Entre muitos outros, por cá foi passando Sophia de Mello Breyner Andresen:
  “A descida do rio Lima é tentadora e emocionante digressão, muito de aconselhar pelo deslumbramento da variegada beleza panorâmica.
  Apalavre-se na Além da Ponte o «Pai Quim», o «Ponte-Nova», ou outro autóctone, e a coisa arranja-se, ainda hoje, em 1959, por quaisquer 50 paus ou pouco mais (e comparticipação do farnel obrigatório dos viageiros). Dura umas 5 a 7 horas na melhor época, o Estio.
   Ruben A. e Sofia Andresen repetem anualmente a façanha”[2], “com paragem obrigatória para tomar chá no Solar de Bertiandos.”[3]

Sophia Andresen, Francisco Sousa Tavares e Ruben A., descendo o rio Lima  (Fotografia sem autor identificado)


    Para Ruben A. descer o rio Lima de barco é “uma das coisas raras no mundo, e que deve ser feita ao menos uma vez na vida (…) numa espantata de barca antiga através do silêncio que ainda é – verdade de um dia na terra de pegos fundos pica-peixes de popa azul salgueiros de raízes fazendo sombra veigas de Correlhã e Paços ancestrais coisa assim deslizar roçando ao de leve pela areia espanto que mais não há – rio de poetas Letes da antiguidade leva ao esquecimento quem nunca tal panorâmica retinou (…)[4]
 E como correm as águas a vida vai passando, os escritores Conde d’Aurora e Ruben A., lá desaguaram. Sophia de Melo Breyner Andresen não os esqueceu e, em 1996, a 7 de Dezembro, voltou a ter a Casa de Nossa Senhora de Aurora como farol, associando-se à homenagem ao primeiro, a quem, no Largo de S. João, foi inaugurada uma estátua.
 Nesse dia, “numa inesquecível manhã, partiram desta casa, no barco à vara do Pai Quim, para descer o rio até Viana, Ruben A. e Sophia de Mello Breyner Andresen.”[5] Porque não? A vida pode reviver.
  








Na Casa de Nossa Senhora de Aurora, a 7 de Dezembro de 1996, Sophia de Mello Breyner Andresen e o Embaixador João de Sá Coutinho. Fotografia de Amândio de Sousa Vieira.









    No mesmo local, e data, Sophia de Mello Breyner Andresen e Amândio de Sousa Vieira. Fotografia de António Carlos Matos.
                                          


 
Fontes:
- Amândio de Sousa Vieira, Ponte de Lima Outros Tempos, 1.ª Edição, Ponte de Lima, 1994.
- Conde d’Aurora – Roteiro da Ribeira – Lima, 4.ª edição (Fac-similada da Terceira (1959), e actualizada por João Gomes de Abreu de Lima), Limici, Ponte de Lima, 7 de Dezembro de 1996.
- Liberto Cruz, José Brandão, Nicolau Andresen Leitão, O Mundo de Ruben A., Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.
- Maria do Rosário de Sá Coutinho, Dr. José de Sá Coutinho, Figuras Limianas, Município de Ponte de Lima, 2007.




[1] - José Sousa Vieira, No Lima, Anunciador das Feiras Novas, Ano XVI, Ponte de Lima, 1999, pg. 103.
[2] - Conde d’Aurora, Roteiro da Ribeira-Lima, 1996 (1959), pg. 109.
[3] - Liberto Cruz, José Brandão, Nicolau Andresen Leitão, O Mundo de Ruben A., 1996, pg. 168.
[4] - idem
[5] - Amândio de Sousa Vieira, Ponte de Lima Outros Tempos, Ponte de Lima, 1994, pg. 115.